sexta-feira, 11 de maio de 2012

Ensina-me a viver



   Sou uma devoradora de livros, desde criança. Devoradora de histórias, veja bem, porque tudo o que é real demais me cansa. Até hoje não consigo me concentrar em leituras técnicas ou descritivas, o interesse fica próximo de zero.

   Gosto mesmo é de gente. Gosto de saber histórias sobre outras pessoas. Gosto de saber como elas pensam, como elas reagem às diversas situações. Gosto de viver outras vidas.

   Porque ler romances tem disso, essa coisa de viver outras vidas. Quer coisa mais fascinante do que ver um personagem numa situação parecida com a sua, e assistir como ele pensa e reage? E ver a si próprio naquela pessoa, cometendo os mesmos erros? Ou encontrando as soluções possíveis? Ou entendendo o porquê de suas reações?

   Alguns personagens são marcantes em minha vida. Todas mulheres fortes e determinadas, claro, cada uma fascinante a seu modo. Cathy, do Morro dos Ventos Uivantes, com sua passionalidade selvagem. Kate, de A leste do Éden, com uma maldade sem igual, acho que nunca houve alguém tão perturbado como ela. Katia, dos Irmãos Karamazov, aparentemente tão passiva mas tão decisiva no rumo da história. Emma, de Um dia, às vezes é tão assustadoramente eu que já até tive medo de ter o seu mesmo fim trágico.

  Tem também os personagens escritores e os cronistas. Clarice Lispector e Danuza Leão que quase me ensinaram a ter pose de fina. Martha Medeiros que parece minha amiga confidente. Lendo Fabrício Carpinejar me sinto menos ridícula e exagerada. Eduardo Galeano tem sonhos de um mundo melhor que fazem meu coração bater mais forte. Anais Nin me irrita mas se parece tanto comigo, às vezes…

   Um livro com uma história ou um causo bem escrito transforma a vida da gente muito mais que um livro de auto-ajuda. Porque auto-ajuda é como conselho de pai e mãe: a gente sabe que tem que fazer daquele jeito, como é o certo, mas a gente escuta e esquece. Porque conselho não foi feito para ser seguido, a gente sempre faz mesmo é aquilo que temos vontade. E não adianta ficar se informando, esquematizando a fórmula ideal daquilo que parece ser correto, lá no fundo mesmo a gente sempre vai querer algo que não tem nada a ver com o correto. E um dia a gente explode, faz tudo errado, e dane-se a auto-ajuda. 

   Já aprender com histórias é outra coisa. Você se vê na situação, parece que vive aquilo. E tem a chance de ver o resultado de suas ações, de fora. E aí entende o que está acontecendo, ou o que não está acontecendo. E vai aprendendo aos poucos a viver. Ou aprendendo a entender a vida. Afinal, só se aprende viver vivendo, e ler histórias é uma chance de testar várias vidas, sem ter que alterar nada na sua própria.

   Engraçado é ser uma leitora tão contumaz e continuar fazendo burradas vida afora. Engraçado nada, trágico. Ou não. Devoradores de livros e seres imaginativos como eu são aqueles que aparentemente cometem mais erros. Mas é que só erra quem vive. E quem lê e imagina muito vive demais, vive tudo intensamente, até o último suspiro. E bate, e volta, e tenta, e erra, e até acerta às vezes, mas não cansa, vai de novo, para sentir, sentir tudo o que se conseguir, e procurar mais respostas, incessantemente. Não consegue jogar nenhum pedacinho de vida por baixo do tapete.

   Quer saber? Eu quero mesmo é viver, viver para conhecer histórias, para contar histórias. Porque quem diz que essa vida é uma só e tem que ser vivida de uma maneira tranqüila e exata são os livros de auto-ajuda. Ah, e o pai e a mãe da gente.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Imagine, são seus olhos...



Toda modéstia é falsa. Aliás, a expressão "falsa modéstia" devia ser catalogada na língua portuguesa como pleonasmo. Não dá para ser modesto sem ser falso, e ponto.

Veja só as situações possíveis: eu sei que não sei fazer direito determinada coisa, mas faço mesmo assim. Sei que não está bom. Apresento a coisa ao mundo, de maneira constrangida. Não estou sendo modesta, estou simplesmente sendo realista. 

Ou então a situação é esta: sei que tenho talento para determinada coisa, ou penso que tenho. Faço e acho que ficou perfeito. Aí, fico com medo de que as pessoas não concordem com o meu ponto de vista, e apresento timidamente a minha obra. Continuo não sendo modesta, estou sendo é insegura.

Terceiro caso: me acho o máximo, fiz o melhor que pude e o melhor que a humanidade podia receber. Mas acho que vai pegar mal se eu apresentar assim, dessa forma, com toda essa certeza de que sou o único ser humano capaz de produzir algo tão glorioso. Então, respiro fundo, baixo minha bola, faço uma carinha levemente insegura e apresento a minha obra-prima, contendo a minha emoção. Estou sendo modesta. Ou melhor, estou sendo falsa. 

Engraçado como, apesar de falsos, os modestos são muito mais bem vistos. Parece que temos que esconder nossas qualidades. Parece que ter consciência de nossas qualidades pode ser ofensivo ao resto do mundo. Como se quisessem nos dizer: "Ei, calma aí, quem disse que você mesmo pode dizer se é bom ou não em algo? Aguarde o julgamento de outras pessoas, seu metido!".

Eu acho mesmo que os convencidos de si próprios são mesmo é muito corajosos. Pensam que é fácil assumir o risco de dizer que fez uma coisa muito boa e de repente ser rechaçado pelo resto do mundo? Pois é, muito mais fácil colocar o julgamento por conta dos outros e apenas concordar com ele. Aliás, tirar a responsabilidade de si próprio é uma das maneiras mais cômodas de se viver.

Na realidade, sempre sabemos, ali em nosso íntimo, em que somos bons e em que não somos. Eu sei muito bem, por exemplo, que sou muito melhor em atividades intelectuais do que físicas. E não tenho problemas com isso. Podem caçoar de mim à vontade quando saio para fazer meus passeios de mountain bike. Estou me esforçando e dando o melhor que posso, mas sei que não está bom. Por outro lado, não tenho vergonha de dizer que adoro o que escrevo. Fico ainda mais feliz quando recebo elogios, mas aqui dentro eu entendo que eles são merecidos, sim. Também sei que cozinho muito bem, e sou muito criativa naquilo que faço. Qual o problema então de dizer que você está contente com o que faz? Isso não significa que você não tenha consciência de que possa fazer ainda melhor, que embora goste do que produziu, já esteja satisfeito e estagnado. Também não significa que você se sinta melhor que os outros. Significa apenas que você conhece as próprias qualidades. E também as próprias limitações.

Muito bem, abaixo a hipocrisia então. Cozinha muito bem? Então cozinhe para todos os seus amigos e ofereça orgulhoso a sua comida. É um excelente bailarino? Alegre a vida das pessoas com a beleza de seus movimentos. É um bom contador de histórias? Pois faça a vida alheia mais divertida com sua prosa. 

Nós, os convencidos, não temos medo nem vergonha de mostrar aquilo que a gente tem de melhor, para fazer a nossa vida e a dos outros muito mais alegre. Bacana é dividir aquilo que temos de melhor, não é mesmo?

quarta-feira, 21 de março de 2012

Wannabe


     Amiga é tudo de bom. Tudo começa quando a gente é pequenininha e tem aquela menina que é filha da melhor amiga da sua mãe. Compartilhamos nossas primeiras bonecas e nossos primeiros lacinhos de cabelo. Fazemos nossas primeiras dancinhas e matamos de rir os adultos com nossas primeiras gracinhas femininas.

    Então a gente cresce um pouquinho, vai para a escola e surge a nossa primeira grande amiga, aquela que fica com a gente na hora do recreio. Essa hora sempre foi muito difícil pra mim. Sempre fui desengonçada, então brincadeiras lúdicas, nem pensar. Agarrava mesmo era minha amiguinha e sentávamos juntas para tomar nosso lanche e ficar ali, num cantinho, uma fazendo companhia para a outra. De mãos dadas, fugindo da vergonha de ficar sozinha.

    Depois cresce mais um pouquinho, e aí o bando aumenta. São as amigas de adolescência. Ah, aquelas amigas com quem a gente vira a madrugada, fazendo planos, olhando no espelho, conversando sobre os defeitos no nosso rosto, no corpo, nos cabelos… Fala dos meninos, sonha com o futuro, imagina glamour, se maquia, dança no quarto, se apaixona por um astro do rock, ri baixinho para não acordar os pais, até o sol nascer, e aí caímos de sono, todas exaustas de tanto falar, de tanto dançar, de tanto dar risada, de tanto imaginar.

   Vamos para a faculdade, ainda somos adolescentes, mas nos achamos adultas. E continuamos sonhando entre amigas, continuamos falando sobre os meninos, e tagarelamos o dia inteiro, e nos penduramos no telefone, ah, mas ninguém entende o que amigas têm tanto para conversar. E é uma conversa sem fim, um assunto puxando outro, um tal de filosofar e achar que vai entender todos os problemas da humanidade. Surgem as festas, as viagens, as primeiras loucuras. Aquelas coisas que a gente não tem coragem de contar pra mãe alguma, só para as amigas.

   E quando viramos adultas? Bem, as amigas continuam lá. Só que aí você descobre que tem aquela amiga para ir ao shopping. Aquela pra sair para dançar. Aquela para ir ao cinema. Aquela para viajar. Aquela para conversar sobre nossos amores. E aquela para chorar nossos amores. E aquela para virar a madrugada conversando sobre a vida, sobre o cosmos, sobre o nada. E aquela que vai estar sempre ao seu lado quando você precisar, cuidando de você. E tem ainda aquela que você vai querer cuidar. E a outra que você nunca vê, mas está lá no seu coração, sempre presente, como parte de sua história.

    E tem também o momento de glória das amigas. Aquele dia em que saímos em bando, todas lindas. Saímos lindas para nossas amigas, porque dá muito orgulho ter amigas lindas. Saímos para arrasar, e dizemos aos meninos que adoramos ter eles por perto sim, e vamos conversar sobre eles sim, mas hoje é o dia das amigas. Nesse dia somos apenas meninas. Vamos rir de piadas que só nós entendemos. Vamos rir de tudo, vamos falar muito, vamos voltar para casa exaustas. 

   Sabe que nessa hora nem parece que a gente cresceu? Nem parece que trabalhamos, lideramos, produzimos, tivemos mil amores, ganhamos dinheiro, fizemos sucesso, fracassamos, vencemos desafios, enfrentamos derrotas.  Parece que somos ainda meninas. E somos mesmo, ao final. Somos meninas que precisamos de nossas amigas para segurar a nossa mão na hora do recreio. Simples assim. Enfim, o que seria de nós, mulheres, sem nossas amigas, não é mesmo?

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Mudanças


    Minha gata Lua perdeu quase todos os dentes. Fato inesperado, não é ainda uma gata idosa. Todos os exames feitos, nada de errado. Uma gengivite, talvez, por razões desconhecidas. Mas perdeu todos os dentes e por isso sua vida mudou.

   Ficou bastante nervosa por um tempo. Queria comer o que sempre costumava comer e não conseguia, o estômago ficava irritado. Ficou triste, mal humorada, e passou a rejeitar as comidas pastosas de que tanto gostava antes. Queria apenas sua vidinha normal de antes, não estava esperando uma alteração tão drástica em sua rotina.

    Agora já está se adaptando e voltando a ser a gatinha independente e auto-suficiente que sempre foi. Mas me fez pensar como é difícil reagir a mudanças.

   Sempre achamos que a maneira como vivemos é a única possível. Vivemos dentro de um mundinho que escolhemos para nós mesmos, e dele não pretendemos sair, mesmo que pareça que algo não corre muito bem. Até vislumbramos algumas mudanças, algumas saidinhas de nossa redoma, mas voltamos para ela o mais rápido possível, crianças acuadas e amedrontadas. O mundo fora de nossa redoma parece bem assustador. Muito mais fácil pensar como sempre pensamos, viver como sempre vivemos. Sabemos o que dá certo, e também o que dá errado. 

    Mas acontece que de repente, na vida de alguns privilegiados, eis que um grande acidente acontece e destrói violentamente a redoma. E aí surge um ser desprotegido e totalmente perdido no meio do nada. Alguns nem percebem a chance que recebem, e se autodestroem. Outros, como a minha pequena e valente Luazinha, resolvem o mais rápido possível que é melhor sobreviver. 

    E aí se dão conta de que aquela rotina não era única. Que existem várias outras. E que existem outros mundinhos além do nosso. 

    Bom mesmo seria se a gente tivesse a habilidade de viver em vários mundos diferentes, sem se sentir deslocado. Que nada nos causasse estranheza, e que pudéssemos nos divertir em qualquer situação, com quaisquer tipos de pessoas, em qualquer lugar, em qualquer código social. Claro que teríamos sim o nosso mundo favorito, mas esse mundo seria uma soma do melhor que vimos em cada mundo pelo qual transitamos. Seria a soma de nossas escolhas, de nossos maiores prazeres. Construiríamos nosso mundo de acordo com o que queremos, e não de acordo com o que nos é ofertado.

    Quer saber? Isso não é tão difícil assim. Exige só um tantinho de coragem. Ou um tantão. Porque quem tem medo de mudanças, quem tem medo de sofrer e se prende a prazeres temporários, não vai a lugar algum. Como diz a empregada doméstica negra Constantine no filme Histórias Cruzadas, para a adolescente branca por ela criada, que se sente feia e deslocada em seu mundo: "você pode acordar todos os dias e escolher a vida que quer levar, ou então, deixar a vida escolher você". 

    A frase fez toda a diferença na vida da menina. Fez sair da redoma, procurar novos caminhos. Fez dela uma mulher livre. Pois então. A liberdade não é irresponsável. Não significa apenas fazer aquilo que dá vontade. A liberdade está na coragem de assumir e lutar pelas regras que queremos para nós. Ainda que todos digam que você está errado. Ainda que pareça que você está perdendo muitas coisas pelo caminho.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Até logo, Anjinho


        
       Meu anjinho, a quem dei o nome de Fidel, foi embora. Foi embora cedo porque, como todo anjinho, veio apenas fazer uma visita breve aqui na Terra. São muitas as pessoas a visitar, e anjinhos não podem perder tanto tempo assim com uma pessoa só, afinal de contas.

        Mesmo assim, Fidelzinho ficou aqui comigo um pouco mais de tempo do que o devido. Sua doença poderia tê-lo levado embora um pouco antes. Ah, mas eu dou muito trabalho, e então ele decidiu ficar mais um pouco. Na verdade, continuo dando trabalho, mas ele achou que o tempo já era suficiente. E que agora eu poderia começar a resolver meus dramas sozinha.

        Um anjinho de alegria, isso é o que ele era. Gatinho divertido, carismático, engraçado, tagarela. Nunca se incomodava com nada, vivia num mundinho particular em que tudo era diversão. Adorava a irmãzinha brava, e embora ela morresse de ciúmes dele, o contrário nunca aconteceu. Ele sempre a olhava com admiração, fechava os olhinhos para apanhar e continuava, seguindo e amando. Um perfeito cavalheiro.

        Me mostrava como era comer com prazer, dormir com prazer, se divertir de verdade. Corria pela casa destrambelhado, escorregava, derrubava coisas, caía, e quando isso acontecia, colocava as orelhinhas para trás e arrancava risadas de todos. Me recebia todos os dias com uma carinha tão gostosa e se despedia de mim com outra que deixava metade do meu coração em casa. Companheiro no banho, na hora de escovar os dentes, na hora de estudar, no choro, no mau humor. Meu companheirinho inseparável pela casa.

        Quando descobri o PKD, uma doença genética típica de persas, os dois rins já comprometidos, aprendi ainda outra coisa. Aprendi que amor deve ser dado agora, neste momento. Não tem como deixar para depois. E eu passei a amar esse serzinho a cada dia, a cada minuto, a cada crise, como se fosse nossa despedida. E eu aprendi que é assim que deve ser, em qualquer situação. E o Fidelzinho correspondeu ao meu amor assim, com  a mesma intensidade. Aproveitando um ao outro, cada minuto.

        Em sua última noite, ele não pregou os olhos. Dormi perto dele, e acordava a todo instante para ver se estava tudo bem. Mas ele não dormia. Olhava a paisagem da varanda, como que querendo gravar cada detalhe. Eu senti que ele se despedia do mundo. Mas não demonstrou dor, não demonstrou sofrimento, os olhinhos brilhantes o tempo todo.

        Foi embora. E me ensinou assim a lidar com perdas. Me ensinou que tudo o que existe pode desaparecer em um segundo, sem que possamos fazer nada. E a vida vai seguir em frente, mesmo assim. E vamos aprender a viver sem aquilo que perdemos. Mas podemos ganhar outras coisas. Que não irão substituir aquelas que perdemos, mas que vão fazer a nossa vida continuar a seguir. E que aquilo que perdemos, na realidade não perdemos, apenas se transformou, pois vai ficar para sempre em nosso coração, fazendo parte da nossa história, daquilo que somos.

        Vai em paz, meu anjinho. Obrigada por ter me feito tão feliz. E por ter me amado tanto. E por ter me ensinado tantas coisas. Vai espalhar agora sua alegria em outras paragens, que você me ensinou também a ser menos egoísta.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Como é que morre um amor?


        Como é que morre um amor? Sim, amor morre. Pode morrer de morte morrida ou de morte matada. Vai doer das duas formas, porque a gente nunca entende porque um amor morre. A gente não quer que o amor morra, porque não devia ser assim. Então, a gente luta, luta e luta. E às vezes a gente salva o amor. Mas às vezes não tem jeito mesmo.

        Amor pode morrer de morte morrida. Vai morrendo devagarzinho, a gente nem percebe. No dia a dia, o encanto vai desaparecendo, o que era empolgante passa a ser trivial, e quando nos damos conta, o sentimento virou outra coisa. Virou carinho, virou ternura, virou um amor diferente. Virou um sentimento gostoso, mas não é mais aquele amor que a gente sentia e nos fazia sentir cada vez mais vivos, fazia os olhos brilharem e o coração bater mais forte. Fazia enxergar o mundo mais colorido.

        Tem quem continue junto mesmo assim. É um sentimento que não é ruim, é apenas confortável. Não tira mais o fôlego, não emociona. Mas é reconfortante. É seguro.

        E tem quem lute para ressuscitar esse amor. E às vezes consegue. Mas é que ele ainda não tinha morrido de vez, respirava bem pouquinho, lá no fundo. Aí, é só jogar uma bomba de oxigênio em cima. E ele renasce, vai ficando forte de novo. Mas não é todo mundo que consegue perceber a morte do amor a tempo de salvá-lo.

        Doída mesmo é a morte matada. Porque ela é consciente e racional. Violenta. O coração não quer, mas a mente percebe que o coração está cego. Percebe que só o amor não basta. Existe todo o resto, existem os problemas, insolúveis. As incompatibilidades, inconciliáveis. Os desejos, opostos. O amor ainda é forte e vive, mas as pessoas não conseguem encontrar um caminho comum.

        A decisão de matar um amor não pode ser uma simples fuga. Tem que ser bem pensada. Tem que ser depois de muita luta. Porque, se não for assim, não se mata um amor. Um amor é muito forte, não sucumbe a qualquer tacada. A tacada tem que ser certeira. Se você não tiver certeza, não vai conseguir acertar o amor. E só vai se machucar, porque ele vai sobreviver, e não vai deixar você em paz. E vai voltar, mais forte ainda.

        Então, antes de decidir matar um amor, temos que lutar muito por ele. Esgotar todas as suas possibilidades. Convencer-se de que realmente tudo foi feito. E que não tem mais jeito. Não há mais espaço para arrependimentos. Estar consciente de que vai doer. Vai doer muito. Mas é a única solução.

        O bom de tudo isso é que essa dor vai passar. Parece que não, mas passa. Um dia, vamos acordar e perceber que já não dói como doía antes. Que a ausência, antes tão sentida, tornou-se uma nostalgia. Uma recordação boa. Vamos lembrar que sentimos um amor muito grande. E que lutamos muito por ele. E que vivemos intensamente esse amor. Mas que ele teve que morrer, por amor. Amor ao outro e amor a nós mesmos.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Viajar, sempre


        Vou começar o ano falando de uma das coisas que mais amo fazer: viajar. Afinal, nesta época do ano, é o que todo mundo mais planeja na vida. Até mesmo aqueles que não são lá muito chegados em mudar a rotina, sentem-se na obrigação de viajar, só para não se sentirem losers. Porque, vejam só, Natal, Ano Novo, final e recomeço de ano, é tempo de inovar, encerrar ciclos e iniciar outros.

        A obrigação de viajar neste período é tamanha que muita gente se sente frustrada porque não consegue realizar uma viagem bacana. Parece até que existe uma competição entre as pessoas, para ver quem consegue planejar o final de ano mais legal. Torna-se uma neurose tão grande que o que vale é o que você vai contar, as fotos que você vai trazer, como você vai provar que se divertiu horrores.

        Bem, já deu para perceber que esta não é uma das minhas épocas favoritas do ano, não? Toda essa obrigação de ser feliz realmente me cansa. Assim como me cansa essa obrigação de viajar quando todos os hotéis estão lotados, as praias intransitáveis, os preços, nas alturas.

        Também não me agrada o tipo de viagem que predomina nesta época do ano. Porque o que mais se encontra neste período é aquele viajante que apenas mudou de posição geográfica. Funciona assim: o cidadão diz que ama viajar, planeja tudo, faz as malas e vai. Chega, visita os lugares, paga ingressos, tira fotos e tudo o mais. Só que não sai do seu mundo de jeito nenhum. Vive exatamente como viveria em sua casa, em sua cidade, em seu trabalho. Não sai do mesmo grupo de amigos, dos mesmos assuntos, dos mesmos pensamentos, da mesma rotina. Ou seja, apenas mudou de lugar. Vai voltar exatamente como foi.

        Mas ok, cada um vive como bem entende e eu não tenho nada com isso. É que para mim viajar é algo mais. Viajar é desligar-se do próprio mundo e permitir que outros entrem. Conhecer pessoas, ouvir histórias e observar. Descobrir novas maneiras de viver e pensar. Conhecer sabores novos, e perceber que é possível gostar do que não se gostava antes. Concluir que aquilo que parecia tão necessário na maioria das vezes não é. E que conforto é estado de espírito, e não depende de lençóis macios apenas. E que beleza está naquilo que não conhecemos e aprendemos a observar, e não na grandiosidade de monumentos. E que o sabor da comida daquele botequim em que você bate um papinho gostoso com o cozinheiro é um milhão de vezes melhor do que o daquele restaurante badaladíssimo e impessoal em Nova Iorque.

        Talvez porque para mim viajar seja tudo isso, e não apenas o ato de conhecer novas paisagens, eu tire poucas fotos. Fotos documentam aquilo que vemos, e não aquilo que sentimos. Tudo aquilo que sentimos e aprendemos numa viagem, fica cravado em nossos corações, mudando nossas vidas pra sempre. E talvez por isso uma grande e luxuosa viagem à Europa traga para mim a mesma felicidade que uma viagem a uma cidadezinha simples cravada entre as montanhas de Minas Gerais. Não é aquilo que documentamos que faz a viagem valer a pena, mas sim aquilo que nos enriquece e nos transforma. Viajar é a chance de experimentar outra vida.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O amor da gente




        Existem teorias que funcionam muito bem para a amizade, para os negócios e para as relações familiares, mas que nunca funcionam no amor. O amor é um sentimento único. O que une as pessoas que se amam é algo mais que amizade, é algo mais que família. Família a gente não escolhe, a gente nasce nela e aprende que ama e pronto. Amigo a gente escolhe e ama, mas amigo a gente escolhe conforme o humor da gente. Tem amigo para dar risada, amigo para ter papo cabeça, amigo para ir ao cinema, amigo para sair para dançar, amigo para viajar, amigo para falar de música… Tem até amigo para chorar as mágoas e cuidar da gente.

        O amor da gente não. O amor da gente foi escolhido para todas as horas. Escolhido não, encontrado. Não significa que a gente tenha que ficar grudado no amor da gente. Mas significa que o amor da gente, se precisar, vai escutar aquele papo cabeça, mesmo achando sem sentido as coisas que você fala. E significa que nós até topamos ir assistir aquele show horroroso de uma banda que a gente odeia, se o amor da gente realmente ficar feliz com isso. Significa que, mesmo sem vontade de assistir TV, ficamos do lado do amor da gente, só para poder ficar perto e mostrar para ele que pode contar conosco, sim. Em todas as horas. As mais legais e as mais chatas. Naquelas horas em que você teria vergonha de chamar qualquer amigo. Naquelas horas em que você mostra que é muito mais que um amigo. Parece asfixiante? Pode ser, mas só se a pessoa não for o amor da gente.

        Por isso, não adianta pedir ao amor da gente que não abra mão de nada por você. Quem ama abre mão, sim. Porque a vida é feita de escolhas, e se você tiver que escolher entre ver o seu amor feliz ou satisfazer o próprio desejo, com certeza você vai escolher ver o seu amor feliz. Ah, porque não tem nada que faça a gente mais feliz do que ver o amor da gente feliz. Então, no fundo, você não está abrindo mão de nada. Quem consegue fazer o seu amor feliz nunca perde nada.

        Também não adianta dizer ao amor da gente que ele está invadindo nosso espaço. Porque se alguém estiver invadindo nosso espaço, então esse alguém não é o amor da gente. Porque com o amor da gente a gente quer compartilhar tudo. Ligar no meio da tarde para contar que o companheiro de trabalho fez uma piada idiota, até isso a gente quer compartilhar. É gostoso ter alguém para compartilhar todos os nossos passos. É gostoso ter alguém para quem a gente não tem vergonha de contar todos os nossos passos. É a delícia de se ter intimidade, de não ter medo de parecer ridículo. Então, o amor da gente não invade espaços. Simplesmente porque, para ele, todos os espaços estão abertos.

        Tem gente que tem tanto medo de se perder dentro do amor da gente que fica se protegendo e não passa da porta de entrada. Acredita que está amando, mas não consegue sair de dentro de si. Nem deixa o outro entrar.

         Dá medo sim viver no mundo do outro. E dá mais medo ainda deixar o outro viver em seu mundo. Pois sair de si mesmo para navegar em um mundo desconhecido, e permitir também que naveguem em seu mundo, é uma aventura desafiadora. Uma aventura que poucos têm coragem de enfrentar, um salto de pára-quedas, um mergulho no oceano, um downhill de mountain bike. Tão bom que, depois que a gente consegue, quer repetir mais e mais. É isso. O amor da gente é como uma aventura, daquelas de que não desistimos diante das dificuldades. Porque mesmo com as dificuldades, ele é uma delícia de se viver.


domingo, 11 de dezembro de 2011

E nunca houve uma mulher como Gilda!

        Morro de inveja de mulheres sedutoras. Nunca consegui ser uma, e não foi por falta de vontade. Quando eu era criança, gostava de imaginar que tipo de mulher eu me tornaria. Talvez por influência da TV e do cinema, sonhava em ser algo como a Gilda, de Rita Hayworth. Aquela mulher que já acorda com as ondas perfeitas no cabelo e tem os cílios postiços de nascença. Que se movimenta feito um cisne, linda e elegante, indiferente a tudo. Alguém consegue imaginar Gilda em um ângulo desfavorável? Ou no banheiro, como todas as simples mortais?

        Não, Gilda é sempre linda. Seus movimentos são perfeitos, seus olhares são arrebatadores, seu sorriso derrete qualquer machão. O curioso é que mesmo assim é infeliz.

        Na realidade, em nosso imaginário tanto faz se Gilda é ou não infeliz, e quais os seus motivos para isso. Motivos para infelicidade, todos nós temos, em maior ou menor propensão. E já que é assim, melhor pagar o preço dessa infelicidade, se o resultado é ser tão linda e ter o mundo aos seus pés.

        Fiquei então pensando o que faria algumas pessoas mais sedutoras que as outras. Seduzir tem toques de magia. O sedutor consegue criar uma atmosfera de fantasia, algo irreal. Ele seduz porque inebria. E quem inebria, faz com que o inebriado não aja mais por si só, mas apenas em busca da manutenção dessa fantasia.

        Pessoas excessivamente transparentes, tais como a desengonçada que vos escreve, jamais serão sedutoras. Não sabemos criar esse ambiente fantástico, o tal jogo do cobre e descobre, o mistério que cega e anestesia, o mecanismo de punição e recompensa. O sedutor nunca diz o que pensa, ele insinua, deixa a vítima em constante dúvida, controla sua mente nesse jogo de adivinhação eterna. O ser humano não consegue conviver com a dúvida. Quando instalamos a dúvida, prendemos, acorrentamos.

        Só que acorrentar não é o mesmo que ser amado. Talvez por isso Gilda seja infeliz. Talvez seja difícil conviver com o vazio dessa irrealidade que o sedutor cria ao redor de si mesmo. Talvez esse estado constante de dúvida atormente ainda mais o sedutor que o seduzido. Talvez porque os seduzidos, quando despertam, voltam-se violentamente contra o sedutor. E isso acontece tanto no amor, quanto nas amizades, quanto nos negócios.

        Vai ver então que é melhor apenas conquistar. Mostrando a alma, os defeitos, as qualidades. Conquistar, diferentemente de seduzir, é ganhar a confiança. É mostrar que você está ali, de coração aberto, na hora que o outro precisar. Conquistar não exige beleza, charme ou inteligência, exige apenas sinceridade. E quem é sincero pode não ser idolatrado, mas é sim, verdadeiramente, amado.

        É, fiz um discurso até bem bonito em minha defesa. E vamos lá, posso dizer que tenho sido razoavelmente amada durante toda a minha vida. Na realidade, normalmente ou me amam ou me odeiam, é esse o preço que se paga pela transparência. Mas é que tem dias que me bate uma vontade muito grande de ser Gilda…  Ah, pensando bem, talvez não. É mais gostoso (e fácil) ser real.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Xô, preguiça!




        Eu tenho preguiça. E muita. Aliás, todo mundo tem, não é mesmo? Duvido que mesmo Steve Jobs não tenha sentido preguiça durante a vida dele. Duvido que todos esses autores de livros motivacionais sigam o que pregam, sejam sempre proativos e nunca sintam preguiça.

        Uma delícia dormir e acordar na hora que der vontade. Passar o dia no sofá vendo televisão, de pijamas. Ler apenas revistas de fofocas, não colocar o cérebro pra pensar, só deixar o tempo correr. Ter alguém para cozinhar, lavar, arrumar a casa e os armários, cuidar dos meus gatos, enfim, não ter que fazer absolutamente nada. Aliás, nada não. Bom mesmo é ter tempo livre para se fazer o que quer.

        Mas quem disse que o preguiçoso tem tempo livre? Tem nada. Porque fazer nada toma tempo. E acontece que o preguiçoso é muito ocupado. E acontece também que o preguiçoso tem preguiça de fazer o que gosta. Pior, acontece que o preguiçoso tem preguiça de pensar no que gosta de fazer. Porque até fazer o que se gosta dá trabalho.

        É, daí o preguiçoso olha ao seu redor e pensa no tanto de coisa que deveria fazer. E dá mais preguiça ainda. E as coisas a fazer vão se acumulando, e tudo vai ficando cada vez pior. Bom, aí o preguiçoso entrega para Deus e fica na sua, já que tudo se torna impossível.

        Olho para meus gatos dormindo deliciosamente na minha frente e penso: ah, mas que preguiça gostosa… queria ter essa vida…

        Que nada. Quem disse que gatos são preguiçosos? Gatos passam do estado de sono para o estado de alerta em um milésimo de segundo. São extremamente organizados e não suportam bagunça nem sujeira. Cuidam muito bem do próprio asseio. São hábeis caçadores. Lição de vida: por isso desfrutam de um sono tão prazeroso.

        Então tá. Preguiça não é tão gostoso assim quanto parece. Preguiça dá agonia. Preguiça dá insônia. Preguiça dá irritação. Preguiça dá insatisfação.

        E como sair do estado de preguiça então? Ai, difícil de saber. Na verdade, é necessária uma força danada para vencer a preguiça. Porque ela é forte pacas. Mas só no início. Com o tempo, vamos negociando com ela até uma hora em que ela resolve esquecer da gente. Só não pode esquecer de negociar. Porque ela é tão esperta que a qualquer momento pode voltar e nos dominar. E aí, tome renegociações! E do zero…

        Este é um texto bem preguiçoso. Um texto de quem sequer arrumou a cama ao acordar e esqueceu de apertar o botão da máquina de lavar roupa. Mas pelo menos colocou o cérebro e as mãos para funcionar e resolveu fazer alguma coisa. Então, D. Preguiça, vamos negociar. Amanhã você vai me deixar em paz, ok?