segunda-feira, 2 de maio de 2011

Minha amiga, a Saudade


"Morro de saudades. Que coisa maluca a distância, a memória. Como um filtro, um filtro seletivo, vão ficando apenas as coisas e as pessoas que realmente contam.." 
Caio Fernando Abreu            

           Distância faz nascer a saudade. E saudade dá amnésia. Uma amnésia seletiva. As lembranças ruins começam a se dissolver, até quase desaparecer. E ficam só as boas. Ou então os momentos ruins passam a nem parecer tão ruins assim. E aí a saudade parece que provoca dor.

            Os sentimentos ficam confusos quando estamos com saudade. Ou então na realidade eles são claros na saudade, e confusos na presença. Mas é só com saudade que percebemos quanta coisa fizemos e que não deveria ter sido feita. Quanto tempo foi desperdiçado.

             A saudade aparece na vida da gente de diversas formas. Tem a saudade de quem vai voltar, e como é bom sentir essa saudade. A saudade de quem se foi pra sempre, a ausência definitiva. E a saudade de quem não se foi mas também não está mais conosco. A ausência presente. A presença que está ali, mas de maneira diferente. E essa é a mais estranha das saudades.

            Não há o que fazer com a saudade, quando ela resolve surgir. Só sentir. Sentir até cansar. Até aquela hora em que nos acostumamos tanto com ela que ela deixa de ser um corpo estranho e passa a fazer parte de nós. E ela passa a ser nossa amiga. Como aquela pessoa que, no começo, não gostamos muito, achamos estranha e rude demais. Mas, com o tempo, percebemos que não é tão rude e estranha assim, na realidade é só um alguém assustado por se aproximar de uma pessoa que não a quer por perto. Que só nos machuca porque tentamos expulsá-la o tempo todo.

            Pois então é melhor aceitar a saudade, do jeito que ela vier. Ser boa com ela, para que ela não nos maltrate tanto assim. Um dia ela se torna nossa amiga. Vai sempre estar ali, ao nosso lado, uma confidente de momentos felizes. E vamos rir juntas, lembrando de tudo o que aconteceu e não volta mais. E ela vai nos ensinar a não cometer os mesmos erros. Vai nos mostrar o que não valeu a pena. Vai nos lembrar que na realidade tudo é muito mais simples do que parece. Vai nos explicar que está ali conosco porque ela só se aproxima das pessoas que têm coragem de sentir plenamente. Que ainda que ela se vista de negro hoje, todo luto é  temporário. Um dia ela torna a vestir branco, vermelho, azul, amarelo….

            Sim, melhor ficar amiga da saudade. Vou fazer isso. Espero que assim ela passe a me machucar menos.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Bom mesmo é ser turista!


         Viajar é bom demais. Mas bom mesmo é ser turista. Porque a gente pode viajar sem ser turista. E a gente pode ser turista sem viajar.

         Ser turista é ser curioso, é querer conhecer. É não ter vergonha de ser ridículo, não ter vergonha de fazer as coisas errado. É se deleitar com cada coisa vivida imaginando que não irá vivê-la de novo. Embora saiba que poderá repetir tudo isso um dia.

        É se deleitar com a paisagem. É encontrar aquela doceria escondidinha numa esquina qualquer, e que faz o melhor brigadeiro que você já provou. É querer descobrir novos lugares, cantinhos que acreditamos nunca percorridos. É pegar uma fila imensa pra fazer aquele programa de índio no meio de famílias inteiras, só para depois poder dizer que é ridículo, mas tinha que fazer, afinal todo mundo faz um dia na vida. É fazer poses para fotos até no supermercado.

        Um turista tem uma ansiedade que chega a ser cômica. Normalmente, quando viajo, pergunto a algum morador o que há de interessante para conhecer. E o mais curioso é que normalmente a pessoa, já enfastiada pela rotina e pelo tédio em que transformamos o nosso viver, me olha espantada por um tempo, como se eu fosse uma louca desvairada. Como assim, fazer o quê nesse lugar? Você não percebe que isso é só isso?

        Pois é, ser turista é quebrar a rotina, fazer diferente, olhar diferente. O turista sabe que aquilo que ele está vivendo é passageiro, e que ele tem um certo tempo para desfrutar da novidade. Por isso é tão bom e intenso. Por isso não se perde detalhe algum, não se desperdiça o viver com a mesmice.

        Deveríamos ser turistas o tempo todo. Deveríamos saber que não temos todo o tempo do mundo, e que sempre existe algo a descobrir. E que sempre existem pessoas para conhecer do nosso lado, pessoas com histórias interessantes para nos contar, pessoas que, em alguma medida, vão mudar a nossa vida. Perdidos em nosso cotidiano, não vemos importância nas pessoas que passam por nós. Quando somos turistas, perdemos as travas, as defesas, deixamos que as pessoas novas fluam e inundem nossas vidas com suas experiências, vidas, idéias. Mesmo sabendo que talvez nunca mais as vejamos. E sempre mudamos um pouquinho, e sempre descobrimos um pedacinho de nós que não sabíamos que existia.

        Taí. Bom mesmo é ser turista de si mesmo. Descobrir habilidades desconhecidas, e falhas em si próprio ignoradas até então. Caminhar por cantos escuros e campos abertos. Sair um pouco de si, respirar, arejar e voltar. Enxergar-se com olhos novidadeiros. Rir dos lugares aos quais jamais deveria ter ido, embora todo mundo vá até eles um dia. E não esquecer que o tempo é finito, finito demais para que deixemos o tédio e a rotina nos invadir e nos paralisar.

domingo, 17 de abril de 2011

Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças

       
"Feliz é a inocente vestal! 
Esquecendo o mundo e sendo por ele esquecida.
Brilho eterno de uma mente sem lembranças
Toda prece é ouvida, toda graça se alcança"
Alexander Pope

           Minha avó tem Alzheimer. A doença está num estado mediano, e ela esquece praticamente tudo o que aconteceu alguns minutos antes. Esquece também alguns fatos passados, se confunde, congela a memória em determinadas situações como se o tempo tivesse parado. Minha mãe contou hoje que meu avô sofre muito com isso, ver uma mulher tão encrenqueira e turrona (sim, ela é minha avó, afinal de contas!), tão maluquinha. Disse que ele fica com lágrimas nos olhos às vezes.

        Ela não se lembra que seus sogros ou seu irmão morreu. Fala de seus filhos como se fossem crianças ainda, mistura o tempo, conta fatos passados há décadas como se fossem hoje. Normalmente se lembra de épocas em que ainda construía sua vida. É que velhice tem disso. Parece que não há mais nada para construir. E quando converso com ela, sinto que as recordações são todas desse tempo, de quando ainda havia muito o que construir.

        Todo mundo fica com pena dela. Mas eu acho que devíamos mesmo era ter inveja. Para ela, cada segundo é um recomeço. Uma desfeita, um desconforto sofrido instantes antes, simplesmente desaparecem. O que vale para ela é o momento que se inicia. O passado, pouco importa. Ela sempre olhará para você como se a conversa estivesse se iniciando naquele exato instante.

        Memória é uma coisa boa quando nos remete a momentos felizes. Saudade remete à memória, memória desses momentos bons. É doída, mas é uma dor que a gente até gosta de sentir. Dá uma sensação de que a vida vale a pena.

        Mas memória também é uma coisa ruim. Porque nela guardamos tudo aquilo que vivemos e não foi bom. Dizem que isso é instinto de preservação, porque assim evitamos cometer os mesmos erros. Mas não acho isso não. Acho mesmo é que a memória é que nos faz cometer os mesmos erros. Porque quando lembramos, revivemos, e ao  reviver, acabamos reagindo da mesma maneira, num instinto de auto-proteção. Nunca saímos desse círculo vicioso, revivemos e fugimos, não ousamos, não avançamos. Ficamos presos aos mesmos temores.

        Bom mesmo seria se pudéssemos apagar o que a gente quisesse, como no filme que dá o nome a esse post. Para começar como se nada tivesse existido antes, sem medo de cometer os mesmos erros. Para avançar, seguindo o coração, sem os machucados que a mente insiste em guardar. Porque a memória está na mente, e o sentimento está no coração. E a mente nos impede de sentir. Porque o que a gente sente não está na memória, está ali, guardado bem dentro da gente. Como no filme. E como a minha avó, que se esquece de vários rostos e nomes. Mas nunca se esquece nem do meu rosto nem do meu nome.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

E para onde vou agora?


             Viver é escolher.
          Escolher é perder.        
          E dá medo escolher.

         Porque desde criança a gente aprendeu que não é bom perder. Mas se a gente não escolhe, não vive. Fica parado, amarrado. Então vai ver que perder não é tão ruim assim. Porque quando a gente perde alguma coisa, na verdade está ganhando outra. E já que tudo é assim na vida, então vamos escolher, porque daí a gente perde e ganha conscientemente, não?
 
          Eu pedalo e nado. Nado um pouco melhor do que pedalo. Mas não faço nenhuma das coisas direito como poderia. Porque eu não quis escolher.

         Mas será que não dá mesmo para ter várias coisas ao mesmo tempo? É só saber conciliar, dividir as atenções.

         Não, não dá. Quando você tem que conciliar interesses semelhantes ao mesmo tempo, dividir, você não se entrega. Simplesmente não tem tempo nem foco para se entregar. E quem não se entrega, não conhece nem vive as coisas a fundo. Não vive plenamente o que existe para ser vivido, até o seu esgotamento. É óbvio que viver plenamente dá medo, medo de não conseguir voltar se der errado. Na superfície, sempre é fácil voltar e pegar outro caminho. Ou ficar com vários caminhos à mão.

         Só que quem tem medo não se move. Fica ali, na superfície, ao sabor do caminho mais fácil, o tempo todo. Sempre no mesmo lugar, uma hora pra cá, uma hora pra lá. E deixa a vida passar, sem nada viver. Sem conhecer a profundidade de nada. Sem viver experiências verdadeiramente novas, vivendo apenas a repetição da mesma variedade, a variedade da superfície.

         E como saber o que escolher? Isso eu não sei. Ou melhor, isso eu sei. Mas não sei o porquê. A gente sempre sabe qual trajeto quer seguir. Só que tem medo. Então é só seguir, com coragem. Se der errado? Você volta, oras. Vai doer, mas você vai conseguir voltar. Só não consegue voltar quem nunca foi.

sábado, 9 de abril de 2011

Carta de amor da Menina Má


        Não vou dizer que sou difícil, isso é clichê. Todas as mulheres são difíceis. Algumas dissimulam mais, outras menos. Somos assim, inconstantes. Inconstantes porque esperamos algo que nunca vai acontecer. Esperamos que vocês homens entendam nossos sentimentos com um simples olhar. Que tenham a palavra exata no momento correto, e o silêncio naquela hora em que se deve calar. E ficamos insatisfeitas, e continuamos esperando que vocês compreendam o motivo de nossa insatisfação. Enfim, esse drama nunca vai ser solucionado, vocês nunca vão conseguir nos dar a atenção que gostaríamos de ter. 
     
         Mas também não sonho com um príncipe. Acho que não acredito neles, porque penso que em algum momento eles tiram a capa, e nessa hora em que cai a fantasia pouca coisa resta. Dá muito trabalho construir a imagem da perfeição.

        Aliás, não gosto de nada que é perfeito. Gosto do homem imperfeito. Aquele que derruba as coisas por onde anda, de tão estabanado. Que faz uma declaração de amor atrapalhada, morrendo de vergonha de ser ridículo, e depois solta uma frase tosca. Que nunca lembra dos compromissos, simplesmente porque a última ação parece mais importante do que aquilo que já estava premeditadamente marcado. Que compra presentes inúteis e horrorosos, achando que são exatamente o que uma mulher gosta. Que traz flores já amassadas porque não sabe como carregá-las. Que faz as combinações de roupas mais absurdas.  Que me faz ficar possessa quando me esquece por conta de um jogo, qualquer jogo. Que faz a piada errada naquela reunião social tão formal, e deixa todo mundo constrangido, simplesmente porque não consegue conter o sarcasmo. Faz tudo tão errado, simplesmente porque não consegue vestir fantasia alguma.

        Gosto por isso, porque é real. Porque me impressiona não pelos atos, mas pelas qualidades. Porque até se dá conta das qualidades, mas não sabe muito bem como externá-las. Porque suas qualidades não são óbvias, são reconhecidas apenas por olhos atentos, aqueles olhos que querem enxergar além da fantasia, que gostam de observar com calma. Porque como não perdem tempo com o que é externo, o interno é muito, muito rico.

        Menina má é assim. Não precisa ostentar uma jóia cara. Prefere uma pedra bruta e discreta, real, sempre ali, pertinho do coração. Mesmo que  às vezes ela machuque de tão bruta.

terça-feira, 5 de abril de 2011

A minha Menina Má

        
        Hoje a Lua, a gatinha de grandes olhos doces que aparece comigo na foto do perfil, faz 10 anos. O que quase ninguém sabe é que ela não está comigo na foto do perfil simplesmente porque é meu animalzinho de estimação. Está lá porque ela é uma menina verdadeiramente má.

        Tenho um outro gatinho, o Fidel, mais novo que ela, e de quem normalmente falo muito mais. Por esse motivo todos pensam que ele é o preferido, mas não é bem assim. O Fidel, como todo ser do sexo masculino, é mais simples, mais engraçado, mais fácil de lidar, e requisita muito mais. Ainda por cima tem uma doença genética que vez ou outra me prega alguns sustos. Ele vem e me agrada a todo instante, fica bravo comigo mas esquece depois de uma bela sessão de carinhos.

        A Luazinha não. Ela é uma menina independente. Há 10 anos atrás, foi descoberta numa gaiolinha nos fundos de uma lojinha horrorosa, toda doente e suja. Olhou para mim e me convenceu a levá-la para casa, imediatamente. Conquistou o Ricardo pulando em seu colo e enchendo de lambidinhas. Foi assim que lutou e conseguiu um lar.

        Todas as doenças que um gatinho filhote consegue ter, estavam instaladas na Lua. A veterinária quando a examinou simplesmente nos disse que havia poucas chances de salvação. Mal respirava. Ela ficava no meu colo me olhando, e lutando para colocar ar nos pulmõezinhos, as vias nasais completamente obstruídas. E como lutava bravamente para viver, essa gatinha tão pequena.

        E não é que sobreviveu, apesar de tudo? Só que, por conta disso, apesar de tão guerreira, cresceu tímida, desconfiada. Tinha medo das pessoas, de barulho, de sair de casa. Mas sempre foi muito ágil e habilidosa, curiosa como todo felino. E muito teimosa, é claro.

        Mas uma Menina Má nunca é a mesma, se modifica a cada instante. E hoje ela quase não tem medo. De vez em quando, vem e pede um carinho. Ou vem e dá um carinho. Quando se cansa, vai embora. Diferente do Fidel, não se importa nem um pouco em ficar sozinha, apesar de gostar da companhia de pessoas. Parece estar confortável em qualquer situação. Tem o olhar muito doce, seu miado é baixo. Mas quando fica brava modifica esse olhar  e demonstra a sua raiva e insatisfação de um jeito que chega a dar medo. E domina completamente o Fidel, que tem por ela um fascínio incondicional.  Aliás, por ter sido criada e muito amada pelo Ricardo, adora homens. Joga charme, mas nem sempre aceita o carinho de volta. A minha menina guerreira é realmente invejável.

        Olho agora para essa coisinha gordinha deitada aqui ao meu lado, ronronando, e penso em quantas coisas passamos juntas. O quanto nós duas mudamos nesses 10 anos. Ela é minha menininha má, e sabe disso. E não precisamos de grandes demonstrações públicas de carinho para sabermos o quanto estamos ligadas uma à outra. A gente sabe.

terça-feira, 29 de março de 2011

Rogério Ceni

       
        Fiquei com vontade de falar sobre o assunto da semana, Rogério Ceni. E nem é porque eu sou são paulina. E também nem entendo de futebol. Gosto assim assim, acho bacana ver a empolgação, a torcida, a bola batendo na rede. Sou filha de corintianos, mas escolhi o São Paulo como time quando era criança porque tinha o Raí… lindooooooooo! Enfim, quando alguém me pergunta, sou são paulina,  e sei mais ou menos quando meu time está ganhando ou perdendo, e fico bem feliz quando está ganhando. Mas é só.

        O que me fascina em Rogério Ceni é que ele joga e sempre jogou no time que queria jogar. Escolheu que seria assim e pronto. Ali começou e fez sua trajetória. Nesse time do coração traçou suas ambições, sem abandonar o foco nem se vender por contratos milionários. Não será lembrado como o melhor jogador do mundo, como o mais rico, como o mais envolvido em escândalos, como um gênio do futebol, e penso que nem mesmo como o goleiro que fez 100 gols, porque surgirá no futuro outro goleiro com mais gols que ele. Acho até que será bem pouco lembrado.

        Só que alguém tem dúvidas de que ele é um homem muito mais realizado profissionalmente do que Ronaldo, o Fenômeno, com seus milhões e milhões, toda a sua fama internacional, e todos os seus títulos de melhor jogador do mundo?

        Pois eu gosto de gente assim, que ama alguma coisa, acredita e não liga se vai dar certo ou errado. Escolhe e não desiste por qualquer obstáculo, mesmo quando tudo parece estar estagnado e todos dizem para tentar de um outro jeito. Gente que não foca no resultado de seus atos, mas nos seus atos, em seus princípios. Que prefere fazer tudo da maneira correta ao invés de se vender. Talvez porque seja filha do meu pai, que vai morrer pobre mas tem um patrimônio de valor inestimável: ninguém neste mundo consegue tecer um comentário ruim a seu respeito. Nenhum ato indigno, nenhuma trapaça, nenhuma mentira. Nenhuma pessoa que eu conheço negaria um favor a ele, embora duvido muito que ele peça algo um dia. Aprendi a apreciar a dignidade das pessoas, muito mais que seus feitos, sua fama e seus bens materiais.

        Enfim, gosto de Rogério Ceni porque um goleiro não precisa fazer gols, mas sim evitá-los. Mas para que o infeliz se mete a fazer gol então? Imagino que ele responderia a essa pergunta como qualquer moleque que joga futebol de várzea responderia: "porque fazer gol é legal, ué!" É isso aí. Tem algum outro motivo pra se fazer alguma coisa na vida?

sexta-feira, 25 de março de 2011

Se gosto, é porque preciso!

foto de Márcia Bulle (www.bulletenacidade.blogspot.com)
          Estava quietinha no meu canto assistindo TV quando vejo uma moça, já nem tão moça assim, com este discurso, supostamente feminista: "Tenho casa própria, escritório próprio, ganho bem, sou independente, para que vou precisar de homem?".

          Bem, a cidadã em questão não era exatamente feia. Mas também não era exatamente bonita. Tinha um ar decidido, provavelmente é uma profissional bastante competente e respeitada. Parecia um trator, para ser mais exata. E tinha cara de quem penou um divórcio horroroso, e agora só anda com suas amigas que também penaram um divórcio horroroso. E juro que eu não estou sendo machista, antes que a mulherada enlouqueça com essas minhas observações.

         Machista é ela e todas aquelas que pensam dessa maneira. Nem Jece Valadão diria uma pérola dessas. Como assim, só porque a mulher ganha bem, resolve seus problemas e é independente, ela não precisa mais de homem? Quer dizer que as mulheres só precisam de um homem caso elas não ganhem seu próprio sustento e não consigam se virar sozinhas? E a partir do momento em que elas conseguem resolver as questões básicas de sobrevivência, uma coisa realmente fenomenal para seres normalmente tão incapazes, elas podem dispensar os homens de sua vida?

         Pois eu PRECISO e ADORO homens, sim. E ganho muito bem, obrigada. E viajo, vou ao cinema e ao teatro sozinha, quando me dá na telha. E consigo passar os sábados à noite lendo um livro, se não estiver a fim de sair. Ou ficar só batendo papo com minhas amigas queridas. E só durmo de conchinha se estiver apaixonada, mas também não agüento a noite inteira, preciso respirar. E pago a minha própria parte no restaurante, e a dele, se me der vontade. E posso comprar presentes para o meu amado. E não estou nem aí para o quanto ele ganha, desde que seja uma pessoa talentosa, porque eu não suporto gente burra não.

          Então. Eu SOBREVIVO muito bem sem homens. Mas isso não quer dizer que eu não precise deles. Preciso deles porque são diferentes, e sempre têm uma visão distinta do mundo da que nós, mulheres, seres tão complexos, temos. Eles simplificam a minha vida, tornam um problema enorme algo tão corriqueiro quanto uma partida de futebol. E também porque eles me fazem sentir mais forte, já que são tão meninos às vezes. Ficam felizes, extremamente felizes, com coisas tão banais quanto uma bicicleta nova, por exemplo. E seus problemas sem solução acabam se o time do coração marcar um gol na final de campeonato. E se concentram naquilo que os encanta, naquele momento, de maneira tão profunda, de um jeito que nós, mulheres, jamais conseguiremos. Estaremos sempre pensando no desencadear do que está acontecendo, nas conseqüências, em tudo ao seu redor, como somos malucas!

         E tem o abraço, o cheiro do homem amado, esse toque tão diferente que ele nos proporciona… Como dizer que não preciso disso? Aquela sensação de se sentir protegida, mesmo sabendo me proteger muito bem. De ser cuidada, mesmo sabendo que esse cuidado é totalmente desnecessário. Ah, eu preciso disso tudo, por um motivo muito simples: porque adoro!

segunda-feira, 14 de março de 2011

Quem quer a fórmula do amor?

      
       
         Quantas fórmulas do amor existem por aí, não? Blogs, sites, revistas femininas e masculinas, livros de auto-ajuda, livros supostamente científicos, filmes, todos tentando explicar como devemos nos comportar para nos relacionarmos bem com o sexo oposto (ou não). Enfim, são dicas e mais dicas de como saber a hora certa de chegar, de como não invadir espaços, de como fazer o outro se sentir melhor, de como fazer o outro entender que somos bacanas, enfim, todas teorias muito lógicas e muito lindas.

        Não duvido de forma alguma que todas essas teorias funcionem. Aliás, tenho absoluta certeza de que, se você segui-las à risca, provavelmente fisgará um companheiro dedicado e grato para o resto de sua vida. Só tem um probleminha: você só consegue seguir essas teorias se não estiver apaixonado.

        Quando você não está apaixonado, mas sim interessado pela pessoa certa e perfeita para você, é tudo muito simples. Você sabe que aquela pessoa é a que lhe trará muitos benefícios na vida,  conforto, então trabalha direitinho para que tudo corra bem. E vai correr. Uma paz, uma tranqüilidade sem igual. Mas, por que raios então você continua descontente? É simples: PORQUE VOCÊ NÃO ESTÁ APAIXONADO, CARAMBA!

        Pois então você se apaixona. E faz tudo, tudo, da forma mais errada possível. Você sabe que está errando sem parar. Pior ainda, se apaixona pela pessoa que aparentemente só atrapalha a sua vida. E mais que o pior, se a outra pessoa também estiver apaixonada, ela vai fazer tudo da forma mais errada o possível, assim como você. Conclusão? Desastre total. Fim de relacionamento.

        Mas que nada. Sabe aquela comediazinha romântica, acho que o nome é "Como perder um homem em X dias"? A menina faz tudo errado, de propósito, e mesmo assim não perde o tal do homem. Porque não adianta, o que tem que ser, vai ser. Mesmo fazendo tudo errado. E se não der certo, é porque não era pra ser. Simples assim.

        Bom, a minha conclusão suicida é uma só: não existe fórmula do amor. A gente deve seguir o que sente, sempre. Mostrar nossas deficiências, nossos defeitos, nossas insatisfações. Para não ficar nada guardado, nada escondido, nada falsificado. Para não aparentar ser quem você não é. Não adianta viver sempre sob controle, porque embora isso torne as coisas mais fáceis, nos priva da alegria de uma emoção intensa e verdadeira. Expor o que sentimos é arriscado. Mas o que une duas pessoas é algo que a lógica jamais explicará.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Eu quero sempre mais... de mim!

          
         Eu sou uma pessoa que sempre espera. Espero que a minha próxima viagem seja o máximo, que o meu novo corte de cabelo arrase, que o prato que escolhi no restaurante seja simplesmente delicioso, que a próxima comidinha que eu preparar seja elogiada por todos, que vou ficar um desbunde no meu vestidinho novo, que a próxima vez que eu me encontrar com o meu amor será algo tão intenso como nos meus romances favoritos, que o meu blog vai bombar. Canalizo todos os meus esforços para que tudo aconteça como estou prevendo, num ponto que beira a obsessão. Me divirto muito quando estou planejando e sonhando, fico imaginando o que está por vir, aumento o sucesso, chego a um ponto em que passo a sentir como se tudo realmente estivesse acontecendo, exatamente do jeito que eu queria.

         Obviamente, na maioria das vezes não sai exatamente como o planejado. Muitas vezes sai apenas um resultado mais ou menos parecido com o que eu esperava. E às vezes dá tudo errado. Aí resta saber lidar com a frustração, o que não é nada fácil. E frustração é uma coisa que se parece um tombo de bike. Se você pedalar sempre por um caminho reto e seguro, é muito pouco provável que caia, já que não espera nada de novo, apenas quer chegar, e nada mais. Tranquilamente e sem imprevistos, uma ciclofaixa alemã seria perfeita nesse caso.

          Por outro lado, você pode ser, como eu, um maluquete que adora escolher os caminhos mais difíceis para chegar a um mesmo lugar, pelo puro prazer da emoção. Apenas para experimentar sensações diferentes antes de chegar. Sabe muito bem que terá que lidar com o inesperado. E que pode cair, várias vezes. Mas mesmo assim, acha que vale a pena, e se mete em todas as enrascadas, cai, se machuca, se espatifa. Pensa até em desistir, e voltar para aquele caminho mais fácil e seguro. Mas acontece que esse tipo de gente é viciada nas pequenas vitórias que os desafios proporcionam, e não consegue mais mudar de caminho. Até que um dia, de tanto cair, aprende a se machucar menos com os tombos. E a suportar mais as dores, a se recuperar mais rápido. E perde vários medos pois sabe que, se cair, vai se levantar. E pronto. Sabe que pode sonhar até onde quiser, porque se não der certo, arruma um sonho novo rapidinho.

         Enfim, quanto mais você se arrisca, quanto mais você sonha, maior o risco de acumular frustrações pelo caminho. É claro que é muito fácil, e parece mais lógico, andar por aí e chegar aonde se pretende sem esperar que nada de inesperado ocorra, eliminando os tombos e as frustrações. Mas não sei se vale a pena, viu?