sexta-feira, 22 de março de 2013

Autoajuda?



Autoajuda é um fenômeno curioso. Primeiro surgiram os livros. Depois as palestras. Agora, com as redes sociais, a autoajuda tem seu momento mais que pop: as fotos e ilustrações com legendas. O mais engraçado é que as frases são atribuídas a notáveis como Shakespeare, Platão, Aristóteles, Clarice Lispector. Até os mais moderninhos como Tati Bernardi, Martha Medeiros e Fabrício Carpinejar já conseguiram suas ilustrações. E o pior é que é muito óbvio que o autor em questão jamais escreveria aquilo. Ou porque a frase é muito pobre, ou porque o vocabulário é moderno demais para isso. Gente, eu já vi atribuírem a filósofos gregos coisas que jamais poderiam existir na época. 

E o pior de tudo é que esse negócio de autoajuda não funciona. A pessoa lê, fica toda emocionada, acha que a coisa foi escrita exatamente para ela, e diz: é isso mesmo, eu vou tomar um rumo na minha vida agora! Então tem uma noite de sono e volta tudo a ser como era antes. E no dia seguinte, lê outra coisa, e assim ela segue, dia após dia.

Lembra-me muito as palestras motivacionais. Existem empresas que fazem essas palestras diariamente, pela manhã. O sujeito sai para trabalhar pilhado, depois da palestra. No fim do dia, está meio desanimado, mas no dia seguinte a palestra vai fazer com que ele continue o processo.

E por que não funciona? Porque são muletas. Porque são perfeitas. Porque são confortáveis. Porque acalentam. Porque são apenas mimos.

Veja só um dos pensamentos que mais fazem sucesso. São muitas as variantes, mas a idéia é mais ou menos essa: Deixe quem você ama ir, se for seu, volta. Ora, ora, todo mundo que está sofrendo de amor fica felicíssimo com uma frase dessas. Você está lá, contorcendo de dor, sofrendo e achando que seu mundo acabou e acreditando que nunca mais vai amar de novo. E aí vem uma frase bonitinha que diz que você não precisa sofrer, porque pode ser que a pessoa volte, ela só quer um tempo. E aí seu coração se enche de esperança, e você vai dormir feliz aguardando o tal dia chegar. 

Outro da mesma linha: Quem te ama te valoriza, te procura. O sujeito está lá, se sentindo abandonado pelo seu amor. Vem alguém e diz justamente o que ele quer escutar. Como ele fica? Feliz, porque se sente cheio de razão. E fica procurando e procurando aquele ser humano que vai valoriza-lo incondicionalmente.

Tudo mentira, minha gente. Quem foi, em tese não volta. Em algumas situações, pode até voltar, mas esta não é a regra. Se foi, é porque não ama mais e ponto. E quem te ama não te valoriza o tempo todo não. Quem te ama tem um monte de coisa pra fazer, e antes de mais nada precisa se valorizar. Quem te valoriza o tempo todo na realidade é um babão obcecado por você. E vamos combinar, quem te valoriza o tempo todo… enjoa! Querida Cinderela, amor só sobrevive em movimento. Amor redondinho é falso, desculpe. Quem só elogia não conhece ou não quer conhecer.

Tem uma porção de outras frases assim, que deixam as pessoas felizes. E por que elas ficam felizes? Porque elas sentem que têm razão. E ainda por cima têm algo que guia os seus passos, como receita para a felicidade. E por que não funciona? Porque nada que só te afaga o tempo todo funciona. O que afaga deixa você parado. O que afaga não faz você pensar no novo. O que afaga faz feliz apenas por algum tempo. Depois fica o vazio. O vazio de continuar no mesmo lugar. O vazio de não crescer.

O que funciona então? O que funciona é o que provoca, que enraivece, que contraria. Que incomoda, que irrita. Só assim somos forçados a enxergar por outros ângulos, só assim somos forçados a nos movimentar, a mudar, a crescer, a aprender. Só reage quem é provocado. A vida é movimento. E quem está no quentinho não se move. 

Pois é. Não adianta procurar alento para o coração. O que realmente funciona é o movimento. E só aquilo que incomoda movimenta. É o diferente que nos tira de nós mesmos. Autoajuda não funciona por isso. Porque é auto. E de nada adianta girar em torno de si mesmo. 

terça-feira, 12 de março de 2013

Armários vazios



Encerrar um amor não é fácil. Digo encerrar um amor, não uma paixão ou um encantamento. Paixão, encantamento, se vão, tão leves como chegaram. Chegam como uma chama, alegram nossas vidas e, como um sonho bom, uma brincadeira, se despedem, devagarzinho, de fininho.

Amor não. Amor não chega como fogo, embora às vezes se aproveite dele para entrar. Vai se instalando, sem a gente perceber. Nem tem como se proteger. Quando você percebe, está amando. E está mudando o rumo de sua vida, mudando seus caminhos. Sonhando, fazendo planos.

Por isso dói tanto quando um amor se vai. De repente, os sonhos desaparecem, os planos se destroem, de repente sua vida não tem mais um rumo. De repente, tudo aquilo que se sonhou, que se sorriu, que se construiu, que se perdeu, tudo isso, desaparece. E sobra você sozinho, procurando um outro caminho para seguir.

Só caminhamos juntos por amor. Só modificamos nossas vidas por amor. Só abrimos mão de parte do que somos por amor. Sem o amor, nada faz sentido. O amor é o único sentimento que, de tão poderoso, faz com que emprestemos parte de nossa vida a outra pessoa. Que nos faz perdoar o imperdoável, e ignorar o que seria intolerável. 

Mas o amor é também exigente, exige cuidados. Não admite frações. Ou ele tem tudo, ou não tem nada. Você pode até tentar o enganar o amor, dando-lhe frações do que ele precisa. Mas não adianta, ele não vai sobreviver. Aos poucos, ele morre. Aos poucos, mas não sem dor. Amor é o mais forte e ao mesmo tempo o mais delicado dos sentimentos. 

Dizer que o amor sobrevive a uma separação é enganar-se. Às vezes queremos enganar nossa dor e dizer que vamos nos amar para sempre, mesmo separados. Pura mentira. Separados, caminhamos por outros caminhos. Não temos mais  a quem emprestar nosso coração, nossa alma. Nem podemos mais fazer isso. Como emprestar nossa vida a alguém que não sabemos mais ao certo quem será, daqui por diante? Não adianta. Não há generosidade fora do amor.

Separar-se é isso. É cada um pegar seus pertences. É começar a separar o que é seu, e o que não é. É ver ir embora aquilo que você já achava que era seu. É sentir falta daquilo que nem combinava na sua casa, mas que você permitiu que entrasse, e no fim acabou gostando. É olhar para os armários vazios, e não saber o que colocar neles. Embora tenha dado um trabalho danado para arranjar um espaço nestes mesmos armários. 

Os armários resumem tudo. Não, não havia espaço naqueles armários. Mas você abriu um espaço neles. Deixou o outro entrar. E agora, eles estão vazios.  E está na hora de preencher os  seus armários com o que você tem. Só que agora do seu jeito. 

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Promessa





Não prometo ser boa, penso em maldades.
Não prometo ser forte, tenho medo.
Não prometo ser delicada, sou grosseira quando estou triste.
Não prometo ser carinhosa, sou um pouco fria.
Não prometo dizer as coisas certas, às vezes me expresso mal.
Não prometo ser feliz o tempo todo, sou um pouco instável.
Não prometo fazer as coisas do jeito certo, sou errada.
Não prometo ser a mulher dos seus sonhos, a amiga perfeita, a amante ideal.
Não prometo equilíbrio, sou passional.

Prometo apenas o que tenho.
Que pode ser pouco, pode ser triste, pode ser instável.
Pode ser desajeitado, pode ser confortante.
Pode ser alegre, pode ser esperança, pode ser bonito.
Só posso isso.
Mas prometo dividir tudo.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Ser amado



Ser amado é ser escolhido dentro de um bilhão de possibilidades que existem no mundo, é ter a sensação de ser alguém especial, pelo menos para uma pessoa. Por isso não existe sensação melhor do que ser amado. E amar.

Ser escolhido significa sentir-se único. Sentir-se admirado. Significa que alguém o observou atentamente, percebeu suas qualidades e seus defeitos. Principalmente seus defeitos. E mesmo assim prossegue querendo você.

Ser escolhido nos fortalece. Já que, pelo menos com aquela pessoa no mundo, não vai ser necessário fingir. Essa pessoa pode até implicar com os seus defeitos, questionar as suas maldades cotidianas, irritar-se com suas manias, querer que você corrija seu modo de se vestir, de se comportar, de viver, mas, mesmo assim, você sabe que ela sempre estará ali, pronta para perdoar suas falhas, e às vezes até rir delas, e às vezes até dizer que é por esse seu modo atrapalhado de viver que ela se apaixonou. 

Ser amado significa saber que uma briga é apenas uma briga, um desentendimento passageiro, e que tudo logo vai passar, e terminar num abraço, já que não é uma briga qualquer que nos fará abrir mão de alguém que seja raro, tão delicadamente encontrado.

Quem é amado às vezes sente uma certa insegurança de não ser tão amado assim. Mas passa logo, pois quem é amado sabe que aquele fulano não tem o mesmo jeito mal humorado de acordar de manhã que o seu,  e que o outro tanto adora. Aliás, quem é amado sabe que é admirado pelo seu jeito único, e que não vai ser encontrado por aí em qualquer pessoa. E quando lembra disso, perde a insegurança e, sem perceber, coloca um sorriso aliviado no rosto.

Aliás, ser amado significa ter sido descoberto por alguém. Significa que alguém o desvendou completamente, conseguiu enxergar o que os outros não vêem. E justamente porque enxergou aquilo que os outros não vêem, fez sua escolha. Enxergou o que de melhor você tem, e que está escondido, porque você não consegue demonstrar. Enxergou o que de pior você tem, mas gostou mesmo assim, porque sabe que o seu pior você só demonstra quando está com medo. E o que é melhor, significa que alguém finalmente conseguiu enxergar aquilo que você quer demonstrar para todo mundo, mas ninguém consegue ver. Só quem ama.

Ser amado é isso tudo. Mas isso tudo também é amar. Porque é bom demais ser amado, mas melhor ainda é descobrir em alguém algo que só você consegue enxergar. Porque é bom demais sentir-se único, mas melhor ainda é ter descoberto alguém único no mundo para amar.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

E assim escolhi!



"Amor não é uma fatalidade, é uma escolha."  Parem tudo, caramba. Como assim, amor não está escrito nas estrelas? Amor não é um encontro de almas predestinadas? Quer dizer que é uma escolha, simples assim, depende apenas da minha própria vontade?

Puxa, então tudo o que eu li e vi nos mais delirantes e passionais livros e filmes é mentira? Amor não é algo que resiste a todas as intempéries do destino, sentimento mais forte que nós mesmos, algo sobre o qual não temos nenhum controle?

Não, não tem nada de mágico no amor. Amamos quem queremos. E deixamos de amar quando não queremos mais amar. Amamos quando a pessoa está alinhada com aquilo que desejamos, e deixamos de amar quando o alinhamento não existe mais. Simples assim. É claro que tem a pele, tem a química, tem o cheiro. Tem o algo mais. Mas isso, por si só, não sustenta um amor, sustenta, no máximo, uma paixão. 

Minha alma romântica deveria estar desolada com essa descoberta, mas não está. Há um romantismo na escolha. E afinal, ela não é tão consciente assim, não é um mero jogo de interesses. Observando quem amamos, descobrimos muito sobre nós mesmos. Descobrimos do que gostamos, descobrimos o que desejamos, o que planejamos. Imagine o que é descobrir o que você realmente deseja para sua vida, observando um outro alguém. Imagine que descobrir um amor é o mesmo que descobrir a nós mesmos.

Por ser uma escolha, ela depende de nossa vontade. Não basta escolher, tem que ter garra para persistir. Não vale desistir diante de dificuldades. Tem que tentar de vários jeitos diferentes, até acertar. Amor é um eterno vício de autoconhecimento. Um eterno vício de si próprio. 

Também, por ser uma escolha, ele pode não ser eterno. Nossas escolhas mudam durante o decorrer da nossa vida. E aí escolhemos outras pessoas para amar. Sem significar que alguém foi mais amado que outro, sem significar que um novo amor é pior ou melhor que o outro. Simplesmente mudamos, só isso. Escolhemos outros caminhos.

Deve ser por essa razão que muita gente não consegue amar ninguém. Encanta-se pela beleza, pela magia do encontro, mas não consegue amar. Enebria-se pela novidade, mas não consegue ultrapassar a linha da superficialidade. Porque só é possível amar quando se tem desejos na vida. Se nada se deseja, como então amar alguém? Se nada se deseja, inevitável é o tédio após o fim dos jogos da conquista. Pois além desse limite, nada mais existe.

Amar é apenas ter escolhido, dentre tantas pessoas, aquela com a qual podemos sonhar e realizar nossos sonhos.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Poeminha



O medo vem. E passa.

A saudade vem. E passa.
A dor vem. E passa.
É só esperar um pouquinho.
Dizer a si mesmo, com carinho
Não machuque, não bata
Não destrua.
Daqui a pouco passa.
Continue vivendo, devagarinho, sem pressa.
Um dia, de tanto virem e irem
O medo, a saudade, a dor
Eles desistem de nos visitar.
Fique quietinho.
Não faça estragos.
Daqui a pouco passa.
Que o que vai ficar é só o que lhe faz bem.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

2012, o ano do fim do mundo



  2012 foi um ano estranho. Ano do fim do mundo, ano em que logo de cara perdi meu Fidelzinho.  Ano em que ganhei o pequeno Che, para logo depois perder. Ano que iniciou um ciclo de sustos que meu pai nos deu com sua saúde debilitada. Ano que me apresentou a idéia da morte. Ano também de viver aos trancos um grande amor.

  Ano de muitas mudanças, de muitas idéias, de muitas iniciativas. Escrevi pouco. Estudei pouco. Comecei vários livros, mas foram poucos os terminados. Comecei vários projetos, mas estão todos pendentes. Sonhei vários sonhos, mas estão todos inacabados.

  A sensação que eu tenho é que levei uma surra da vida. Parece que ela resolveu me pegar e dizer: "este ano você vai aprender a lidar com todos os seus monstros, custe o que custar." Tudo bem, vida, dez a zero para você. Você tem razão. 

  Eu ia reclamar de 2012 e torcer para que ele vá embora logo. Chega, cansei. Mas pensei bem e acho que estou sendo injusta com ele. Fora o blá blá blá piegas, já que fiz muitos amigos, fiz viagens deliciosas e me diverti muito também. Mas o que valeu foi a surra.

  A presença constante da morte em minha vida não me ensinou a lidar com perdas, como eu esperava. Mas pelo menos ela me mostrou bem de perto que elas existem, e você precisa viver com isso. Cada perda dói, e como dói, e toda vez que uma nova perda acontecer, a dor vai ser igual. Não vai melhorar, você não vai ser mais equilibrado. A única diferença é que você vai entender melhor a dor do outro. Talvez você consiga ser mais carinhoso e tolerante com as pessoas, e consiga ver tudo sob outra ótica. Talvez você entenda que muitos sentimentos não valem a pena ser vividos. Talvez você entenda o que é, na realidade, perda de tempo.

  Aprendi a amar a minha mãe e seu temperamento difícil. Temperamento difícil como o meu. Entendi sua luta constante e solitária para manter a sua pequena família em pé. Debaixo daquela casca dura e que parece incapaz de expressar sentimentos há uma mulher muito forte e movida a amor. Aprendi que ela só não sabe expressar direito esse amor. Assim como eu. 

  Aprendi também que quando nutrimos sentimentos ruins, é nossa alma que padece. A mágoa, o orgulho, o medo, só nos paralisam. As pessoas nos magoam e nos ferem, às vezes sem querer, e às vezes querendo. Mas não conseguir perdoar, quando na realidade queremos perdoar, nos acorrenta e aprisiona. Nos impede de viver aquilo que queríamos viver. Lembro-me da minha primeira travessia de natação numa represa. O medo me paralisou de tal forma que não consegui nadar. A respiração travou, o cérebro simplesmente não mandava mensagem alguma ao corpo. Até que um dos organizadores veio e nadou ao meu lado. Ah, a sensação de vencer o medo foi inebriante. O prazer de deixá-lo para trás e conseguir nadar foi inesquecível.

  Essa foi a lição que 2012 deixou para mim. Não deixar de viver os meus sonhos por conta do medo. Esquecer o que paralisa. Entender que as pessoas ferem, mas se você as ama, não vale a pena deixar de desfrutá-las por conta disso. Elas não são perfeitas, assim como eu não sou. Elas sofrem e temem, assim como eu. 

  Venha 2013. Não faço planos, porque gosto mesmo é do improviso. Meus planos acabam nunca dando certo, tomam outros rumos e no fim tudo sempre dá mais certo do que eu imaginava.  Gosto mesmo é de sonhar,  e sonho com um 2013 cheio de realizações. De finalizações. Sonho com um ano tranquilo, acho que minha adolescência  prolongada finalmente chegou ao fim. 

  E obrigada 2012. Obrigada por colocar os meus medos todos no meu nariz, o tempo todo. Agora finalmente posso dizer adeus a eles. Foi realmente o ano do fim de um mundo.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Sobre sapos e príncipes


    Hoje o blog faz 2 anos. E lá fui eu dar uma olhadinha no meu primeiro texto, saudosista que sou. Chama-se "Príncipes Encantados não existem". Lembro-me do dia em que escrevi o texto, do dia em que abri o blog e lhe dei o nome. E lembro exatamente do que sentia nesse dia.

    Havia em mim um certo sentimento de revolta: mas que mania as meninas têm de buscar o homem perfeito, ora bolas. Tem que ser mais velho, mais bem sucedido, mais decidido, mais forte, mais estruturado emocionalmente. Praticamente um tutor, alguém que nos protegerá e saberá o que fazer em todas as horas. E de quebra, ainda por cima bonito, alto e cheiroso.

    Aparentemente, alguns homens preenchem esse modelo sim. É em cima deles que todas as mocinhas caem de amores desesperadas, à procura de salvação. Eu nunca me encantei por esses tipos. Nunca acreditei muito neles. Ou talvez tivesse mesmo é medo da concorrência, já que nunca confiei muito no meu poder de sedução, afinal de contas.

   A verdade é que sempre me apaixonei pelos sapos. Os tímidos, os escondidos, aqueles pelos quais ninguém moveria mundos. Mas que mostram aquilo que é privilégio de poucas, muito poucas. Com o decorrer do tempo e com a paciência e sensibilidade necessárias. 

    O problema dos sapos é que eles não salvam você das suas confusões, seus dramas, seus conflitos. Não têm aquela maturidade infinita das histórias dos contos de fada, dos bests sellers, dos filmes hollywoodianos. Eles não são resolvidos, então não espere que resolvam nada para você. E o diabo é que dentro de toda mulher, mesmo desta aqui que vos fala, ainda mora uma Cinderela indefesa querendo ser salva de todos os perigos através de um amor romanesco. 

    É preciso ser muito mulher para amar um sapo. É preciso cuidar mais que ser cuidada. É preciso entender mais que ser entendida. É preciso seduzir mais que ser seduzida. É preciso doar e não esperar receber. É preciso ser estável mesmo durante a TPM. Difícil pra caramba. Difícil e dolorido.

    Qual a vantagem disso então, você deve estar se perguntando. Eu diria que não há vantagem, há uma escolha. Amar um sapo é descobrir aos poucos o que os olhos desatentos não enxergam. É semear um carinho que será recebido da forma mais inesperada, no momento em que menos se espera. É livrar-se de preconceitos e de dogmas que foram incutidos em nossas mentes e nossos corações, quando ainda éramos pequeninas. É amadurecer fazendo o outro amadurecer. É construir um relacionamento único, porque difícil. Difícil porque não é fácil livrar-nos dos papéis que nos foram impostos e não estamos dispostos a cumprir. 

    Louis Lane perto de Clark Kent é uma jornalista forte e decidida. Perto do Super-Homem torna-se uma mocinha frágil e histérica. Super-Homem é de mentira, só sobrevive à base de criptonita. Clark Kent é de verdade. Louis Lane jornalista é real e feliz. Louis Lane mocinha em perigo desempenha um papel determinado há séculos e perde a sua essência.

    O mesmo sapo que inspirou este texto inspirou o nascimento deste blog. Me fez crescer nestes dois anos, enfrentando o conflito diário entre o desejo de ser princesa e o de ser uma mulher como Pilar Del Río. O conflito de amar o Clark Kent e sonhar com o Super-Homem. É, eu sei que ele não queria ser sapo. Acha que eu sonho com o dia em que ele virará príncipe. O que ele não sabe é que jamais seria meu herói e jamais transformaria tanto a minha vida se fosse, simplesmente, um príncipe.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Entre tapas e beijos


   Amor não é paixão. Paixão não é amor. Amor pode existir sem paixão, paixão pode existir sem amor. 

   Paixão não é vestibular do amor. Paixão é paixão, existe e pronto. Pode ser que o amor venha depois, pode ser que não. Pode ser que o amor surja ao mesmo tempo, mas aí ninguém percebe porque a paixão ofusca tudo.  E pode ainda ser que o amor venha antes.

    A paixão é uma madame escandalosa, o amor é um senhor muito discreto.

   Paixão faz as pernas tremerem, amor finca os pés no chão. Paixão faz o pulso acelerar, amor faz a gente sentir um calor no coração. Paixão dá falta de ar, amor faz a respiração ficar tranquila. Paixão tira o sono, amor dá vontade de dormir de conchinha. Paixão é desejo, amor é satisfação. Paixão dá um medo desesperado de perder, amor dá uma sensação boa de ter. Paixão é emocionante, amor é gratificante.

    Paixão não é menos que amor. Nos faz sentir vivos. E amor não é menos que paixão. Amor nos faz vivos. 

   Parecem tão diferentes, e ao mesmo tempo são tão gêmeos. Um quer excluir o outro, mas na realidade adoram mesmo é caminhar de mãos dadas. 

    Normal é sentir paixão primeiro, e depois descobrir o amor. Porque a paixão nasce de um olhar, de um gosto, de uma frase especial, de um não sei o quê que encanta. Encanta e nos faz sonhar. Já o amor nasce do conhecer, do conviver, do gostar de estar junto, do querer mais do que querer, do querer bem. Amor é um querer bem sem fim, paixão é um querer sem fim. Mas não é porque é normal que vai ser assim com todo o mundo.
   
    Bom demais sentir paixão sem amor. Bom também sentir amor sem paixão. Mas sentir amor com paixão, ou paixão com amor é um golpe de sorte… ou de azar. Porque aí você vai desejar loucamente num dia, mas no outro vai querer só ficar quietinho, comendo bolo de fubá e assistindo televisão. Vai fazer loucuras numa noite, para acordar na manhã seguinte com aquele pijama velho e nem se importar com isso.  Vai fazer um jantar especial cheio de velas e almoçar miojo no dia seguinte.

     Pois é, meu amigo. Vai ser difícil explicar para a madame escandalosa que ela finalmente virou uma senhora muito respeitável. E para aquele senhor discreto que ele vai ter que perder a timidez e dançar a macarena de vez em quando. E que eles vão assim viver juntos, dominando e sendo dominados. 

    E que, sem perceber, nessa disputa podem não perceber o tempo passando, e então se perder para toda a eternidade.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Colorindo


         

          Gosto de fazer pequenas reformas na minha casa, de vez em quando. Não aquelas reformas em que paredes são destruídas, os pisos são trocados, novos cômodos vão surgindo, outros vão desaparecendo. Gosto de fazer pequenas mudanças. Uma corzinha nova aqui, alguns enfeites novos ali, flores em algum lugar inesperado, talvez algumas mantas ou almofadas novas.

         Parecem mudanças insignificantes, mas não são. São pequenas, mas provocam necessidade de adaptação. Provocam estranheza, sensações novas, um calorzinho no coração quando se abre a porta.

         Essa minha vontade surge normalmente quando tudo está há tanto tempo tão acomodado, que entro em casa e nem percebo mais os detalhes. É tudo tão conhecido, tão previsível, que nem enxergo mais nada. Sequer percebo aquela estatueta que comprei naquela viagem deliciosa e que antes me trazia tão boas recordações.

         Com pequenas alterações, tudo parece novo, e os detalhes surgem novamente. O antigo conforto desaparece, para dar lugar à nossa necessidade de adaptação. E então, parece que o brilho das coisas surge de novo.

         E não é que a vida da gente é assim também? Às vezes temos a sensação de que não estamos vivendo nada de bom, que tudo está muito monótono. Não conseguimos mais enxergar o que conquistamos, o que temos ao nosso redor, e o quanto temos de bonito. Não valorizamos nem quem está ao nosso lado.

         E nessa hora tem gente que resolve destruir tudo, para recomeçar. E outros que preferem se adaptar à monotonia, e viver uma vida morna.

         Pois eu não gosto de nenhum dos extremos. A monotonia é a morte, e acho que destruir tudo só vale a pena quando está realmente ruim, não tem mais conserto. Se está bom, para que destruir? Muitos perdem a chance de desfrutar o que conseguiram, só porque não percebem que às vezes pequenas mudanças são suficientes para colorir tudo de novo.

         Então, penso que antes de reclamar da chatice da nossa vida, o ideal seria fazer pequenas alterações na rotina. O trabalho está chato? Experimente fazer as coisas de modo diferente. As reuniões com os amigos parecem um emprego? Experimente sugerir um passeio inusitado. O relacionamento não tem mais fogo? Experimente sair do sofá e descobrir um hobby novo, uma atividade desafiadora para ser feita a dois.

         Vida boa é vida assim, colorida, com desafios e com paixões. 

        Mas vida muito boa é vida na qual escolhemos nossas cores, os desafios que queremos e as paixões que desejamos.