sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Colorindo


         

          Gosto de fazer pequenas reformas na minha casa, de vez em quando. Não aquelas reformas em que paredes são destruídas, os pisos são trocados, novos cômodos vão surgindo, outros vão desaparecendo. Gosto de fazer pequenas mudanças. Uma corzinha nova aqui, alguns enfeites novos ali, flores em algum lugar inesperado, talvez algumas mantas ou almofadas novas.

         Parecem mudanças insignificantes, mas não são. São pequenas, mas provocam necessidade de adaptação. Provocam estranheza, sensações novas, um calorzinho no coração quando se abre a porta.

         Essa minha vontade surge normalmente quando tudo está há tanto tempo tão acomodado, que entro em casa e nem percebo mais os detalhes. É tudo tão conhecido, tão previsível, que nem enxergo mais nada. Sequer percebo aquela estatueta que comprei naquela viagem deliciosa e que antes me trazia tão boas recordações.

         Com pequenas alterações, tudo parece novo, e os detalhes surgem novamente. O antigo conforto desaparece, para dar lugar à nossa necessidade de adaptação. E então, parece que o brilho das coisas surge de novo.

         E não é que a vida da gente é assim também? Às vezes temos a sensação de que não estamos vivendo nada de bom, que tudo está muito monótono. Não conseguimos mais enxergar o que conquistamos, o que temos ao nosso redor, e o quanto temos de bonito. Não valorizamos nem quem está ao nosso lado.

         E nessa hora tem gente que resolve destruir tudo, para recomeçar. E outros que preferem se adaptar à monotonia, e viver uma vida morna.

         Pois eu não gosto de nenhum dos extremos. A monotonia é a morte, e acho que destruir tudo só vale a pena quando está realmente ruim, não tem mais conserto. Se está bom, para que destruir? Muitos perdem a chance de desfrutar o que conseguiram, só porque não percebem que às vezes pequenas mudanças são suficientes para colorir tudo de novo.

         Então, penso que antes de reclamar da chatice da nossa vida, o ideal seria fazer pequenas alterações na rotina. O trabalho está chato? Experimente fazer as coisas de modo diferente. As reuniões com os amigos parecem um emprego? Experimente sugerir um passeio inusitado. O relacionamento não tem mais fogo? Experimente sair do sofá e descobrir um hobby novo, uma atividade desafiadora para ser feita a dois.

         Vida boa é vida assim, colorida, com desafios e com paixões. 

        Mas vida muito boa é vida na qual escolhemos nossas cores, os desafios que queremos e as paixões que desejamos.  

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Viver como uma milionária



   Decidi há muito tempo atrás que eu iria viver como uma milionária. Embora isso nunca tenha significado que eu iria efetivamente virar uma milionária.

   Sim, é isso mesmo. Ser milionária é uma coisa, viver como milionária é outra completamente diferente. Existem milionários que nunca vivem como milionários, aliás, existem milionários que nem se dão conta de que são milionários, quem diria viver como um.

  A primeira coisa que pensamos quando nos imaginamos milionários é: oba, vou viajar pra caramba, vou comprar tudo o que eu quero e não vou mais trabalhar.

  E quem foi que disse que precisa ser milionário para viajar pra caramba? É possível sim, viajar muito, nos finais de semana, nas férias, em qualquer brechinha disponível de nosso tempo. É claro que as distâncias e os lugares onde nos hospedamos variam um pouco de acordo com o dinheiro de que dispomos. É óbvio que um hotel 5 estrelas é muito mais confortável que uma barraca num quintal de pescador. E que ir para Paris talvez pareça mais fascinante do que Santa Rita do Passa Quatro, por exemplo. Mas… quem garante que será mais divertido? Viajar depende muito mais do estado de espírito do viajante, de sua disposição em aprender e sair da rotina, do que necessariamente ir a algum lugar. Não considero viagens a Miami com intuito estritamente consumista uma viagem. Isso em nada difere de um passeio normal ao shopping.

  Pois é, viaja pra caramba quem se abre a novos mundos, conhece novas realidades e se diverte, sempre. Quem só conhece o mesmo circuito e tem em outros lugares os mesmos hábitos  que possui em sua casa nunca viajou, só mudou de lugar um pouquinho.

   Comprar tudo o que se quer é uma lenda. Nós nunca vamos ter tudo o que temos, simplesmente porque o desejo humano é infinito. E, se pudermos comprar tudo aquilo que desejamos, passaremos a desejar aquilo que o dinheiro não pode comprar. Simples assim. O segredo está então em escolher nossos desejos. Saber escolher aquilo que temos a capacidade de satisfazer. E nunca, jamais, fazer dívidas. Viver endividado faz com que nos sintamos pobres. Comprar mais do que se pode é imaturidade. Se escolhemos aquilo que temos a capacidade de conseguir, simplesmente nos sentimos milionários. Porque amamos e valorizamos tudo aquilo que temos.

  O pensamento de que milionários não trabalham também é ilusório. Milionários trabalham sim, e muito. A diferença é que não trabalham pelo dinheiro, mas sim pelo prazer de produzir e fazer alguma diferença no mundo. Quem trabalha apenas para acumular dinheiro é pobre, embora possa ganhar muito. Pobre porque nunca está satisfeito com o que tem. E quem não gosta de trabalhar também é pobre. Porque não entrega nada ao mundo. E quem nada entrega, nada recebe. Um milionário trabalha além do que precisa, trabalha apenas porque é bom produzir. A única maneira de se sentir verdadeiramente vivo é produzindo, contribuindo. O dinheiro é mera consequência disso, apenas algo mais em toda a satisfação que se obtém com o trabalho e os benefícios que espalhamos com o nosso trabalho.

  Encontrar prazer e aprender em qualquer viagem que se faça, adaptar os nossos desejos materiais às nossas capacidades e trabalhar muito, com amor, oferecendo aquilo que de melhor possuímos. Venho vivendo assim há tempos, e me sinto milionária. Simples assim. Embora esteja bem longe de me tornar uma milionária…. ou não?

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Para sempre



   Eu acredito em amor de verdade. Daqueles que são para sempre, amores leais. Daqueles que contornam as crises, e sempre sobrevivem, cada vez mais fortes.

   Sei que isso é totalmente fora de moda. A racionalização e a inteligência dos dias de hoje nos informam que isso não existe, que as uniões são instituições fracassadas e que estamos todos fadados a viver em nossa individualidade. Vivamos juntos mas separados, por favor. Juntos enquanto for conveniente. Criam-se então fórmulas para tornar a inevitável separação o menos dolorosa possível, procura-se a proteção da dor antes que ela aconteça.

   Mas acredito ainda no sentimento antigo. Acredito no seja eterno, ainda que enquanto dure. Não acredito que o fim chegará. 

   Por acreditar nisso, nunca tive relacionamentos superficiais. Ou fico solteira, ou me entrego. Tenho personalidade de gato. Não me fortaleço com a companhia, fortaleço a companhia. Amei poucas vezes, mas em todas elas acreditei que era para sempre. Amo com todas as minhas forças, entrego a minha vida para ser dividida e nunca me arrependo. Quando acaba, dói sim, dói muito, parece que um pedaço foi arrancado. Aliás, não parece, o pedaço foi sim arrancado, e esse processo de tirar um pedaço de você mesmo é um dos piores que se pode ter notícia. Mas ainda assim acredito que vale a pena cada tentativa. 

   Talvez eu pense assim porque cresci vendo um casal que se ama e se respeita, profundamente, há mais de 43 anos. Um amor que não é afeito a grandes declarações românticas nem demonstrações de afeto, mas um amor companheiro e leal. Vi meus pais discutindo várias vezes, sim. Mas nunca, nem nos piores momentos, vi uma agressão. Meu pai nunca ameaçou sair de casa e nos abandonar. Nunca ouvi nenhum dos dois falando mal um do outro para mim, mesmo que estivessem morrendo de ódio. Podiam se desentender, mas frente a mim sempre foram um só. Frente a mim e ao resto do mundo. Hoje, velhinhos, a ternura e o cuidado que vejo entre eles me faz acreditar ainda mais no "para sempre".

   Às vezes penso que esse modelo torna minha vida amorosa um tanto difícil. Não consigo compreender as desilusões das pessoas em relação aos casamentos. Não consigo compreender porque tanto se desacredita em relacionamentos amorosos, para que inventar tantos artifícios mirabolantes para não se separar, não enjoar, não gastar, por que tanto medo da rotina. Para mim, parece tão simples…. basta amor e vontade de estar junto. Criatividade, admiração, respeito. Força de vontade, disposição. E, acima de tudo, acreditar que foi feita a escolha certa. Que é aquela pessoa que, dentre tantas no mundo, merece percorrer o caminho com você, sem desvios. Que é aquela pessoa que faz valer a pena abrir mão de tantas outras. Meus amores nunca terminaram por conta da rotina. Terminaram porque os caminhos se desencontraram, de alguma forma. Terminaram porque, em algum momento, achei que não era aquela a escolha certa ainda.

   Estar com alguém dá muito trabalho, sim. Por isso, só vale a pena se for por amor. Senão, melhor estar solteiro, viver aventuras, ter amigos. Amor é uma escolha, é sair de cima do muro. Amor não é para os covardes e indecisos.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Um grude só


         

         Amor bom é amor grudado. Isso mesmo, amor chiclete, amor corda e caçamba, amor tampa de panela. 

         Se a sua parte contrária começa a reclamar por espaço, por um tempo sozinho, diz que está precisando sentir saudade para tornar a relação saudável... provavelmente não está mais tão empolgado assim. Se diz essas coisas logo no começo do relacionamento, então, aí é que não deve estar a fim mesmo!

        Porque quando a gente ama a vontade de estar junto não tem fim. É um tal de querer contar tudo o que se faz, de querer saber o que o outro está fazendo, de querer fazer coisas juntos e também de querer ficar ali quietinho, sabendo que o amor está ao lado.

       É também um ficar enfastiado com as manias, com as chatices, com a bagunça ou com o excesso de organização, com a vontade de querer controlar ou ser controlado, uma irritação sem fim, mas uma incapacidade de ficar separado. É ficar com saudade cinco minutos depois da despedida. É brigar e fazer as pazes logo em seguida.

        É ficar tão grudado que se tem a impressão de desgaste. Mas desgaste é também amor. Não se sente desgaste de quem não se ama, simplesmente porque não ficamos perto de quem não amamos o suficiente para sentir o tal desgaste.

      Mas melhor ainda que amor grudado é amor emparelhado. Sabe aqueles amores em que temos um objetivo em comum? Pode ser um hobby, um trabalho, um ideal. Ou tudo isso junto. Amor emparelhado justifica o amor grudado. Um alimenta o outro.

      Tem coisa melhor que compartilhar uma paixão, ou várias paixões, com seu amor? E comemorar juntos as vitórias, e chorar juntos as derrotas.  E levantar juntos, lutar juntos, aprender juntos. E o melhor de tudo: poder ficar sempre grudado.

       Amor precisa de paixão para viver. Paixão não só um pelo outro, mas paixão pela vida. E paixão pela vida é criar, é construir, é sonhar, é viver. Porque quem não tem paixão nenhuma na vida não vive.  E amar, amar mesmo, só ama quem está vivo.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Portas abertas



    Minha casa é meu ninho, onde cada detalhe foi colocado por mim. Onde cada cantinho tem um pedaço meu de vida. Pintei paredes, coloquei objetos, tirei objetos, escolhi as cores, as almofadas, as flores… Até mesmo cada arranhadura na parede, cada móvel um pouquinho quebrado, faz parte da minha história.

    Não importa o que aconteça, quando chego em casa sinto um abraço. Um abraço em mim mesma. Gosto dos cheirinhos, sinto o carinho dos meus gatos. Nela, parece que nada de ruim pode me acontecer.

    Confesso que, quando vim morar aqui, tive medo. Esta foi a primeira casa onde morei verdadeiramente sozinha. Era a primeira vez que eu iria ser responsável por tudo. Foi assustador, era o fim de uma história e o começo de outra, completamente nova. E eu nem sabia ainda que história queria escrever.

   E tudo foi acontecendo assim, sem planejamento. E muitas, mas muitas coisas mesmo aconteceram. Nesta casa aprendi a ficar sozinha. Sempre gostei de ficar sozinha, mas aqui percebi que eu realmente conseguia ficar sozinha. E aprendi também a encher a casa de amigos, a pedir arrego nas noites tristes, quando não queria dormir sozinha. 

    Fico impressionada ao imaginar o quanto estas paredes viveram. Quanto me viram feliz, quanto me viram triste, quanto me viram enfurecida… E fico imaginando: será que quem entra aqui consegue perceber o quanto de mim está conhecendo?

  Pois é, abrir a casa da gente é como abrir o coração. Mostrar, escancaradamente, quem é você. E ainda quem são seus amigos, quem são seus amores. Está tudo registrado ali, para quem quiser observar.

    Talvez por isso muitas pessoas não gostem de receber pessoas em casa. Tive uma amiga no colégio que tinha pavor de que qualquer pessoa vislumbrasse, pela porta, qualquer detalhe da casa dela. Eu não. Gosto de abrir minhas portas.

   Gosto de dividir o que vivi. Gosto de dividir o que sinto. Não sei me expressar muito bem por palavras faladas, não sei demonstrar afeto. Não sei controlar minha raiva, tenho minhas emoções à flor da pele. Sou ansiosa pela verdade, não consigo fingir, não consigo mentir. Abrir minha casa é abrir meu coração, é pedir que me compreendam apesar das aparências. É pedir que não me vejam, não me escutem, mas sim, me sintam.

   E escrever? Escrever é mostrar meus sentimentos ao desconhecido. É contar minhas histórias, aquelas que somente minha casa registrou, a pessoas que talvez jamais visitem a minha casa. E que talvez jamais cheguem a me conhecer pessoalmente. E que, talvez por isso, compreendam muito mais meus sentimentos e medos do que quem está ali, ao lado, sofrendo as consequências de minha falta de habilidade social, de minhas emoções. Escrever é poder ser matéria bruta, abrir as portas da casa, do coração, da vida.

   Ou talvez seja um mero pedido desesperado de carinho.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Casar ou comprar uma bike?

     

      Ser solteiro é uma delícia. Ou um horror. Assim como ser casado pode ser o paraíso ou o inferno. 

     Ser solteiro significa usufruir de todo o seu egoísmo. Significa que o tempo é todo seu, para estudar, praticar esportes, trabalhar, viajar, sair com os amigos, aliás, sair com quem quiser, na hora que quiser. Significa que a pessoa que você mais ama no mundo é você mesmo. Investir na carreira, crescer, ganhar um dinheiro que é só seu. E com esse dinheiro só seu, comprar as roupas que puder, fazer as massagens que der vontade, freqüentar os restaurantes que escolher, viajar para qualquer parte do mundo, fazer as bobagens que passar pela sua cabeça. 

    Significa chegar em casa e encontrar as coisas exatamente do jeito que você deixou. Fazer a própria bagunça e arrumar quando der vontade. Cozinhar o que quiser, se quiser e na hora que quiser. Escolher se quer ver tv ou ler, dormir no sofá ou na cama, ficar de pernas para o ar ou trabalhar feito uma louca. Escolher se quer ficar bodeada sozinha ou encher a casa de amigos.

    Parece mesmo a descrição do paraíso, não é mesmo? E é sim. Mas então, por que as pessoas casam? Bem, uma grande parte das pessoas se casa porque na realidade elas não dão muita conta do paraíso. Tem solteiro que perde a maior parte do seu tempo procurando alguém, sem se dar conta de que está na companhia de uma pessoa maravilhosa, você mesmo. E aí realmente a solteirice é um inferno. E então se casam para aplacar a suposta solidão, só para ter alguém ao seu lado. O que obviamente não funciona, e passam do inferno da solteirice ao inferno do casamento. 

     Mas casamento pode ser sim, o paraíso. Adoro casamentos de verdade, e o que chamo de casamento não é a instituição, mas o casamento de coração, aquele em que você resolve partilhar a sua vida com alguém. E partilha não porque precisa, muito pelo contrário, mas porque ama. A vida compartilhada é muito complicada, exige respeito, paciência, leniência. Mas vale muito a pena. Provoca um aprendizado e um crescimento diferente daquele que acontece quando estamos solteiros. 

     Ser casado significa fazer concessões, abrir mão de algumas coisas e fazer outras que você não está tão a fim assim. Significa que o espaço e o tempo não é mais todo seu. Significa que as decisões serão tomadas a dois. 

     Parece um horror, mas não é. Ser casado é também acordar com o beijo de quem se ama, é ter alguém para segurar sua mão na hora de dormir. É ter alguém para ligar no meio da tarde para contar uma besteira, alguém para rir de suas bobagens, poder ser ridículo sem ter medo de ser rejeitado. É ter alguém para contar seus planos, para sonhar, para contar o seu dia. É ter alguém ao seu lado vendo tv enquanto você lê. 

    É bom demais ser solteiro, sim. Mas é também bom demais ser casado. Desde que você esteja casado por opção. Porque, parafraseando Renato Russo, casar é trocar a segurança do seu mundo por amor. É uma escolha. 

   Por isso não acredito em meio-termo. Ou assumimos a solteirice ou assumimos ser casados. Qualquer coisa diferente disso é puro medo. Medo de ficar sozinho. E se nem você suporta viver em sua companhia, quem mais suportará, não é mesmo?

segunda-feira, 28 de maio de 2012

E agora, Crisinha?


   Meu paizinho ficou velho. Pois é, aconteceu. Foi devagarinho, eu nem notei direito. As falhas no sistema foram ocorrendo de maneira tão sutil e gradual, que nem me dei conta do que estava acontecendo. Mas agora que percebi tomei um susto.

   A primeira vez que me dei conta disso foi num restaurante. Fui pedir senha para aguardar uma mesa, e a mocinha me disse que daria prioridade porque eu estava com pessoas idosas. Parei e olhei para trás e vi meu pai e minha mãe. Como assim, pessoas idosas? Para os meus olhos ainda eram o meu alicerce, aquele que nunca se rompe, mas a outros olhos eram pessoas idosas. Mas sim, olhei para o meu pai e percebi que realmente alguma coisa era diferente do que sempre foi. 

   Os ouvidos começaram a escutar cada vez menos, e ele, que tinha reflexos tão rápidos, agora dirige devagar. Sabe aqueles velhinhos que atravancam a nossa passagem na rua? Pois é, meu pai, que sempre ultrapassou todos, implacável, agora dirige assim. Aquela curiosidade que sempre me inspirou a aprender, agora também obedece a um ritmo mais lento. O raciocínio demora um pouco, as respostas tardam a vir. As nossas conversas agora são pausadas, para que ele possa compreender e responder depois de pensar um pouco. O corpo que, embora pequeno, sempre foi tão forte e tão disposto, agora se cansa rápido. Sempre tão preocupado com o asseio e a aparência, agora escolhe qualquer roupa no armário para vestir.

   São vários os médicos, vários os remédios, vários os exames, difícil de saber se isso faz bem ou mal. Mas olho para ele e sinto que tudo mudou, mesmo. Difícil de entender, mais difícil ainda de aceitar, embora seja o ciclo natural da vida.

  Esse velhinho é o homem que me ensinou a sonhar correr o mundo, me mostrando lugares tão diferentes e tão distantes num mapa nas manhãs de domingo. Que me levava, com minha mãe,   para passeios em parques nos finais de semana, para que a filhinha única introspectiva e desengonçada se movimentasse um pouco e aprendesse a brincar com outras crianças. Que voltava do trabalho, todos os dias, com um chocolate nos bolsos.  Que me ensinou a andar de bicicleta. Que me acompanhou nos primeiros shows de música da minha vida. Que acordava na madrugada para ir me buscar nas minhas primeiras baladinhas adolescentes. Que sempre foi amado por todos os cães e gatos, da casa, da rua, de qualquer lugar. Que me ensinou a falar a verdade, sempre, mesmo que as conseqüências não fossem boas. Que me ensinou que de nada adianta se dar bem burlando regras e trapaceando. Que sempre me disse para honrar compromissos, mesmo que a vontade fosse de ficar em casa sem fazer nada. Que sempre deixou bem claro que, dentre todas as crianças, eu era a mais importante da vida dele. Que sempre me protegeu, embora nem sempre me defendesse. Que nunca soube abraçar, nem beijar, nem dizer palavras bonitas, mas me ensinou que amor é mais que isso, é cuidado, é presença, é o poder contar, sempre.

  Eu não sei o que fazer. Tenho medo de não saber cuidar dele como ele cuidou de mim. Mas tenho mais medo ainda de que ele perceba que eu estou com tanto medo assim.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Ensina-me a viver



   Sou uma devoradora de livros, desde criança. Devoradora de histórias, veja bem, porque tudo o que é real demais me cansa. Até hoje não consigo me concentrar em leituras técnicas ou descritivas, o interesse fica próximo de zero.

   Gosto mesmo é de gente. Gosto de saber histórias sobre outras pessoas. Gosto de saber como elas pensam, como elas reagem às diversas situações. Gosto de viver outras vidas.

   Porque ler romances tem disso, essa coisa de viver outras vidas. Quer coisa mais fascinante do que ver um personagem numa situação parecida com a sua, e assistir como ele pensa e reage? E ver a si próprio naquela pessoa, cometendo os mesmos erros? Ou encontrando as soluções possíveis? Ou entendendo o porquê de suas reações?

   Alguns personagens são marcantes em minha vida. Todas mulheres fortes e determinadas, claro, cada uma fascinante a seu modo. Cathy, do Morro dos Ventos Uivantes, com sua passionalidade selvagem. Kate, de A leste do Éden, com uma maldade sem igual, acho que nunca houve alguém tão perturbado como ela. Katia, dos Irmãos Karamazov, aparentemente tão passiva mas tão decisiva no rumo da história. Emma, de Um dia, às vezes é tão assustadoramente eu que já até tive medo de ter o seu mesmo fim trágico.

  Tem também os personagens escritores e os cronistas. Clarice Lispector e Danuza Leão que quase me ensinaram a ter pose de fina. Martha Medeiros que parece minha amiga confidente. Lendo Fabrício Carpinejar me sinto menos ridícula e exagerada. Eduardo Galeano tem sonhos de um mundo melhor que fazem meu coração bater mais forte. Anais Nin me irrita mas se parece tanto comigo, às vezes…

   Um livro com uma história ou um causo bem escrito transforma a vida da gente muito mais que um livro de auto-ajuda. Porque auto-ajuda é como conselho de pai e mãe: a gente sabe que tem que fazer daquele jeito, como é o certo, mas a gente escuta e esquece. Porque conselho não foi feito para ser seguido, a gente sempre faz mesmo é aquilo que temos vontade. E não adianta ficar se informando, esquematizando a fórmula ideal daquilo que parece ser correto, lá no fundo mesmo a gente sempre vai querer algo que não tem nada a ver com o correto. E um dia a gente explode, faz tudo errado, e dane-se a auto-ajuda. 

   Já aprender com histórias é outra coisa. Você se vê na situação, parece que vive aquilo. E tem a chance de ver o resultado de suas ações, de fora. E aí entende o que está acontecendo, ou o que não está acontecendo. E vai aprendendo aos poucos a viver. Ou aprendendo a entender a vida. Afinal, só se aprende viver vivendo, e ler histórias é uma chance de testar várias vidas, sem ter que alterar nada na sua própria.

   Engraçado é ser uma leitora tão contumaz e continuar fazendo burradas vida afora. Engraçado nada, trágico. Ou não. Devoradores de livros e seres imaginativos como eu são aqueles que aparentemente cometem mais erros. Mas é que só erra quem vive. E quem lê e imagina muito vive demais, vive tudo intensamente, até o último suspiro. E bate, e volta, e tenta, e erra, e até acerta às vezes, mas não cansa, vai de novo, para sentir, sentir tudo o que se conseguir, e procurar mais respostas, incessantemente. Não consegue jogar nenhum pedacinho de vida por baixo do tapete.

   Quer saber? Eu quero mesmo é viver, viver para conhecer histórias, para contar histórias. Porque quem diz que essa vida é uma só e tem que ser vivida de uma maneira tranqüila e exata são os livros de auto-ajuda. Ah, e o pai e a mãe da gente.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Imagine, são seus olhos...



Toda modéstia é falsa. Aliás, a expressão "falsa modéstia" devia ser catalogada na língua portuguesa como pleonasmo. Não dá para ser modesto sem ser falso, e ponto.

Veja só as situações possíveis: eu sei que não sei fazer direito determinada coisa, mas faço mesmo assim. Sei que não está bom. Apresento a coisa ao mundo, de maneira constrangida. Não estou sendo modesta, estou simplesmente sendo realista. 

Ou então a situação é esta: sei que tenho talento para determinada coisa, ou penso que tenho. Faço e acho que ficou perfeito. Aí, fico com medo de que as pessoas não concordem com o meu ponto de vista, e apresento timidamente a minha obra. Continuo não sendo modesta, estou sendo é insegura.

Terceiro caso: me acho o máximo, fiz o melhor que pude e o melhor que a humanidade podia receber. Mas acho que vai pegar mal se eu apresentar assim, dessa forma, com toda essa certeza de que sou o único ser humano capaz de produzir algo tão glorioso. Então, respiro fundo, baixo minha bola, faço uma carinha levemente insegura e apresento a minha obra-prima, contendo a minha emoção. Estou sendo modesta. Ou melhor, estou sendo falsa. 

Engraçado como, apesar de falsos, os modestos são muito mais bem vistos. Parece que temos que esconder nossas qualidades. Parece que ter consciência de nossas qualidades pode ser ofensivo ao resto do mundo. Como se quisessem nos dizer: "Ei, calma aí, quem disse que você mesmo pode dizer se é bom ou não em algo? Aguarde o julgamento de outras pessoas, seu metido!".

Eu acho mesmo que os convencidos de si próprios são mesmo é muito corajosos. Pensam que é fácil assumir o risco de dizer que fez uma coisa muito boa e de repente ser rechaçado pelo resto do mundo? Pois é, muito mais fácil colocar o julgamento por conta dos outros e apenas concordar com ele. Aliás, tirar a responsabilidade de si próprio é uma das maneiras mais cômodas de se viver.

Na realidade, sempre sabemos, ali em nosso íntimo, em que somos bons e em que não somos. Eu sei muito bem, por exemplo, que sou muito melhor em atividades intelectuais do que físicas. E não tenho problemas com isso. Podem caçoar de mim à vontade quando saio para fazer meus passeios de mountain bike. Estou me esforçando e dando o melhor que posso, mas sei que não está bom. Por outro lado, não tenho vergonha de dizer que adoro o que escrevo. Fico ainda mais feliz quando recebo elogios, mas aqui dentro eu entendo que eles são merecidos, sim. Também sei que cozinho muito bem, e sou muito criativa naquilo que faço. Qual o problema então de dizer que você está contente com o que faz? Isso não significa que você não tenha consciência de que possa fazer ainda melhor, que embora goste do que produziu, já esteja satisfeito e estagnado. Também não significa que você se sinta melhor que os outros. Significa apenas que você conhece as próprias qualidades. E também as próprias limitações.

Muito bem, abaixo a hipocrisia então. Cozinha muito bem? Então cozinhe para todos os seus amigos e ofereça orgulhoso a sua comida. É um excelente bailarino? Alegre a vida das pessoas com a beleza de seus movimentos. É um bom contador de histórias? Pois faça a vida alheia mais divertida com sua prosa. 

Nós, os convencidos, não temos medo nem vergonha de mostrar aquilo que a gente tem de melhor, para fazer a nossa vida e a dos outros muito mais alegre. Bacana é dividir aquilo que temos de melhor, não é mesmo?

quarta-feira, 21 de março de 2012

Wannabe


     Amiga é tudo de bom. Tudo começa quando a gente é pequenininha e tem aquela menina que é filha da melhor amiga da sua mãe. Compartilhamos nossas primeiras bonecas e nossos primeiros lacinhos de cabelo. Fazemos nossas primeiras dancinhas e matamos de rir os adultos com nossas primeiras gracinhas femininas.

    Então a gente cresce um pouquinho, vai para a escola e surge a nossa primeira grande amiga, aquela que fica com a gente na hora do recreio. Essa hora sempre foi muito difícil pra mim. Sempre fui desengonçada, então brincadeiras lúdicas, nem pensar. Agarrava mesmo era minha amiguinha e sentávamos juntas para tomar nosso lanche e ficar ali, num cantinho, uma fazendo companhia para a outra. De mãos dadas, fugindo da vergonha de ficar sozinha.

    Depois cresce mais um pouquinho, e aí o bando aumenta. São as amigas de adolescência. Ah, aquelas amigas com quem a gente vira a madrugada, fazendo planos, olhando no espelho, conversando sobre os defeitos no nosso rosto, no corpo, nos cabelos… Fala dos meninos, sonha com o futuro, imagina glamour, se maquia, dança no quarto, se apaixona por um astro do rock, ri baixinho para não acordar os pais, até o sol nascer, e aí caímos de sono, todas exaustas de tanto falar, de tanto dançar, de tanto dar risada, de tanto imaginar.

   Vamos para a faculdade, ainda somos adolescentes, mas nos achamos adultas. E continuamos sonhando entre amigas, continuamos falando sobre os meninos, e tagarelamos o dia inteiro, e nos penduramos no telefone, ah, mas ninguém entende o que amigas têm tanto para conversar. E é uma conversa sem fim, um assunto puxando outro, um tal de filosofar e achar que vai entender todos os problemas da humanidade. Surgem as festas, as viagens, as primeiras loucuras. Aquelas coisas que a gente não tem coragem de contar pra mãe alguma, só para as amigas.

   E quando viramos adultas? Bem, as amigas continuam lá. Só que aí você descobre que tem aquela amiga para ir ao shopping. Aquela pra sair para dançar. Aquela para ir ao cinema. Aquela para viajar. Aquela para conversar sobre nossos amores. E aquela para chorar nossos amores. E aquela para virar a madrugada conversando sobre a vida, sobre o cosmos, sobre o nada. E aquela que vai estar sempre ao seu lado quando você precisar, cuidando de você. E tem ainda aquela que você vai querer cuidar. E a outra que você nunca vê, mas está lá no seu coração, sempre presente, como parte de sua história.

    E tem também o momento de glória das amigas. Aquele dia em que saímos em bando, todas lindas. Saímos lindas para nossas amigas, porque dá muito orgulho ter amigas lindas. Saímos para arrasar, e dizemos aos meninos que adoramos ter eles por perto sim, e vamos conversar sobre eles sim, mas hoje é o dia das amigas. Nesse dia somos apenas meninas. Vamos rir de piadas que só nós entendemos. Vamos rir de tudo, vamos falar muito, vamos voltar para casa exaustas. 

   Sabe que nessa hora nem parece que a gente cresceu? Nem parece que trabalhamos, lideramos, produzimos, tivemos mil amores, ganhamos dinheiro, fizemos sucesso, fracassamos, vencemos desafios, enfrentamos derrotas.  Parece que somos ainda meninas. E somos mesmo, ao final. Somos meninas que precisamos de nossas amigas para segurar a nossa mão na hora do recreio. Simples assim. Enfim, o que seria de nós, mulheres, sem nossas amigas, não é mesmo?