sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Colorindo


         

          Gosto de fazer pequenas reformas na minha casa, de vez em quando. Não aquelas reformas em que paredes são destruídas, os pisos são trocados, novos cômodos vão surgindo, outros vão desaparecendo. Gosto de fazer pequenas mudanças. Uma corzinha nova aqui, alguns enfeites novos ali, flores em algum lugar inesperado, talvez algumas mantas ou almofadas novas.

         Parecem mudanças insignificantes, mas não são. São pequenas, mas provocam necessidade de adaptação. Provocam estranheza, sensações novas, um calorzinho no coração quando se abre a porta.

         Essa minha vontade surge normalmente quando tudo está há tanto tempo tão acomodado, que entro em casa e nem percebo mais os detalhes. É tudo tão conhecido, tão previsível, que nem enxergo mais nada. Sequer percebo aquela estatueta que comprei naquela viagem deliciosa e que antes me trazia tão boas recordações.

         Com pequenas alterações, tudo parece novo, e os detalhes surgem novamente. O antigo conforto desaparece, para dar lugar à nossa necessidade de adaptação. E então, parece que o brilho das coisas surge de novo.

         E não é que a vida da gente é assim também? Às vezes temos a sensação de que não estamos vivendo nada de bom, que tudo está muito monótono. Não conseguimos mais enxergar o que conquistamos, o que temos ao nosso redor, e o quanto temos de bonito. Não valorizamos nem quem está ao nosso lado.

         E nessa hora tem gente que resolve destruir tudo, para recomeçar. E outros que preferem se adaptar à monotonia, e viver uma vida morna.

         Pois eu não gosto de nenhum dos extremos. A monotonia é a morte, e acho que destruir tudo só vale a pena quando está realmente ruim, não tem mais conserto. Se está bom, para que destruir? Muitos perdem a chance de desfrutar o que conseguiram, só porque não percebem que às vezes pequenas mudanças são suficientes para colorir tudo de novo.

         Então, penso que antes de reclamar da chatice da nossa vida, o ideal seria fazer pequenas alterações na rotina. O trabalho está chato? Experimente fazer as coisas de modo diferente. As reuniões com os amigos parecem um emprego? Experimente sugerir um passeio inusitado. O relacionamento não tem mais fogo? Experimente sair do sofá e descobrir um hobby novo, uma atividade desafiadora para ser feita a dois.

         Vida boa é vida assim, colorida, com desafios e com paixões. 

        Mas vida muito boa é vida na qual escolhemos nossas cores, os desafios que queremos e as paixões que desejamos.