quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Valsinha

         
Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito
de sempre chegar
olhou-a de um jeito muito mais quente
do que sempre costumava olhar

        Estava voltando para casa numa madrugada, quando a minha amiga Priscila viu um casal dançando no ponto de ônibus. Achou bonitinho. Já que tinham que esperar o ônibus, resolveram se divertir.

            Imediatamente me veio à cabeça a canção "Valsinha", do Chico Buarque. Chico sempre me emociona, em diferentes momentos da vida e por diversas razões. Pode não ser um grande cantor, mas interpreta com tanto sentimento seus versos que esquecemos que ele não é lá muito afinado. E com aqueles tímidos olhos verdes, para que ser afinado, oras bolas.

            Valsinha conta a história de um casal já desgastado pelo cotidiano e suas dificuldades. Um dia, o marido resolve chegar diferente. Olha para sua esposa com olhos de homem, e não de marido. Esse simples olhar faz com que ela se sinta mulher de novo, desejada. E a convida para passear, sem falar das suas agruras diárias.  A canção vai crescendo, e junto com ela a mulher, que resolve se fazer bonita para o seu homem, já que finalmente vai ser olhada. Renasce. E saem para passear, começam a dançar, trocam carinhos apaixonados, e ficam mais bonitos, e enxergam tudo mais bonito, e tornam tudo ao seu redor mais bonito.

            A canção termina e você se sente feliz. Começa a achar tudo ao seu redor mais bonito também. E tem vontade de dizer palavras lindas para quem você ama. Ou, se não ama ninguém, acaba ficando com vontade de amar.

            Amor torna tudo mais bonito. Tantas vezes ficamos afogados em nossos próprios problemas, sem achar solução, nos sentindo infelizes, quando na realidade basta olhar para quem está ao nosso lado. E que também está se sentindo afogado em seus próprios problemas e se sentindo sozinho, tanto como nós mesmos. Uma palavra bonita, um gesto de carinho e de doação, esquecer um pouco de si próprio e provocar um sorriso no outro têm um efeito muito mais que terapêutico. Uma alegria provocada em alguém expulsa a sua própria tristeza. E sua alegria vai contagiando todos ao seu redor. E a única coisa que você fez foi sair do seu mundinho e olhar para o outro ao seu lado.

            Funciona com amigos, com o trabalho e principalmente no amor. Sair de si próprio, olhar e desejar. Olhar e sentir as necessidades. Olhar e escutar. Olhar e falar. Olhar e tolerar, entender. Olhar, olhar sempre. Olhar e se permitir ser olhado. Não existe amor entre pessoas que não se olham.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

É só amor, nada demais...

           Se tem uma coisa que a gente não escolhe na vida, é quem a gente ama. Podemos escolher nossa profissão, onde vamos morar, nossos amigos, o estado de alegria ou de tristeza, mas não quem a gente ama. Podemos até escolher quem a gente quer ao nosso lado, compartilhando nossa vida, e podemos até dizer que isso é amor, e chegar mesmo a acreditar nisso. Podemos até agir como quem ama, mas ainda assim vai ser muito diferente daquilo que se sente por quem a gente realmente ama.

            A gente pode amar a pessoa mais errada do mundo, e sabe disso. Mas a gente continua amando. A gente sabe de todos aqueles defeitos, de todas aquelas fraquezas, sabe e enxerga, mentira quem diz que o amor é cego. O amor não é cego não, ele vê tudo. É que o amor não julga, ele simplesmente ama tudo o que vê. É aquele jeitinho diferente de sorrir, um dentinho meio torto, um jeito destrambelhado de andar, aquele tique nervoso, aquela impetuosidade que a todos aborrece, tudo isso que é irritante aos olhos dos outros parece lindo aos olhos de quem ama. E a gente defende o ser amado com todas as nossas forças, mesmo percebendo o quanto ele erra.

            Os moderninhos de plantão adoram estabelecer regras ao amor. Dizem que ele só funciona se você não perder sua individualidade. Dizem para respeitar a liberdade. São tantas regras, é tanto respeito que parece até difícil amar. E se eu sentir saudade e quiser ligar? E se eu estiver carente e precisar de um abraço? E se eu me sentir insegura e quiser chorar? E se eu não gostei do jeito que você me tratou? Não, não pode. Tem que respeitar, tem que agüentar tudo sozinha. Porque é tudo problema meu, e não da outra pessoa. Não se pode importunar o outro com as nossas necessidades, porque afinal de conta ele tem as dele e você não pode ultrapassar limites.

            Só que amar é invadir e querer ser invadido. É querer que a pessoa saiba de todos os detalhes da sua vida. É querer dividir. Na verdade, nem é dividir. Não existe o meu e o seu quando se ama. Não se imagina provar algo sozinho, não se imagina que aquele sabor especial não possa ser sentido também por quem se ama. Tudo o que se experimenta, tudo o que se sente, cada alegria, não se consegue imaginar que o outro não sinta também.

            Parece absurdo? Pois é sim. Ou melhor, é amor. Amar muda a gente. Quem ama faz coisas que  jamais imaginaria fazer por alguém. Aquele ser tão egoísta, de repente passa a cuidar e acarinhar. A pessoa avessa a carinho, passa a passear de mãos dadas e querer ficar abraçadinha. O não romântico passa a dizer palavras bonitas e enviar flores. Quem ama esquece toda a carcaça que construiu para si próprio, perde todas as defesas. Parece insano, não? Mas não é não.

            O problema é que, quem vai despertar tudo isso na gente, não é questão de escolha. Mas é questão de escolha querer viver isso tudo. Sério, você não precisa viver esse tipo de coisa. Não vai ser mais ou menos feliz por causa disso. Nem melhor ou pior que alguém. Afinal de contas, é só amor. Não é nada demais.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Apaixone-se!

         

        O apaixonado é um injustiçado. Criou-se para ele a imagem de um ser etéreo, desligado, totalmente alheio a qualquer outra coisa que não seja o objeto de sua paixão. O apaixonado tem fama de improdutivo, de um ser com o qual não se pode contar, pelo menos enquanto ele estiver nessa fase assim, digamos, "anestesiada".

         Pois acredito que estar apaixonado não é, de forma alguma, estar em algum estado distante da realidade. Muito pelo contrário. O apaixonado é o ser mais focado do mundo. Ele direciona todas as suas forças ao objeto de sua paixão, e todos os seus atos se voltam para bem realizar aquilo que ele deseja.

        Talvez a confusão aconteça porque, quando dizemos paixão, a primeira coisa que vem à cabeça das pessoas é o amor romântico. Mas existem tantas outras paixões… Paixão por um ideal, por um esporte, por um trabalho, por uma vocação, por um talento, por um país, um lugar … até por dinheiro, por que não? São as paixões que nos movem. E tanto mais nos movemos quanto maior for a nossa capacidade de nos apaixonar. É incrível pensar que aquilo que fazemos por paixão tira do nosso corpo a preguiça, a tristeza, o desânimo. Mais incrível ainda a sensação de ver realizado aquilo em que tanto nos empenhamos, com a emoção. Mesmo que aquilo não tenha aparentemente utilidade alguma. Digo aparentemente, porque sempre tem uma utilidade. Ainda que essa utilidade seja unicamente proporcionar a sua própria alegria.

        Mesmo a paixão romântica é produtiva. Quem está apaixonado por alguém se empenha em dar o melhor de si. Quer ficar mais bonito, mais inteligente, mais gentil. Descobre que pode ser uma pessoa melhor. Aliás, quer ser uma pessoa melhor para impressionar a sua paixão. Ok, para quem olha de fora um casal de apaixonados é às vezes um pouco irritante. Mas é só porque nos sentimos excluídos de tanta felicidade. Somos invejosos, isso sim.

        Tem gente que não se apaixona por nada, e fico pensando o porquê. Talvez seja o mesmo motivo pelo qual tem gente que não consegue se apaixonar por ninguém. O medo. Apaixonar envolve o risco de se expor ao ridículo, de falhar, de errar, de ser criticado, de se decepcionar. Então parece mais cômodo ficar quietinho no seu canto, vivendo sem se mexer, sem sofrer e sem euforia. Só vendo o tempo passar. Assim não se erra, afinal de contas. Assim apenas se observa.

        O apaixonado é mesmo ridículo. Fala bobagens, faz bobagens. O tempo todo. Mas é que ele faz muito. O apaixonado é tão eufórico que tem idéias e mais idéias. E é lógico que metade delas cai por terra. Mas tem a outra metade que dá certo, sim. Só que o apaixonado é tão exagerado que dá a impressão de que só acontece o errado. E todo mundo ri e critica o apaixonado. Mas quer saber? Ele não está nem aí. A alegria de um apaixonado é algo que só outro apaixonado compreende.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Feliz Dia dos Homens!

        O dia está quase finalizando, mas ainda dá tempo de eu deixar aqui a minha homenagem a esses seres tão discriminados e incompreendidos, os homens. Quando acordei vi os primeiros registros virtuais a respeito do tema e não dei muita importância, mas afinal nunca dou mesmo importância a esses dias especiais. Mas, nesse caso, o que era indiferença foi tornando-se uma diversão.

        Os primeiros testemunhos na internet foram tímidos, de estranheza: como assim, hoje é Dia do Homem? Aos poucos, as pessoas foram assimilando a idéia e surgindo os primeiros parabéns. Mas esses parabéns, poucos assimilados ainda, tornaram-se, mais tarde, chacota. Homens lindíssimos, abdomens tanquinho…. para então passar para a chutação de balde geral, que foi a divertidíssima frase que circulou pelo Twitter e Facebook mais  ou menos assim: Parabéns aos homens de verdade; aos moleques, aguardem o Dia das Crianças!

        Depois de um irreverente protesto masculino, que dizia assim: "Já pensou eu vir aqui e dizer: parabéns a todas as mulheres maravilhosas, mas as cachorras que esperem o dia de vacinação.", comecei a pensar como realmente deve viver em crise constante o homem moderno. Nós mulheres nem conseguimos admitir que eles possam ter um dia só deles! Exigimos nossas homenagens, mas nos recusamos a prestá-las, ou prestamos somente àqueles que achamos que merecem!

        Vejam só a dificuldade, meninas. Se eles atacam, são invasivos. Se esperam o ataque, são frouxos. Se eles não se arrumam, se depilam, malham e não são cheirosos, são ogros. Se fazem tudo isso, são metrossexuais. Se ficam em rodinhas para discutir futebol e falar de mulheres com os amigos, são machistas. Se andam demais com meninas e são sensíveis, adoram filmes de arte, acabam virando o irmãozinho, o amigo gay. Se são prestativos e cuidadosos, tratamos como escravos. Se não fazem nada por nós, tachamos de homem das cavernas. Caramba, como eles vão entender como devem se comportar?

        Bem queridos, em nome da classe feminina eu não vou entregar a resposta de bandeja para vocês. Mesmo porque creio que nem temos a resposta exata. Somos instáveis mesmo, e desde que o movimento feminista e os meios de comunicação nos deram canais de manifestação, resolvemos colocar todos os nossos sentimentos para fora. E somos como o mar, com vários humores num só dia. Mas quero deixar registrado que amamos vocês sim. Amamos o menino que existe em vocês, porque a natureza colocou em toda mulher, por menor que seja, um tantinho assim de instinto maternal. E suspiramos pelo Super-Homem, mas é o Clark Kent que nos enternece. E reclamamos por reclamar, porque se elogiamos demais vocês, vocês se acomodam. E nem tentem ser perfeitos conosco, porque toda perfeição é enjoativa, já que nunca é verdadeira. E é tudo tão mais simples do que parece ser, incluindo nós mulheres.

        Enfim, minhas sinceras homenagens a vocês, queridos homens. Por existirem assim como são, tão diferentes de nós. E que vocês continuem matando baratas por nós através dos séculos, por favor.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Sonhos da meia-noite

           
            Assisti "Midnight in Paris", de Woody Allen, pela segunda vez, e saí do cinema com a mesma sensação boa que tive na primeira. Dizer que Paris é um sonho é clichê, mas ora bolas, Paris é mesmo uma cidade onde se tem vontade de sonhar. Não é à toa que é a cidade preferida de escritores, pintores, músicos. E o herói da história, Gil Pender, também é o mais clichê dos sonhadores, quase infantil, mas como ele nos torna felizes! Gil é um escritor de roteiros hollywoodianos doce, ingênuo, e sonha com a beleza de um tempo onde a arte, a liberdade e a transgressão floresciam por todos os cantos. Só que ele mesmo não consegue tirar os pés do chão, o que acaba travando a sua escrita e por consequência, a sua vida. Afinal, voar é um tanto quanto perigoso, e tão mais fácil escrever roteiros de fácil aceitação pelo público, que por sua vez também adora o divertimento previsível e efêmero…

        Em seus devaneios, conhece os artistas da Paris dos anos 20 tal e qual seriam em sua imaginação. Livres, espontâneos, sem rédeas, autênticos. Totalmente desprendidos das conseqüências de seus atos e dispostos a viver profundamente todas e quaisquer sensações que a vida pode proporcionar, sem qualquer medo. Aliás, essa é a função da arte, não? Mostrar que é possível ir além do que parece real. É a vida tal e qual Gil adoraria que fosse.

        Gil é apaixonante porque é um pouquinho de todos nós. Quantas coisas não gostaríamos de fazer, quantos sonhos não gostaríamos de viver e não vivemos, apenas por medo de tirar os pés do chão? Por ter medo das conseqüências, acabamos nos adaptando àquilo que é palpável e aparentemente seguro. O seguro nos parece confortável, e por isso não nos desprendemos daquele caminho que já foi percorrido tantas vezes por outras pessoas, sem nos dar conta de que o caminho talvez nem seja agradável.

        O filme é uma apologia ao prazer e à liberdade, e por isso é inevitável sair do cinema com um sorriso no rosto. Viver é simples, não é necessário tanto planejamento. As coisas se ajeitam se você permitir que elas aconteçam, embora todos pensem que o ideal é ter controle sobre as situações. Como controlar a nossa vida, que é  algo que simplesmente não conhecemos, e estamos vivendo pela primeira vez? A vida é feita de primeiras vezes, e penso que quanto mais primeiras vezes nos permitirmos sentir, tanto mais da vida será vivida.

        Simples, muito simples. Basta deixar acontecer e aprender o que fazer com isso. E sonhar. Sonhadores conseguem ir muito além de quaisquer limites

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Eu tenho medo sim


         Hoje eu senti medo. Fui andar de bicicleta e empaquei na brincadeira de descer em barrancos e escadas. Chegava na beirada, e não conseguia. Juro que não é frescura, é pânico mesmo. Medo de sei lá o que, só sei que chegava até a boca da descida e algum tipo de pensamento me impedia de descer. O pior é que as descidas eram pequenas, o risco de se machucar era mínimo, e mesmo assim… nada.
 
        O engraçado é que eu sempre me qualifico como intensa. Depois fiquei pensando, como uma pessoa tão medrosa pode ser intensa? A pessoa intensa se entrega totalmente às sensações, sem qualquer medo, sem qualquer racionalização. Simplesmente vive. Eu não. Quero sentir, paro e penso mas não consigo ir.

        O que é o medo? Medo é instinto de autopreservação, de não se arriscar naquilo que não se conhece, justamente para não se machucar. O medo paralisa. O medo nos torna agressivos, porque é sempre irritante você querer algo e não conseguir fazer. As pessoas reagem de maneira diferente ao medo. Algumas se acomodam à segurança e simplesmente menosprezam aquilo que não conseguem fazer, dizendo que é desnecessário, que são felizes com aquilo que já conhecem e pronto. Outras querem testar seus limites, o tempo todo, o que causa certa insatisfação, porque viver sendo desafiado realmente é um pouco cansativo.

        Para dizer a verdade, já nem sei mais em qual categoria me enquadro. Sei apenas que sou muito, mas muito medrosa, embora não aparente. Mesmo assim, gosto de ser confrontada com o medo. Ele me coloca diante de mim mesma. Parece que, quando sinto medo, surge outra de mim dizendo quem sou. Mostrando as minhas limitações, me despindo da minha arrogância. Veja só garota, você não é tão poderosa quanto pensa, olha só quanta coisa você não consegue fazer, você precisa da ajuda de outras pessoas.

        A sensação de vencer um medo também é única. Significa fazer algo que você não conseguia fazer, significa que mais uma possibilidade na sua vida foi aberta. Sim, porque ao nos aventurarmos por um caminho antes impossível para nós, o mundo fica um pouco maior. E você consegue enxergar outros caminhos para percorrer, caminhos que antes nem existiam no seu campo de visão, já que a partir do círculo em que estávamos não era possível vê-los.

        E quanto ao meu medo de hoje? Bem, desci alguns barrancos e uma escada simples, depois de várias tentativas. E estou contente, apesar de poder ter feito ainda mais. Mas posso dizer que a portinha que abri hoje, a duras penas, já me mostrou várias outras maneiras de enxergar o mundo. Ando devagar, mas ainda chego lá.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Cão que ladra não morde

       
       Todo ser humano é mau. É isso mesmo, não adianta fazer-se de desentendido e dizer que é bonzinho, porque nascemos maus. Basta observar uma criança. Quanto mais nova, mais maldosa ela consegue ser. Maltrata animais, quer tudo para si própria, nem se importa com o resto do mundo. E tanto é assim que chegamos a nos espantar quando uma criança nova comete um ato de bondade, como dividir um brinquedo ou uma gostosura qualquer. Vamos lá, se isso fosse natural, não ficaríamos tão espantados, não é mesmo?

        Crescemos e aprendemos que, se formos maus o tempo todo, ninguém vai gostar de nós. E como não queremos ficar sozinhos, vamos controlando nossa maldade até nos tornamos… civilizados!

        Bom, confesso que fracassei nesse estágio de evolução. Não consigo esconder minha maldade e vestir a fantasia da civilidade, o que me causa inúmeros problemas. E sabe qual o maior deles? Não saber economizar minhas doses de maldade para utilizar nas horas certas. Sim, é isso mesmo, como um filho pródigo, vou desperdiçando meu potencial em pequenas doses, a ponto de não encontrar a medida necessária quando preciso.

        De fato, minha revolta e indignação comigo própria e minha prodigalidade têm um motivo. Meu IPhone foi furtado na esteira de segurança do aeroporto de New Castle. Isso mesmo, naquela hora em que somos revistados e revirados por seguranças com ares de seriedade. E o que essa pessoa aqui com fama de má fez nessa hora? Gritou, esperneou, rodou a baiana e mostrou a que veio? Não, nada disso. Com uma civilidade inglesa e uma paciência nipônica, dispôs-se a conversar calmamente com a segurança, assistir ao vídeo inutilmente, esperar a polícia (não) chegar para fazer a ocorrência, até quase perder o vôo…. E embarcar no último segundo, sem o amado IPhone! IPhone 4, diga-se de passagem!

        Por que isso aconteceu? Não faço a mínima idéia. Não sou tímida, sou estouradinha e não teria problema algum em fazer um show. Mas essa hipótese nem passou pela minha cabeça, inclusive até agora não consigo me imaginar fazendo isso por conta de um objeto, mesmo sendo meu IPhone. E hoje mesmo sofri algumas agressões típicas da neurose urbana e de verdade só consegui enxergar o lado antropológico da coisa. Passei o dia pensando no motivo dessa calma toda e só consegui descobrir este: de tanto gastar minha malvadeza assim que ela surge não tenho energia para direcioná-la nos momentos certos. Sim, cão que ladra não morde. Perigo mesmo está em quem guarda direitinho um estoque imenso.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Eu tô voltando pra casa!


       Minha viagem está chegando ao fim. Já são quase vinte dias sem qualquer rotina, em um ritmo frenético. O curioso disso é que o que aconteceu há duas semanas parece já tão distante, tamanho o número de acontecimentos que se sucederam nestes dias todos.

       Daí me peguei pensando que a nossa vida só passa muito rápido quando não prestamos atenção nela. Quem viaja não quer perder detalhes, observa tudo e todos. A beleza de um edifício, de uma esquina, uma pedra especial, uma árvore curiosa, uma flor mais colorida, escutar com atenção um amigo conhecido ou uma pessoa que acabamos de conhecer, tentar se comunicar com o funcionário de um metrô, o garçom, o dono de um estabelecimento qualquer.... quantas vezes realmente nos interessamos pelo que está acontecendo à nossa volta, em nosso dia-a-dia? Quanto perdemos por não valorizarmos o que acontece à nossa volta, repetindo apenas aquilo a que estamos acostumados?

       Meu trecho Inglaterra/Escócia foi renovador. Começando pelo meu inglês, que acreditava ser bom, e descobri que é muito ruim diante do sotaque britânico. Passando pela mão inglesa, que quase deu pane no meu cérebro. As paisagens vitorianas e medievais, o modo polido e o sorriso atencioso dos ingleses e escoceses do interior. Pelos cuidados do Ale, que me recebeu em sua casa, e dos seus amigos Harsha e Sarah, pessoas tão doces e especiais, que me mostraram como é possível ter a sensação de família mesmo longe de casa.

     A França, bem... é a minha paixão. Franceses são sempre tão charmosos, em qualquer situação. Nunca subservientes, cada francês carrega a dignidade de liberdade, igualdade e fraternidade propagada pela Revolução Burguesa. Vi as meninas de um dos hotéis em que fiquei limparem as janelas com echarpe no pescoço e salto alto, maquiadas. Adoro esse brilho que nada nem ninguém apaga, essa independência que cada um deles carrega dentro de si. Franceses são como gatos, nunca serão dominados nem amestrados. Não cumprem ordens, fazem aquilo que deve ser feito e pronto.

     Estou ainda vivenciando Portugal. E procurando uma palavra para descrever este lugar. Mesma língua, país que deveria manter identidade conosco, já que é nossa mãe. Ou pai? Mas não consigo estabelecer a identidade entre nós, é tudo tão diferente, somos filhos rebeldes e desgarrados. Há lirismo e uma certa melancolia por todos os cantos, meu amigo Fábio diz que é culpa do fado. O fado é uma música que faz doer o coração. E acho que os portugueses são meio assim, vivem carregando uma certa tristeza e uma saudade que não tem motivo, ela só é inerente a todo ser humano, mas eles vivenciam tais sentimentos como algo muito natural.

     A vontade é de continuar, mas sinto já um certo cansaço. E saudade de quem ficou, principalmente. Meus olhos estão cheios de paisagens deslumbrantes, e meu coração de pequenas lições de vida dadas por cada um que cruzou o meu caminho. Só que para continuar a vivenciar essas sensações preciso da minha rotina. Um tempinho  para valorizar o que foi vivido. E aprender a colorir a minha vidinha, com tudo que eu estou trazendo na minha bagagem de volta.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

E vamos viajar!

           
             Estou de malas prontas de novo, vou viajar, uma das coisas que mais gosto de fazer. Engraçado que gosto muito mas também tem um lado meu que não gosta tanto assim. Viajar é bom, mas dá medo, dá saudade. Dá medo de enfrentar situações novas, totalmente diferentes do cotidiano. E dá saudade da nossa casa, da nossa família, dos nossos amigos, da nossa rotina…

            Mas não por acaso é exatamente esse o prazer de viajar. O prazer de enfrentar situações novas, conhecer lugares novos e pessoas novas. Sair da nossa zona de conforto, onde tudo já está estabelecido e onde reinamos absolutos. Presos no castelo que construímos para nós mesmos, sem nos dar conta dos erros e dos vícios que cultivamos, diuturnamente. Na injustiça que cometemos com quem amamos e com que nos ama. Perceber as inúmeras possibilidades que a vida nos oferece, de tanto que estamos acostumados com aquilo que criamos e acreditamos ser correto. Afinal, é tão fácil viver sabendo o que vai acontecer, é tão fácil sentir-se no controle de tudo e de todos.

            Essa sensação de controle é meramente ilusória. Na verdade, somos nós que, sem perceber, estamos sendo controlados pela rotina e pela acomodação. Repetimos, repetimos e repetimos, e nem percebemos o quanto deixamos de viver ao não olhar o mundo lá fora.

            E viajar não é só fazer as malas e mudar de lugar. Viajar é um estado de espírito. Tem gente que viaja mas não sai do lugar. Que viaja e continua presa ao próprio mundo, que por medo  não se solta, não se abre ao desconhecido. Vai, volta e continua o mesmo.

            Por esse mesmo motivo, também é possível viajar sem sair da nossa cidade, da nossa casa. É um pouco mais difícil, mas não é impossível. É só fazer algo diferente do que estamos acostumados. Ver um tipo de filme que nunca vimos, ir a um lugar que nunca fomos, comer algo que pensamos que não gostamos, conhecer pessoas sem preconceito, cultivar amigos novos sem descuidar dos antigos, abrir o coração para o que é novo, tentar experiências novas, não se viciar naquilo que parece confortável. Ouvir opiniões diferentes, questionar o que nos é dito, aprender a gostar do que nos parece estranho a princípio. E assim descobrimos que viver é sair um pouco de si mesmo, para depois voltar. Voltar com carinho, cheio de presentes novos, aqueles que o mundo e as pessoas podem nos oferecer e constroem dentro de nós um cantinho cada vez mais especial.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

A garota da capa vermelha


        Fui assistir ao filme "A garota da capa vermelha" decididamente contrariada. A sinopse dizia assim: versão Crepuscular da história de Chapeuzinho Vermelho. Nossa! Mais uma dessas baboseiras adolescentes em que a linda mocinha desprotegida, meiga, frágil, e completamente desinteressante é disputada por dois belos exemplares masculinos musculosos e intrépidos dispostos a tudo para conquistá-la e satisfazê-la. Essa idéia me incomoda muito, porque desperta nas garotas um sonho venenoso: o de ser protegida e amparada por um homem forte, que a defende de tudo e de todos. O que é apenas uma ilusão. Um homem que age dessa maneira apenas atende à própria vaidade. Ele não está preocupado com a mocinha, que pode ser qualquer uma, desde que desprotegida o suficiente. Ele está apenas preocupado em afirmar sua masculinidade perante os outros machos.  Um homem de verdade quer uma parceira que se defende sozinha e brilha ao seu lado, e não um bibelô. Um homem de verdade respeita e admira sua mulher. E respeito é tudo o que uma mulher de verdade espera de um homem. E admiração mútua é o combustível de um relacionamento de verdade.

        Enfim, meu feminismo à parte, diante da rinite atacada, da dor de estômago, do mau humor e do tédio que me assolavam, lá fui eu, pior não podia ficar. Fotografia medieval interessante, roteiro totalmente previsível. Duas crianças cheias de afinidade que crescem juntas e inevitavelmente se apaixonam, e está na cara que no final do filme vão ficar juntas. Mas não é que a mocinha me surpreende?

        Sim, ela é linda. Perfeita, ágil, inteligente. Parece que realmente foi dotada de todas as qualidades que uma mulher almeja. Faz parte de um conto de fadas. Mas o que me surpreende nela são pequenos detalhes que a distinguem das demais mocinhas. "Eu sempre tentei ser uma boa menina, mas...", diz ela em sua fala inicial. Ainda criança, ela se dispõe a matar um coelho com as próprias mãos, sob os olhos assustados do companheiro. Mata não por maldade, mas porque tem que ser feito e pronto. Essa sua característica é marcante. O que tem que ser feito será feito. Sem dramas, sem lágrimas, sem autopiedade. Acusada de bruxa, não hesita, admite tudo o que fez, aceita a pena porque tem que ser aceita.

        Sua determinação. Seu amor de criança é Peter, o lenhador pobre e tosco. Em nenhum momento ela hesita, a despeito do bom caratismo, da doçura e do amor de seu prometido, Henry. Não há dúvida, mesmo diante do mais fácil e confortável. Novamente, não há pena ou comiseração. Ela escolheu o seu caminho, pois reconhece em Peter qualidades que só a ela importam, e vai percorrê-lo.  E pronto. Não importa o que pensem ou digam.

        A autoestima é surpreendente. Provocada por Peter, que arruma outra garota para despertar seus ciúmes, ela revida, mas não caindo nos braços de outro homem. Sim, ela não precisa mostrar que é interessante só porque consegue despertar o interesse de outros homens. Tira uma amiga para dançar e o provoca, ela mesma, com toda a sua graça e sensualidade. Ela sabe que é interessante por si só, sem precisar de homem algum do seu lado. Quem precisa da procura para ser valorizada no mercado são as ações da Bolsa de Valores, não mulheres de verdade.

        Enfim, não vá ao cinema buscando uma verdadeira obra-prima. Mas é muito bacana o roteiro adolescente incutir de forma tão sutil valores tão saudáveis às meninas. Creio que Valérie nunca será tão popular como a chatinha e insossa Bella, de Crepúsculo. Bella está mais próxima do inconsciente frágil e acomodado que injetaram em cada uma de nós. Mas é uma sementinha. E afinal, ela conseguiu tirar meu mau humor e me fez sentir que sim, vale a pena ser forte. As coisas também funcionam para as não princesas, embora seu final não seja cor-de-rosa como o delas...