domingo, 11 de dezembro de 2011

E nunca houve uma mulher como Gilda!

        Morro de inveja de mulheres sedutoras. Nunca consegui ser uma, e não foi por falta de vontade. Quando eu era criança, gostava de imaginar que tipo de mulher eu me tornaria. Talvez por influência da TV e do cinema, sonhava em ser algo como a Gilda, de Rita Hayworth. Aquela mulher que já acorda com as ondas perfeitas no cabelo e tem os cílios postiços de nascença. Que se movimenta feito um cisne, linda e elegante, indiferente a tudo. Alguém consegue imaginar Gilda em um ângulo desfavorável? Ou no banheiro, como todas as simples mortais?

        Não, Gilda é sempre linda. Seus movimentos são perfeitos, seus olhares são arrebatadores, seu sorriso derrete qualquer machão. O curioso é que mesmo assim é infeliz.

        Na realidade, em nosso imaginário tanto faz se Gilda é ou não infeliz, e quais os seus motivos para isso. Motivos para infelicidade, todos nós temos, em maior ou menor propensão. E já que é assim, melhor pagar o preço dessa infelicidade, se o resultado é ser tão linda e ter o mundo aos seus pés.

        Fiquei então pensando o que faria algumas pessoas mais sedutoras que as outras. Seduzir tem toques de magia. O sedutor consegue criar uma atmosfera de fantasia, algo irreal. Ele seduz porque inebria. E quem inebria, faz com que o inebriado não aja mais por si só, mas apenas em busca da manutenção dessa fantasia.

        Pessoas excessivamente transparentes, tais como a desengonçada que vos escreve, jamais serão sedutoras. Não sabemos criar esse ambiente fantástico, o tal jogo do cobre e descobre, o mistério que cega e anestesia, o mecanismo de punição e recompensa. O sedutor nunca diz o que pensa, ele insinua, deixa a vítima em constante dúvida, controla sua mente nesse jogo de adivinhação eterna. O ser humano não consegue conviver com a dúvida. Quando instalamos a dúvida, prendemos, acorrentamos.

        Só que acorrentar não é o mesmo que ser amado. Talvez por isso Gilda seja infeliz. Talvez seja difícil conviver com o vazio dessa irrealidade que o sedutor cria ao redor de si mesmo. Talvez esse estado constante de dúvida atormente ainda mais o sedutor que o seduzido. Talvez porque os seduzidos, quando despertam, voltam-se violentamente contra o sedutor. E isso acontece tanto no amor, quanto nas amizades, quanto nos negócios.

        Vai ver então que é melhor apenas conquistar. Mostrando a alma, os defeitos, as qualidades. Conquistar, diferentemente de seduzir, é ganhar a confiança. É mostrar que você está ali, de coração aberto, na hora que o outro precisar. Conquistar não exige beleza, charme ou inteligência, exige apenas sinceridade. E quem é sincero pode não ser idolatrado, mas é sim, verdadeiramente, amado.

        É, fiz um discurso até bem bonito em minha defesa. E vamos lá, posso dizer que tenho sido razoavelmente amada durante toda a minha vida. Na realidade, normalmente ou me amam ou me odeiam, é esse o preço que se paga pela transparência. Mas é que tem dias que me bate uma vontade muito grande de ser Gilda…  Ah, pensando bem, talvez não. É mais gostoso (e fácil) ser real.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Xô, preguiça!




        Eu tenho preguiça. E muita. Aliás, todo mundo tem, não é mesmo? Duvido que mesmo Steve Jobs não tenha sentido preguiça durante a vida dele. Duvido que todos esses autores de livros motivacionais sigam o que pregam, sejam sempre proativos e nunca sintam preguiça.

        Uma delícia dormir e acordar na hora que der vontade. Passar o dia no sofá vendo televisão, de pijamas. Ler apenas revistas de fofocas, não colocar o cérebro pra pensar, só deixar o tempo correr. Ter alguém para cozinhar, lavar, arrumar a casa e os armários, cuidar dos meus gatos, enfim, não ter que fazer absolutamente nada. Aliás, nada não. Bom mesmo é ter tempo livre para se fazer o que quer.

        Mas quem disse que o preguiçoso tem tempo livre? Tem nada. Porque fazer nada toma tempo. E acontece que o preguiçoso é muito ocupado. E acontece também que o preguiçoso tem preguiça de fazer o que gosta. Pior, acontece que o preguiçoso tem preguiça de pensar no que gosta de fazer. Porque até fazer o que se gosta dá trabalho.

        É, daí o preguiçoso olha ao seu redor e pensa no tanto de coisa que deveria fazer. E dá mais preguiça ainda. E as coisas a fazer vão se acumulando, e tudo vai ficando cada vez pior. Bom, aí o preguiçoso entrega para Deus e fica na sua, já que tudo se torna impossível.

        Olho para meus gatos dormindo deliciosamente na minha frente e penso: ah, mas que preguiça gostosa… queria ter essa vida…

        Que nada. Quem disse que gatos são preguiçosos? Gatos passam do estado de sono para o estado de alerta em um milésimo de segundo. São extremamente organizados e não suportam bagunça nem sujeira. Cuidam muito bem do próprio asseio. São hábeis caçadores. Lição de vida: por isso desfrutam de um sono tão prazeroso.

        Então tá. Preguiça não é tão gostoso assim quanto parece. Preguiça dá agonia. Preguiça dá insônia. Preguiça dá irritação. Preguiça dá insatisfação.

        E como sair do estado de preguiça então? Ai, difícil de saber. Na verdade, é necessária uma força danada para vencer a preguiça. Porque ela é forte pacas. Mas só no início. Com o tempo, vamos negociando com ela até uma hora em que ela resolve esquecer da gente. Só não pode esquecer de negociar. Porque ela é tão esperta que a qualquer momento pode voltar e nos dominar. E aí, tome renegociações! E do zero…

        Este é um texto bem preguiçoso. Um texto de quem sequer arrumou a cama ao acordar e esqueceu de apertar o botão da máquina de lavar roupa. Mas pelo menos colocou o cérebro e as mãos para funcionar e resolveu fazer alguma coisa. Então, D. Preguiça, vamos negociar. Amanhã você vai me deixar em paz, ok?


terça-feira, 29 de novembro de 2011

Eu tenho medo da Bella


        Finalmente, a saga Crepúsculo chegou ao fim, ao menos nos cinemas. Pelo visto, com bem menos fôlego, porque não percebi a histeria que cercou os filmes anteriores. Mas, sei lá, também não convivo com tantos adolescentes assim.

        E qual seria o motivo da histeria? Ah, os meninos, é claro. Opostos e bonitos, cada qual ao seu jeito, capazes de gerar debates femininos sobre quem seria o exemplar masculino perfeito. O musculoso e impulsivo lobinho ou o cavalheiro e sofisticado vampiro. Ambos apaixonados pela adolescente desajeitada e medrosa, disputando o seu amor e por isso mostrando o que de melhor possuem.

        Bella Swann é uma mocinha bonitinha, mas não esplendorosa. Não possui nenhum atributo pessoal, nada que a distinga das demais mocinhas. Mas mesmo assim conquista o coração do ricaço misterioso e do fortão dedicado. Ah, o sonho de qualquer adolescente, dois príncipes encantados complementares a seus pés, sem que nada se tenha feito para isso, bastando apenas existir. Existir, com todas as suas inseguranças, medos. Mesmo assim, machos redentores estão ali, dispostos a cuidar de você, protegê-la de todos os perigos, desinteressadamente.

        Muito confortável. Confortável e altamente perigoso. Em determinado trecho de um dos filmes (sim, assisti trechos dos filmes e tentei ler os livros, antes de falar mal), a mocinha, abandonada pelo seu príncipe riquíssimo, resolve que vai se expor a situações de risco, pois descobre que dessa forma ele surge para protegê-la. Gente, qual a mensagem disso? Significa que, quanto mais frágil você for, mais perto o macho estará perto de você. Que quanto menos independente você for, menor o risco de perder o seu homem. Bella corre o risco de morrer para não perder o seu protetor.

        Pior ainda: Bella não tem qualquer objetivo na vida, nenhuma ambição, nenhum projeto pessoal, nada que lhe agrade realmente fazer. Não possui qualquer dote especial. Quer dizer, sua ambição, e pela qual luta obstinadamente, é ser vampira. E como pretende fazer isso? Unindo-se a um vampiro, apenas isso. Assim como periguetes e marias-chuteiras, que ambicionam ascensão social pelo casamento. Alguém poderia me apontar a diferença?

        Sei lá qual o efeito que isso tudo tem sobre o inconsciente das mocinhas. Tenho medo de que uma geração inteira de meninas saia prejudicada com tantos clichês. Que elas se tornem mulheres que, no futuro, pensem que o seu valor está na quantidade de homens que conseguem manipular com sua fragilidade. Sim, porque fragilidade atrai machões, e muitos. Uma mocinha frágil desperta o instinto de virilidade em machos inseguros. E machos inseguros disputam entre si, para provar quem é o melhor. Na realidade, pouco importa a mocinha. Importa provar quem é o mais macho, o mais perfeito.

        Mocinhas que são mulheres de verdade não suportam homens que não desejam a seus pés, por isso nunca se vê um mulherão sendo disputado por dois machões. Homens babões incomodam, atrapalham o caminho. Mulheres de verdade sabem o que querem, e dispensam com carinho aqueles que não querem. Porque não precisam de estepes para ampará-las quando se vêem sozinhas. Porque na realidade se viram muito bem sozinhas, e se amam alguém jamais será por dependência.

        Só homens de verdade têm coragem de se apaixonar por mulheres de verdade. Porque mulheres de verdade têm objetivos, têm talentos. Produzem, mobilizam. E homens de verdade não temem ser superados. Pelo contrário, admiram ser superados. Homens de verdade não têm tempo a perder com caprichos, porque não querem carregar ninguém, querem andar de mãos dadas. Embora dê muito mais trabalho, já que só homens de verdade sabem que a real virilidade está não só apenas em proteger, mas também em se permitir ser protegido.

        Enfim, esse é o meu desabafo feminista. Na verdade, talvez essas mocinhas manipuladoras sejam muito mais felizes que nós, pobres feministas lutadoras. Afinal, existem muito mais machos inseguros do que homens de verdade. Então… que venham mais Bellas Swann!

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Perigo!


        Eu estou no meio de uma TPM danada. É muito curioso porque há anos interrompi a menstruação, e um dos motivos é exatamente esse. É simplesmente uma questão de segurança pública. Mesmo assim, de tempos em tempos, logicamente com espaços muito maiores do que o normal, eu vivo esses sintomas, talvez por conta do inconsciente coletivo que faz com que todas as mulheres entrem num transe deslumbrado durante um certo período.

        Um amigo me contou que se trataria de uma revolta das mulheres contra os homens, e realmente inconsciente, pelos maus tratos sofridos durante toda a História da Humanidade. Seria um período em que todas descontariam suas agruras sobre este ser repressor, o Homem, que nada compreenderia e nada poderia fazer, portanto.

        Realmente, é algo que homem algum pode compreender. Nem nós mesmas. Na realidade, acho que esse meu amigo tem razão. Porque em determinado momento usamos nossos hormônios como desculpa para vivenciar esse estado que chamamos de TPM. E que na realidade mesmo significa: TODAS AS PARANÓIAS MULTIPLICADAS.

        Sim, porque é na TPM que o seu lado mais podre é revelado. Se a sua essência é de mulherzinha mimada, você fará biquinho o tempo todo. Se é de romântica incurável, vai chorar vendo comercial de margarina. Se quer ser mãe a todo custo, vai roubar o filho da vizinha.

        Agora, se você, como eu, é um monstro dominador que na realidade só se finge de cordeiro para poder viver em sociedade, minha amiga, tranque-se numa jaula. Porque a humanidade corre perigo, é sério. Porque em TPM eu me sinto capaz de destruir qualquer coisa com as mãos. E nem sonhe aparecer de cor de rosa na minha frente, que posso transformar esse cor de rosa em vermelho. Não me fale em príncipes encantados, nem em historietas de amor com final feliz. E se cantar música sertaneja então, morre! Choramingou, fez biquinho, ah, vai pastar….

        E a coisa é tão séria que já houve até o caso de uma mulher que matou o companheiro e foi inocentada, por estar em TPM. Não foi considerada culpada, por não estar no controle de suas faculdades mentais. Sim, homens, a nossa vingança sempre se come fria. Quem mandou vocês nos oprimirem tanto? Dá-lhe TPM agora.

        Bom, mas ainda bem que é só um surto. Depois, voltamos a ser domesticadas e podemos conviver em paz com os outros seres e com o ecossistema. Eu, do meu lado, vou ficar aqui quietinha na minha casa, por um tempo, por precaução. E não digam que eu não avisei.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Me dá um abraço?

       
           Eu adoro abraçar. Abraçar amigos, família, amores, meus gatinhos, e até almofadas e travesseiros. Não sou assim do tipo carinhoso grudento, daqueles que ficam alisando continuamente,  mesmo porque não tenho paciência para fazer a mesma coisa durante muito tempo, mas adoro esse momento abraço. Aquele momento de sentir o calorzinho do corpo da pessoa, sentir o coração dela batendo, de sentir uma pele respirando da outra. Parece que nesse momento você se entrega, se doa, pede para que confiem em você, dá e recebe aconchego.

        Tem gente que não gosta de abraçar. E tem gente que gosta, mas não aprendeu a abraçar. Eu teria mil histórias para contar a respeito de abraços, mas não posso. Perderia grande parte de meus amigos que, afinal, já devem ficar bastante ressabiados comigo, pois ultimamente qualquer conversa, qualquer fato vivido, corre o risco de virar uma crônica publicada aqui. Mas a verdade é que adoro abraçar quem não sabe abraçar. Adoro dar abraço urso nessas pessoas. Até elas saírem cambaleando, feito meus gatos, que odeiam os meus abraços. Ou fingem que odeiam, pois são gatos e nunca vão demonstrar o quanto adoram ser amados.

        Mas não consigo abraçar quem não gosta de ser abraçado. Sabe quando você está abraçando e a pessoa vai te soltando, bem rápido? Aí eu sinto medo. Medo de rejeição. Medo de incomodar. Acho que ninguém gosta da sensação de ser indesejado. Mas por que será que tem gente que não quer ser abraçada?

        Abraçar é mostrar emoções, simples assim. E não é todo mundo que quer demonstrar emoções a torto e a direito. Já eu nasci com essa necessidade irrefreada de transparência, de mostrar o tempo todo o que eu estou sentindo. Alegria, tristeza, carinho, ódio, decepção, raiva, amor, desespero, angústia, insegurança, qualquer tipo de emoção que você puder imaginar, caso ainda não tenha conseguido entender, você vai perceber no meu rosto, nos meus gestos, nas minhas palavras, nas minhas atitudes. O que, eu sei, às vezes é desesperador para mim e para as pessoas que me cercam.

        Abraçar é ainda um ato de entrega, de vulnerabilidade, de confiança. Quem abraça diz que está ali, pronto para dar e receber carinho, quebrando as fronteiras da individualidade por alguns instantes. Quem abraça com vontade abre aquela porta da alma para o outro ver, permite que a alma diga pro outro vem, pode me visitar.

        Só que às vezes você não consegue abraçar aquela pessoa que você mais ama. E não consegue entender. Abraça todo mundo, menos quem você mais ama no mundo. Por exemplo, eu demorei para conseguir abraçar meus pais. E até hoje eles não aprenderam a me abraçar direito. Filhos de japoneses, para eles amor é algo mais prático, é algo que se demonstra pela presença constante e segura. Todo o resto é supérfluo. Ou talvez eles não queiram que eu veja a alma deles, queiram apenas que eu os veja como fortes, sempre. Não foi de todo ruim.

        E por que eu estou escrevendo tudo isto? Porque escrever para mim é um abraço. Um abraço em quem eu conheço e também em quem eu não conheço. Este turbilhão de emoções ambulantes que sou eu às vezes se embaralha todo na vida real. Aí eu tenho que escrever, para organizar tudo. E acho até que tenho me saído bem. Então é isso. Estão aqui as minhas emoções para você que eu não conheço. E para você que eu conheço, amo e nunca consegui abraçar decentemente, eu peço o seu abraço.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

De mãos dadas


        Eu sempre choro em cerimônias de casamento. Choro porque acho lindo e acredito em casamentos, e as cerimônias, quaisquer que sejam, simbolizam essa união. Está lá para quem quiser ver, a despeito de todo o carnaval e qualquer comércio que se tenha criado sobre essa instituição. Mas calma, acredito em casamentos, e não em príncipes e princesas encantados, e muito menos em foram felizes para sempre, por simples magia, sem qualquer trabalho.

        Gosto da idéia do casamento, seja lá qual for o formato pelo qual ele se manifeste. A idéia de duas pessoas que, dentre tantas no mundo, se encontraram e escolheram uma à outra para viver os seus sonhos, desejos e tristezas, me encanta. Acho essa escolha um ato de extrema coragem que só pode ser tomado com muito amor. Você escolhe que é aquele alguém que vai caminhar com você, de mãos dadas. Outras tantas pessoas vão surgir pelo caminho, mas é naquelas mãos que você segura. Em algumas horas segura para apoiar, em outras segura para se apoiar. Segura porque confia. Segura porque sabe que vocês querem chegar ao mesmo lugar, mesmo que em alguns momentos vocês tenham que desviar um pouco do caminho. Aí vocês se soltam, sem medo, porque, em algum momento, os caminhos vão voltar a se encontrar, e vocês poderão continuar andando de mãos dadas. Não há pressa em chegar, e nenhum dos dois pensa em chegar antes do outro. O bacana é o caminhar de mãos dadas, o bacana é chegar onde se pretende juntos. Ou então não ficar triste se não conseguirem chegar. O que importa mesmo são as mãos dadas.

        Casamento para mim é isso, andar de mãos dadas. E isso não implica em morar junto, visitar os familiares nos fins de semana, agüentar churrascos dos amigos de trabalho. Sim, pode até ser isso, se você gostar do pacote tradicional. Mas o pacote tradicional não é necessário para que se viva um casamento.

        Tem gente que pensa que é casado, mas não é. Aí se põe a falar mal de casamento. Diz que casamento destrói o amor. Que nada. Casamento só existe enquanto houver amor. Se você não sente amor, não é casado. Se você não respeita, não admira, não confia e não faz planos com o seu cônjuge, você não é casado. Se você não se sente à vontade para falar o que pensa, de ligar na hora que der vontade, de contar como foi seu dia, de reclamar de Deus e do mundo inteiro num dia ruim, de usar uma camiseta horrorosa e rasgada para assistir televisão, e se a pessoa não tem paciência para tudo isso, você tem um roomate, não está casado. Vocês estão um ao lado do outro, mas não de mãos dadas. Suas mãos apenas se tocam de vez em quando, nos momentos de prazer.

        E é por isso que eu gosto tanto das cerimônias de casamento. Nelas as pessoas tornam pública a sua escolha, nelas as pessoas contam para todo mundo que pretendem caminhar juntas. E isso exige muita coragem. Porque ninguém quer dizer para todo mundo que fez uma escolha, para alguns dias depois desistir dela. Ou melhor, não deveria…. mas isso é outra história, estou ainda no simbolismo. Quem escolhe diz a todo mundo por quem vai lutar, apesar de toda essa dificuldade que é amar. Sim, pois amar não é fácil, exige carinho, foco, e muito trabalho, diário. Como tudo na vida que tem importância, aliás. Ah, e as mãos dadas, sempre.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Como assim, outro filho?

        
       "No ano que vem, eu vou ter mais um filho!". A minha amiga soltou essa frase entre um pedaço de pizza quatro queijos e outro de pizza zucchini, os olhos brilhantes e um sorriso largo. Isso depois de eu relatar animadíssima todos os meus planos para o futuro, planos mirabolantes e aventureiros, convencida de que estava planejando a existência mais interessante do mundo.

        Não sou muito hábil no trato social, e não sei exatamente qual foi a minha expressão quando ouvi a bombástica frase. Confesso que fiquei estarrecida, cheguei a perguntar se foi opção ou se foi sem querer. Puxa, já são duas as crianças, um menino e uma menina, uma graça os dois, já estão crescendo, e não estava bom, o casal já poderia voltar a viver, freqüentar restaurantes, festas, viajar… Como assim, mais um filho???? Cheguei a cometer a indelicadeza de perguntar o porquê dessa decisão, tamanho foi o meu espanto.

        O papo continuou, divertido como sempre, continuamos a dar muitas risadas, aquelas risadas que só a intimidade propicia. Comecei então a contar o quanto qualquer rotina me sufocava, que não conseguia viver sem imaginar alterações e mudanças de rumo na vida, da minha necessidade de conhecer mais e mais coisas, e que achava que gente como eu jamais conseguiria viver a estabilidade de uma vida com filhos. Ela retrucou: "Ah, não existe nada mais emocionante na vida do que ter filhos. Um dia nunca é igual ao outro. São emoções o tempo todo!".

        Pronto. Dois a zero para ela. Parei finalmente para pensar no meu pré-conceito. Na minha cabeça, as pessoas com filhos eram acomodadas que desistiam da própria vida para se realizar em outra. Mas não, que coisa. Ter filho é um ato de muita coragem e aprendizado. É perder-se de si próprio, experimentar um amor tão grande que faz você livrar-se de suas próprias manias e loucuras. Não que filho seja a redenção dos pecados, mas realmente é um constante renovar, uma descoberta emocionante do mundo através de uma outra vida. Relembrar como era simples viver quando ainda não tínhamos vestido nossas duras armaduras.

        Mas calma, não fiquei com vontade de ser mãe por conta dessa conversa. Só gostei ainda mais um pouquinho dela depois disso, mas foi só isso. E gostei porque somos tão diferentes, afinal. Ela é doce, estável, equilibrada. Sempre tem a palavra certa para apaziguar uma tormenta. Já eu sou a própria tormenta. Impulsiva, explosiva. Movimento tudo ao meu redor, não existo para acalmar, existo para balançar o que já existe. Mas no fundo somos tão parecidas… buscamos praticamente as mesmas coisas, só que por caminhos diferentes. E não é essa a graça da amizade? Conseguir ver o mundo através dos olhos do outro, e respeitar e amar. E aprender, muito. Uma delícia essas diferenças.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Tempero!


            Comida é boa quando tem tempero. Até os ingredientes mais deliciosos tornam-se muito mais coloridos e saborosos com os temperos certos, na medida certa. Embora temperos e outros acompanhamentos pareçam muitas vezes supérfluos. Um abacaxi bem doce, por exemplo, é delicioso por si só. Mas experimente grelhar uma fatia, colocar raspas de limão e algumas folhinhas de hortelã. Não fica mais bonito? E se fica mais bonito, não fica também mais saboroso?

            A vida também é assim. Só que o tempero da vida é o carinho. Pode-se muito bem viver sem ele. Vamos continuar dormindo, acordando, trabalhando, sentindo prazer e até seremos bem felizes com nosso cotidiano. Mas experimente colocar carinho em tudo para perceber como fica muito mais colorido. Tem que trabalhar? Coloque carinho no trabalho, amor, paixão. Cuide dos afazeres como um presente a ser dado a todos. Todo mundo vai perceber os temperos e as cores.

            Gosta dos amigos, dos familiares? Cuide deles, mime-os. Ligue, diga palavras doces. Escreva, mostre-se presente, mesmo longe. Seus pais merecem, por todo o amor incondicional que sempre lhe reservaram. E seus amigos, eles são a família que você escolheu. Então segure-a bem firme junto a você.

            Tem um amor? Muitas vezes achamos que temos um amor, conquistamos e pronto. Ele vai estar para sempre ali. E, realmente, pode sempre estar mesmo. Só que, se você cuidar dele, vai ser muito diferente. Quantos casais existem que se amam, mas se esqueceram da conquista diária. E não era deliciosa a fase da conquista? Por que encerrá-la então? Por que não conquistar todos os dias, mais um pouco? Por que não dizer palavras bonitas sempre, olhar sempre, abraçar sempre, sorrir sempre? Por que não passar a eternidade conquistando, como se fosse a primeira vez? Se aprendemos a  cuidar todos os dias do nosso amor, ele só vai crescer, cada vez mais forte. E mais saboroso.

            Temperar ou não faz parte das escolhas de nossas vidas. Trabalhar, praticar esportes, estudar, estar com os amigos, com seus pais, com seu amor. Colocar carinho e cuidado em tudo, olhar para o outro sempre, deixa tudo muito mais bonito. Dar é tão bom quanto receber. Quando há reciprocidade, então, é mais gostoso ainda. Baixar nossas muralhas e permitir que a generosidade tome conta de tudo. Não será essa a receita de uma vida temperada, colorida e saborosa?

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Preciso de você


        Preciso de você. A frase de sentido mais contraditório que pode existir no mundo. Parece coisa de gente covarde, e pode ser mesmo. Quem diz que precisa de alguém está admitindo que não consegue se virar sozinho. Mas será que existe algo mais corajoso do que admitir que você precisa de alguém?

        Precisar de alguém significa que você não quer fazer ou viver algo sozinho. O que não significa necessariamente que você não possa fazer ou viver sozinho. Todos nós podemos. Se precisarmos, podemos. O ser humano tem uma capacidade absurda de adaptação, e por isso sobrevive às mais adversas situações.

        Bem, existe o precisar em vários níveis. Tem gente que precisa muito dos outros. E precisa porque quer estar rodeado de pessoas. Tem gente que diz que não precisa de ninguém. E prefere ficar isolado.

        Não é ruim viver isolado. É muito mais fácil, até. Não existem decepções, não existem tristezas. Não se sente sozinho. Não se espera nada. Parece perfeito. E é mesmo.

        Mas se é perfeito, significa que é bom? Não sei. Sei que escolho precisar de algumas pessoas. Escolho porque quero tê-las por perto. E gosto quando precisam de mim. Porque não tem nada mais gostoso nessa vida do que se sentir útil para alguém. Quanto mais amo, mais preciso. Preciso que cuide de mim, e preciso que precise de mim. Precisar de alguém é entregar-se, é um presente que se dá a pessoas que escolhemos como especiais em nossas vidas. É dizer a alguém quão importante ele é. É destacar quem se ama de toda a multidão.

        Mas precisar mesmo, não precisa. Ruim mesmo é quando você não tem essa consciência, e pensa que depende de todo mundo pra viver. Mas é legal quando você escolhe as pessoas que você precisa. E quando você sabe que foi escolhido. E passa então a compartilhar sua vida. E existe algo mais corajoso do que entregar parte da sua vida a alguém? E existe algo mais gostoso do que compartilhar sua vida? 


quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O que é um amor louco?


        Não consegui entrar na palestra do Xico Sá na Escola São Paulo hoje, sobre crônicas. Fiquei chateada, estava muito curiosa para assistir essa palestra. Não só porque o Xico Sá escreve textos divertidíssimos, mas porque adorei o nome: "Crônica de um amor louco".

        Estou há dias imaginando o que seria a tal crônica de um amor louco. Adoro amores loucos. E o que seria um amor louco para o Xico Sá, fico me perguntando. Será que ele vai falar realmente de um amor louco ou simplesmente escolheu um nome de impacto para sua palestra?

        Bom, já que por enquanto vou ficar sem saber o que é um amor louco segundo Xico Sá, vou aqui brincar de descrever um amor louco segundo eu mesma.

        Amor louco obviamente não tem lógica nenhuma. Amor louco é clichê total. São brigas arrebatadoras, aquelas de fazer tremer o corpo inteiro e ter vontade de matar ou morrer, para no instante seguinte fazer as pazes, sorrindo, e esquecer o motivo de tanto desatino. Amor louco é odiar na mesma proporção em que se ama.

        Amor louco é enlouquecer pelo cheiro, pelo toque. É tornar-se um animal, seguir os instintos mais primitivos. É esquecer de qualquer regra de civilidade entre quatro paredes.

        Amor louco é recitar textos que fariam até um autor de novelas mexicanas sentir vergonha alheia. Recitar, repetir e ainda achar que está impressionando. E, pior ainda, conseguir MESMO impressionar a outra pessoa com essas baboseiras.

        Amor louco é ter aquela sensação de que não haverá dia seguinte. Todo aquele que ama loucamente tem no seu subconsciente a certeza de que ocorrerá uma hecatombe nuclear a qualquer instante, e por isso todos e quaisquer assuntos devem ser resolvidos e vividos agora. Porque o amor louco não suporta sequer pensar em resolver qualquer coisa no dia seguinte.

        Amor louco é dramático. Tudo é intenso. O amor louco usa lentes de aumento gigantes, já que nada é insignificante. O medo, a felicidade, o ciúme, a insegurança, a saudade, o matar a saudade, tudo tem proporções gigantescas.

        Amor louco é incompreensível para quem está de fora. E também para quem está de dentro. Amor louco a gente inventa. Pra se distrair. Mas é bem melhor se você conseguir encontrar um outro louco que aceite viver isso tudo com você. Porque senão você vai ganhar é uma ordem judicial restringindo sua proximidade da vítima. E isso não vai ser nada divertido. Embora seja bem louco.