segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Me dá um abraço?

       
           Eu adoro abraçar. Abraçar amigos, família, amores, meus gatinhos, e até almofadas e travesseiros. Não sou assim do tipo carinhoso grudento, daqueles que ficam alisando continuamente,  mesmo porque não tenho paciência para fazer a mesma coisa durante muito tempo, mas adoro esse momento abraço. Aquele momento de sentir o calorzinho do corpo da pessoa, sentir o coração dela batendo, de sentir uma pele respirando da outra. Parece que nesse momento você se entrega, se doa, pede para que confiem em você, dá e recebe aconchego.

        Tem gente que não gosta de abraçar. E tem gente que gosta, mas não aprendeu a abraçar. Eu teria mil histórias para contar a respeito de abraços, mas não posso. Perderia grande parte de meus amigos que, afinal, já devem ficar bastante ressabiados comigo, pois ultimamente qualquer conversa, qualquer fato vivido, corre o risco de virar uma crônica publicada aqui. Mas a verdade é que adoro abraçar quem não sabe abraçar. Adoro dar abraço urso nessas pessoas. Até elas saírem cambaleando, feito meus gatos, que odeiam os meus abraços. Ou fingem que odeiam, pois são gatos e nunca vão demonstrar o quanto adoram ser amados.

        Mas não consigo abraçar quem não gosta de ser abraçado. Sabe quando você está abraçando e a pessoa vai te soltando, bem rápido? Aí eu sinto medo. Medo de rejeição. Medo de incomodar. Acho que ninguém gosta da sensação de ser indesejado. Mas por que será que tem gente que não quer ser abraçada?

        Abraçar é mostrar emoções, simples assim. E não é todo mundo que quer demonstrar emoções a torto e a direito. Já eu nasci com essa necessidade irrefreada de transparência, de mostrar o tempo todo o que eu estou sentindo. Alegria, tristeza, carinho, ódio, decepção, raiva, amor, desespero, angústia, insegurança, qualquer tipo de emoção que você puder imaginar, caso ainda não tenha conseguido entender, você vai perceber no meu rosto, nos meus gestos, nas minhas palavras, nas minhas atitudes. O que, eu sei, às vezes é desesperador para mim e para as pessoas que me cercam.

        Abraçar é ainda um ato de entrega, de vulnerabilidade, de confiança. Quem abraça diz que está ali, pronto para dar e receber carinho, quebrando as fronteiras da individualidade por alguns instantes. Quem abraça com vontade abre aquela porta da alma para o outro ver, permite que a alma diga pro outro vem, pode me visitar.

        Só que às vezes você não consegue abraçar aquela pessoa que você mais ama. E não consegue entender. Abraça todo mundo, menos quem você mais ama no mundo. Por exemplo, eu demorei para conseguir abraçar meus pais. E até hoje eles não aprenderam a me abraçar direito. Filhos de japoneses, para eles amor é algo mais prático, é algo que se demonstra pela presença constante e segura. Todo o resto é supérfluo. Ou talvez eles não queiram que eu veja a alma deles, queiram apenas que eu os veja como fortes, sempre. Não foi de todo ruim.

        E por que eu estou escrevendo tudo isto? Porque escrever para mim é um abraço. Um abraço em quem eu conheço e também em quem eu não conheço. Este turbilhão de emoções ambulantes que sou eu às vezes se embaralha todo na vida real. Aí eu tenho que escrever, para organizar tudo. E acho até que tenho me saído bem. Então é isso. Estão aqui as minhas emoções para você que eu não conheço. E para você que eu conheço, amo e nunca consegui abraçar decentemente, eu peço o seu abraço.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

De mãos dadas


        Eu sempre choro em cerimônias de casamento. Choro porque acho lindo e acredito em casamentos, e as cerimônias, quaisquer que sejam, simbolizam essa união. Está lá para quem quiser ver, a despeito de todo o carnaval e qualquer comércio que se tenha criado sobre essa instituição. Mas calma, acredito em casamentos, e não em príncipes e princesas encantados, e muito menos em foram felizes para sempre, por simples magia, sem qualquer trabalho.

        Gosto da idéia do casamento, seja lá qual for o formato pelo qual ele se manifeste. A idéia de duas pessoas que, dentre tantas no mundo, se encontraram e escolheram uma à outra para viver os seus sonhos, desejos e tristezas, me encanta. Acho essa escolha um ato de extrema coragem que só pode ser tomado com muito amor. Você escolhe que é aquele alguém que vai caminhar com você, de mãos dadas. Outras tantas pessoas vão surgir pelo caminho, mas é naquelas mãos que você segura. Em algumas horas segura para apoiar, em outras segura para se apoiar. Segura porque confia. Segura porque sabe que vocês querem chegar ao mesmo lugar, mesmo que em alguns momentos vocês tenham que desviar um pouco do caminho. Aí vocês se soltam, sem medo, porque, em algum momento, os caminhos vão voltar a se encontrar, e vocês poderão continuar andando de mãos dadas. Não há pressa em chegar, e nenhum dos dois pensa em chegar antes do outro. O bacana é o caminhar de mãos dadas, o bacana é chegar onde se pretende juntos. Ou então não ficar triste se não conseguirem chegar. O que importa mesmo são as mãos dadas.

        Casamento para mim é isso, andar de mãos dadas. E isso não implica em morar junto, visitar os familiares nos fins de semana, agüentar churrascos dos amigos de trabalho. Sim, pode até ser isso, se você gostar do pacote tradicional. Mas o pacote tradicional não é necessário para que se viva um casamento.

        Tem gente que pensa que é casado, mas não é. Aí se põe a falar mal de casamento. Diz que casamento destrói o amor. Que nada. Casamento só existe enquanto houver amor. Se você não sente amor, não é casado. Se você não respeita, não admira, não confia e não faz planos com o seu cônjuge, você não é casado. Se você não se sente à vontade para falar o que pensa, de ligar na hora que der vontade, de contar como foi seu dia, de reclamar de Deus e do mundo inteiro num dia ruim, de usar uma camiseta horrorosa e rasgada para assistir televisão, e se a pessoa não tem paciência para tudo isso, você tem um roomate, não está casado. Vocês estão um ao lado do outro, mas não de mãos dadas. Suas mãos apenas se tocam de vez em quando, nos momentos de prazer.

        E é por isso que eu gosto tanto das cerimônias de casamento. Nelas as pessoas tornam pública a sua escolha, nelas as pessoas contam para todo mundo que pretendem caminhar juntas. E isso exige muita coragem. Porque ninguém quer dizer para todo mundo que fez uma escolha, para alguns dias depois desistir dela. Ou melhor, não deveria…. mas isso é outra história, estou ainda no simbolismo. Quem escolhe diz a todo mundo por quem vai lutar, apesar de toda essa dificuldade que é amar. Sim, pois amar não é fácil, exige carinho, foco, e muito trabalho, diário. Como tudo na vida que tem importância, aliás. Ah, e as mãos dadas, sempre.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Como assim, outro filho?

        
       "No ano que vem, eu vou ter mais um filho!". A minha amiga soltou essa frase entre um pedaço de pizza quatro queijos e outro de pizza zucchini, os olhos brilhantes e um sorriso largo. Isso depois de eu relatar animadíssima todos os meus planos para o futuro, planos mirabolantes e aventureiros, convencida de que estava planejando a existência mais interessante do mundo.

        Não sou muito hábil no trato social, e não sei exatamente qual foi a minha expressão quando ouvi a bombástica frase. Confesso que fiquei estarrecida, cheguei a perguntar se foi opção ou se foi sem querer. Puxa, já são duas as crianças, um menino e uma menina, uma graça os dois, já estão crescendo, e não estava bom, o casal já poderia voltar a viver, freqüentar restaurantes, festas, viajar… Como assim, mais um filho???? Cheguei a cometer a indelicadeza de perguntar o porquê dessa decisão, tamanho foi o meu espanto.

        O papo continuou, divertido como sempre, continuamos a dar muitas risadas, aquelas risadas que só a intimidade propicia. Comecei então a contar o quanto qualquer rotina me sufocava, que não conseguia viver sem imaginar alterações e mudanças de rumo na vida, da minha necessidade de conhecer mais e mais coisas, e que achava que gente como eu jamais conseguiria viver a estabilidade de uma vida com filhos. Ela retrucou: "Ah, não existe nada mais emocionante na vida do que ter filhos. Um dia nunca é igual ao outro. São emoções o tempo todo!".

        Pronto. Dois a zero para ela. Parei finalmente para pensar no meu pré-conceito. Na minha cabeça, as pessoas com filhos eram acomodadas que desistiam da própria vida para se realizar em outra. Mas não, que coisa. Ter filho é um ato de muita coragem e aprendizado. É perder-se de si próprio, experimentar um amor tão grande que faz você livrar-se de suas próprias manias e loucuras. Não que filho seja a redenção dos pecados, mas realmente é um constante renovar, uma descoberta emocionante do mundo através de uma outra vida. Relembrar como era simples viver quando ainda não tínhamos vestido nossas duras armaduras.

        Mas calma, não fiquei com vontade de ser mãe por conta dessa conversa. Só gostei ainda mais um pouquinho dela depois disso, mas foi só isso. E gostei porque somos tão diferentes, afinal. Ela é doce, estável, equilibrada. Sempre tem a palavra certa para apaziguar uma tormenta. Já eu sou a própria tormenta. Impulsiva, explosiva. Movimento tudo ao meu redor, não existo para acalmar, existo para balançar o que já existe. Mas no fundo somos tão parecidas… buscamos praticamente as mesmas coisas, só que por caminhos diferentes. E não é essa a graça da amizade? Conseguir ver o mundo através dos olhos do outro, e respeitar e amar. E aprender, muito. Uma delícia essas diferenças.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Tempero!


            Comida é boa quando tem tempero. Até os ingredientes mais deliciosos tornam-se muito mais coloridos e saborosos com os temperos certos, na medida certa. Embora temperos e outros acompanhamentos pareçam muitas vezes supérfluos. Um abacaxi bem doce, por exemplo, é delicioso por si só. Mas experimente grelhar uma fatia, colocar raspas de limão e algumas folhinhas de hortelã. Não fica mais bonito? E se fica mais bonito, não fica também mais saboroso?

            A vida também é assim. Só que o tempero da vida é o carinho. Pode-se muito bem viver sem ele. Vamos continuar dormindo, acordando, trabalhando, sentindo prazer e até seremos bem felizes com nosso cotidiano. Mas experimente colocar carinho em tudo para perceber como fica muito mais colorido. Tem que trabalhar? Coloque carinho no trabalho, amor, paixão. Cuide dos afazeres como um presente a ser dado a todos. Todo mundo vai perceber os temperos e as cores.

            Gosta dos amigos, dos familiares? Cuide deles, mime-os. Ligue, diga palavras doces. Escreva, mostre-se presente, mesmo longe. Seus pais merecem, por todo o amor incondicional que sempre lhe reservaram. E seus amigos, eles são a família que você escolheu. Então segure-a bem firme junto a você.

            Tem um amor? Muitas vezes achamos que temos um amor, conquistamos e pronto. Ele vai estar para sempre ali. E, realmente, pode sempre estar mesmo. Só que, se você cuidar dele, vai ser muito diferente. Quantos casais existem que se amam, mas se esqueceram da conquista diária. E não era deliciosa a fase da conquista? Por que encerrá-la então? Por que não conquistar todos os dias, mais um pouco? Por que não dizer palavras bonitas sempre, olhar sempre, abraçar sempre, sorrir sempre? Por que não passar a eternidade conquistando, como se fosse a primeira vez? Se aprendemos a  cuidar todos os dias do nosso amor, ele só vai crescer, cada vez mais forte. E mais saboroso.

            Temperar ou não faz parte das escolhas de nossas vidas. Trabalhar, praticar esportes, estudar, estar com os amigos, com seus pais, com seu amor. Colocar carinho e cuidado em tudo, olhar para o outro sempre, deixa tudo muito mais bonito. Dar é tão bom quanto receber. Quando há reciprocidade, então, é mais gostoso ainda. Baixar nossas muralhas e permitir que a generosidade tome conta de tudo. Não será essa a receita de uma vida temperada, colorida e saborosa?

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Preciso de você


        Preciso de você. A frase de sentido mais contraditório que pode existir no mundo. Parece coisa de gente covarde, e pode ser mesmo. Quem diz que precisa de alguém está admitindo que não consegue se virar sozinho. Mas será que existe algo mais corajoso do que admitir que você precisa de alguém?

        Precisar de alguém significa que você não quer fazer ou viver algo sozinho. O que não significa necessariamente que você não possa fazer ou viver sozinho. Todos nós podemos. Se precisarmos, podemos. O ser humano tem uma capacidade absurda de adaptação, e por isso sobrevive às mais adversas situações.

        Bem, existe o precisar em vários níveis. Tem gente que precisa muito dos outros. E precisa porque quer estar rodeado de pessoas. Tem gente que diz que não precisa de ninguém. E prefere ficar isolado.

        Não é ruim viver isolado. É muito mais fácil, até. Não existem decepções, não existem tristezas. Não se sente sozinho. Não se espera nada. Parece perfeito. E é mesmo.

        Mas se é perfeito, significa que é bom? Não sei. Sei que escolho precisar de algumas pessoas. Escolho porque quero tê-las por perto. E gosto quando precisam de mim. Porque não tem nada mais gostoso nessa vida do que se sentir útil para alguém. Quanto mais amo, mais preciso. Preciso que cuide de mim, e preciso que precise de mim. Precisar de alguém é entregar-se, é um presente que se dá a pessoas que escolhemos como especiais em nossas vidas. É dizer a alguém quão importante ele é. É destacar quem se ama de toda a multidão.

        Mas precisar mesmo, não precisa. Ruim mesmo é quando você não tem essa consciência, e pensa que depende de todo mundo pra viver. Mas é legal quando você escolhe as pessoas que você precisa. E quando você sabe que foi escolhido. E passa então a compartilhar sua vida. E existe algo mais corajoso do que entregar parte da sua vida a alguém? E existe algo mais gostoso do que compartilhar sua vida? 


quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O que é um amor louco?


        Não consegui entrar na palestra do Xico Sá na Escola São Paulo hoje, sobre crônicas. Fiquei chateada, estava muito curiosa para assistir essa palestra. Não só porque o Xico Sá escreve textos divertidíssimos, mas porque adorei o nome: "Crônica de um amor louco".

        Estou há dias imaginando o que seria a tal crônica de um amor louco. Adoro amores loucos. E o que seria um amor louco para o Xico Sá, fico me perguntando. Será que ele vai falar realmente de um amor louco ou simplesmente escolheu um nome de impacto para sua palestra?

        Bom, já que por enquanto vou ficar sem saber o que é um amor louco segundo Xico Sá, vou aqui brincar de descrever um amor louco segundo eu mesma.

        Amor louco obviamente não tem lógica nenhuma. Amor louco é clichê total. São brigas arrebatadoras, aquelas de fazer tremer o corpo inteiro e ter vontade de matar ou morrer, para no instante seguinte fazer as pazes, sorrindo, e esquecer o motivo de tanto desatino. Amor louco é odiar na mesma proporção em que se ama.

        Amor louco é enlouquecer pelo cheiro, pelo toque. É tornar-se um animal, seguir os instintos mais primitivos. É esquecer de qualquer regra de civilidade entre quatro paredes.

        Amor louco é recitar textos que fariam até um autor de novelas mexicanas sentir vergonha alheia. Recitar, repetir e ainda achar que está impressionando. E, pior ainda, conseguir MESMO impressionar a outra pessoa com essas baboseiras.

        Amor louco é ter aquela sensação de que não haverá dia seguinte. Todo aquele que ama loucamente tem no seu subconsciente a certeza de que ocorrerá uma hecatombe nuclear a qualquer instante, e por isso todos e quaisquer assuntos devem ser resolvidos e vividos agora. Porque o amor louco não suporta sequer pensar em resolver qualquer coisa no dia seguinte.

        Amor louco é dramático. Tudo é intenso. O amor louco usa lentes de aumento gigantes, já que nada é insignificante. O medo, a felicidade, o ciúme, a insegurança, a saudade, o matar a saudade, tudo tem proporções gigantescas.

        Amor louco é incompreensível para quem está de fora. E também para quem está de dentro. Amor louco a gente inventa. Pra se distrair. Mas é bem melhor se você conseguir encontrar um outro louco que aceite viver isso tudo com você. Porque senão você vai ganhar é uma ordem judicial restringindo sua proximidade da vítima. E isso não vai ser nada divertido. Embora seja bem louco.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Valsinha

         
Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito
de sempre chegar
olhou-a de um jeito muito mais quente
do que sempre costumava olhar

        Estava voltando para casa numa madrugada, quando a minha amiga Priscila viu um casal dançando no ponto de ônibus. Achou bonitinho. Já que tinham que esperar o ônibus, resolveram se divertir.

            Imediatamente me veio à cabeça a canção "Valsinha", do Chico Buarque. Chico sempre me emociona, em diferentes momentos da vida e por diversas razões. Pode não ser um grande cantor, mas interpreta com tanto sentimento seus versos que esquecemos que ele não é lá muito afinado. E com aqueles tímidos olhos verdes, para que ser afinado, oras bolas.

            Valsinha conta a história de um casal já desgastado pelo cotidiano e suas dificuldades. Um dia, o marido resolve chegar diferente. Olha para sua esposa com olhos de homem, e não de marido. Esse simples olhar faz com que ela se sinta mulher de novo, desejada. E a convida para passear, sem falar das suas agruras diárias.  A canção vai crescendo, e junto com ela a mulher, que resolve se fazer bonita para o seu homem, já que finalmente vai ser olhada. Renasce. E saem para passear, começam a dançar, trocam carinhos apaixonados, e ficam mais bonitos, e enxergam tudo mais bonito, e tornam tudo ao seu redor mais bonito.

            A canção termina e você se sente feliz. Começa a achar tudo ao seu redor mais bonito também. E tem vontade de dizer palavras lindas para quem você ama. Ou, se não ama ninguém, acaba ficando com vontade de amar.

            Amor torna tudo mais bonito. Tantas vezes ficamos afogados em nossos próprios problemas, sem achar solução, nos sentindo infelizes, quando na realidade basta olhar para quem está ao nosso lado. E que também está se sentindo afogado em seus próprios problemas e se sentindo sozinho, tanto como nós mesmos. Uma palavra bonita, um gesto de carinho e de doação, esquecer um pouco de si próprio e provocar um sorriso no outro têm um efeito muito mais que terapêutico. Uma alegria provocada em alguém expulsa a sua própria tristeza. E sua alegria vai contagiando todos ao seu redor. E a única coisa que você fez foi sair do seu mundinho e olhar para o outro ao seu lado.

            Funciona com amigos, com o trabalho e principalmente no amor. Sair de si próprio, olhar e desejar. Olhar e sentir as necessidades. Olhar e escutar. Olhar e falar. Olhar e tolerar, entender. Olhar, olhar sempre. Olhar e se permitir ser olhado. Não existe amor entre pessoas que não se olham.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

É só amor, nada demais...

           Se tem uma coisa que a gente não escolhe na vida, é quem a gente ama. Podemos escolher nossa profissão, onde vamos morar, nossos amigos, o estado de alegria ou de tristeza, mas não quem a gente ama. Podemos até escolher quem a gente quer ao nosso lado, compartilhando nossa vida, e podemos até dizer que isso é amor, e chegar mesmo a acreditar nisso. Podemos até agir como quem ama, mas ainda assim vai ser muito diferente daquilo que se sente por quem a gente realmente ama.

            A gente pode amar a pessoa mais errada do mundo, e sabe disso. Mas a gente continua amando. A gente sabe de todos aqueles defeitos, de todas aquelas fraquezas, sabe e enxerga, mentira quem diz que o amor é cego. O amor não é cego não, ele vê tudo. É que o amor não julga, ele simplesmente ama tudo o que vê. É aquele jeitinho diferente de sorrir, um dentinho meio torto, um jeito destrambelhado de andar, aquele tique nervoso, aquela impetuosidade que a todos aborrece, tudo isso que é irritante aos olhos dos outros parece lindo aos olhos de quem ama. E a gente defende o ser amado com todas as nossas forças, mesmo percebendo o quanto ele erra.

            Os moderninhos de plantão adoram estabelecer regras ao amor. Dizem que ele só funciona se você não perder sua individualidade. Dizem para respeitar a liberdade. São tantas regras, é tanto respeito que parece até difícil amar. E se eu sentir saudade e quiser ligar? E se eu estiver carente e precisar de um abraço? E se eu me sentir insegura e quiser chorar? E se eu não gostei do jeito que você me tratou? Não, não pode. Tem que respeitar, tem que agüentar tudo sozinha. Porque é tudo problema meu, e não da outra pessoa. Não se pode importunar o outro com as nossas necessidades, porque afinal de conta ele tem as dele e você não pode ultrapassar limites.

            Só que amar é invadir e querer ser invadido. É querer que a pessoa saiba de todos os detalhes da sua vida. É querer dividir. Na verdade, nem é dividir. Não existe o meu e o seu quando se ama. Não se imagina provar algo sozinho, não se imagina que aquele sabor especial não possa ser sentido também por quem se ama. Tudo o que se experimenta, tudo o que se sente, cada alegria, não se consegue imaginar que o outro não sinta também.

            Parece absurdo? Pois é sim. Ou melhor, é amor. Amar muda a gente. Quem ama faz coisas que  jamais imaginaria fazer por alguém. Aquele ser tão egoísta, de repente passa a cuidar e acarinhar. A pessoa avessa a carinho, passa a passear de mãos dadas e querer ficar abraçadinha. O não romântico passa a dizer palavras bonitas e enviar flores. Quem ama esquece toda a carcaça que construiu para si próprio, perde todas as defesas. Parece insano, não? Mas não é não.

            O problema é que, quem vai despertar tudo isso na gente, não é questão de escolha. Mas é questão de escolha querer viver isso tudo. Sério, você não precisa viver esse tipo de coisa. Não vai ser mais ou menos feliz por causa disso. Nem melhor ou pior que alguém. Afinal de contas, é só amor. Não é nada demais.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Apaixone-se!

         

        O apaixonado é um injustiçado. Criou-se para ele a imagem de um ser etéreo, desligado, totalmente alheio a qualquer outra coisa que não seja o objeto de sua paixão. O apaixonado tem fama de improdutivo, de um ser com o qual não se pode contar, pelo menos enquanto ele estiver nessa fase assim, digamos, "anestesiada".

         Pois acredito que estar apaixonado não é, de forma alguma, estar em algum estado distante da realidade. Muito pelo contrário. O apaixonado é o ser mais focado do mundo. Ele direciona todas as suas forças ao objeto de sua paixão, e todos os seus atos se voltam para bem realizar aquilo que ele deseja.

        Talvez a confusão aconteça porque, quando dizemos paixão, a primeira coisa que vem à cabeça das pessoas é o amor romântico. Mas existem tantas outras paixões… Paixão por um ideal, por um esporte, por um trabalho, por uma vocação, por um talento, por um país, um lugar … até por dinheiro, por que não? São as paixões que nos movem. E tanto mais nos movemos quanto maior for a nossa capacidade de nos apaixonar. É incrível pensar que aquilo que fazemos por paixão tira do nosso corpo a preguiça, a tristeza, o desânimo. Mais incrível ainda a sensação de ver realizado aquilo em que tanto nos empenhamos, com a emoção. Mesmo que aquilo não tenha aparentemente utilidade alguma. Digo aparentemente, porque sempre tem uma utilidade. Ainda que essa utilidade seja unicamente proporcionar a sua própria alegria.

        Mesmo a paixão romântica é produtiva. Quem está apaixonado por alguém se empenha em dar o melhor de si. Quer ficar mais bonito, mais inteligente, mais gentil. Descobre que pode ser uma pessoa melhor. Aliás, quer ser uma pessoa melhor para impressionar a sua paixão. Ok, para quem olha de fora um casal de apaixonados é às vezes um pouco irritante. Mas é só porque nos sentimos excluídos de tanta felicidade. Somos invejosos, isso sim.

        Tem gente que não se apaixona por nada, e fico pensando o porquê. Talvez seja o mesmo motivo pelo qual tem gente que não consegue se apaixonar por ninguém. O medo. Apaixonar envolve o risco de se expor ao ridículo, de falhar, de errar, de ser criticado, de se decepcionar. Então parece mais cômodo ficar quietinho no seu canto, vivendo sem se mexer, sem sofrer e sem euforia. Só vendo o tempo passar. Assim não se erra, afinal de contas. Assim apenas se observa.

        O apaixonado é mesmo ridículo. Fala bobagens, faz bobagens. O tempo todo. Mas é que ele faz muito. O apaixonado é tão eufórico que tem idéias e mais idéias. E é lógico que metade delas cai por terra. Mas tem a outra metade que dá certo, sim. Só que o apaixonado é tão exagerado que dá a impressão de que só acontece o errado. E todo mundo ri e critica o apaixonado. Mas quer saber? Ele não está nem aí. A alegria de um apaixonado é algo que só outro apaixonado compreende.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Feliz Dia dos Homens!

        O dia está quase finalizando, mas ainda dá tempo de eu deixar aqui a minha homenagem a esses seres tão discriminados e incompreendidos, os homens. Quando acordei vi os primeiros registros virtuais a respeito do tema e não dei muita importância, mas afinal nunca dou mesmo importância a esses dias especiais. Mas, nesse caso, o que era indiferença foi tornando-se uma diversão.

        Os primeiros testemunhos na internet foram tímidos, de estranheza: como assim, hoje é Dia do Homem? Aos poucos, as pessoas foram assimilando a idéia e surgindo os primeiros parabéns. Mas esses parabéns, poucos assimilados ainda, tornaram-se, mais tarde, chacota. Homens lindíssimos, abdomens tanquinho…. para então passar para a chutação de balde geral, que foi a divertidíssima frase que circulou pelo Twitter e Facebook mais  ou menos assim: Parabéns aos homens de verdade; aos moleques, aguardem o Dia das Crianças!

        Depois de um irreverente protesto masculino, que dizia assim: "Já pensou eu vir aqui e dizer: parabéns a todas as mulheres maravilhosas, mas as cachorras que esperem o dia de vacinação.", comecei a pensar como realmente deve viver em crise constante o homem moderno. Nós mulheres nem conseguimos admitir que eles possam ter um dia só deles! Exigimos nossas homenagens, mas nos recusamos a prestá-las, ou prestamos somente àqueles que achamos que merecem!

        Vejam só a dificuldade, meninas. Se eles atacam, são invasivos. Se esperam o ataque, são frouxos. Se eles não se arrumam, se depilam, malham e não são cheirosos, são ogros. Se fazem tudo isso, são metrossexuais. Se ficam em rodinhas para discutir futebol e falar de mulheres com os amigos, são machistas. Se andam demais com meninas e são sensíveis, adoram filmes de arte, acabam virando o irmãozinho, o amigo gay. Se são prestativos e cuidadosos, tratamos como escravos. Se não fazem nada por nós, tachamos de homem das cavernas. Caramba, como eles vão entender como devem se comportar?

        Bem queridos, em nome da classe feminina eu não vou entregar a resposta de bandeja para vocês. Mesmo porque creio que nem temos a resposta exata. Somos instáveis mesmo, e desde que o movimento feminista e os meios de comunicação nos deram canais de manifestação, resolvemos colocar todos os nossos sentimentos para fora. E somos como o mar, com vários humores num só dia. Mas quero deixar registrado que amamos vocês sim. Amamos o menino que existe em vocês, porque a natureza colocou em toda mulher, por menor que seja, um tantinho assim de instinto maternal. E suspiramos pelo Super-Homem, mas é o Clark Kent que nos enternece. E reclamamos por reclamar, porque se elogiamos demais vocês, vocês se acomodam. E nem tentem ser perfeitos conosco, porque toda perfeição é enjoativa, já que nunca é verdadeira. E é tudo tão mais simples do que parece ser, incluindo nós mulheres.

        Enfim, minhas sinceras homenagens a vocês, queridos homens. Por existirem assim como são, tão diferentes de nós. E que vocês continuem matando baratas por nós através dos séculos, por favor.