sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Até logo, Anjinho


        
       Meu anjinho, a quem dei o nome de Fidel, foi embora. Foi embora cedo porque, como todo anjinho, veio apenas fazer uma visita breve aqui na Terra. São muitas as pessoas a visitar, e anjinhos não podem perder tanto tempo assim com uma pessoa só, afinal de contas.

        Mesmo assim, Fidelzinho ficou aqui comigo um pouco mais de tempo do que o devido. Sua doença poderia tê-lo levado embora um pouco antes. Ah, mas eu dou muito trabalho, e então ele decidiu ficar mais um pouco. Na verdade, continuo dando trabalho, mas ele achou que o tempo já era suficiente. E que agora eu poderia começar a resolver meus dramas sozinha.

        Um anjinho de alegria, isso é o que ele era. Gatinho divertido, carismático, engraçado, tagarela. Nunca se incomodava com nada, vivia num mundinho particular em que tudo era diversão. Adorava a irmãzinha brava, e embora ela morresse de ciúmes dele, o contrário nunca aconteceu. Ele sempre a olhava com admiração, fechava os olhinhos para apanhar e continuava, seguindo e amando. Um perfeito cavalheiro.

        Me mostrava como era comer com prazer, dormir com prazer, se divertir de verdade. Corria pela casa destrambelhado, escorregava, derrubava coisas, caía, e quando isso acontecia, colocava as orelhinhas para trás e arrancava risadas de todos. Me recebia todos os dias com uma carinha tão gostosa e se despedia de mim com outra que deixava metade do meu coração em casa. Companheiro no banho, na hora de escovar os dentes, na hora de estudar, no choro, no mau humor. Meu companheirinho inseparável pela casa.

        Quando descobri o PKD, uma doença genética típica de persas, os dois rins já comprometidos, aprendi ainda outra coisa. Aprendi que amor deve ser dado agora, neste momento. Não tem como deixar para depois. E eu passei a amar esse serzinho a cada dia, a cada minuto, a cada crise, como se fosse nossa despedida. E eu aprendi que é assim que deve ser, em qualquer situação. E o Fidelzinho correspondeu ao meu amor assim, com  a mesma intensidade. Aproveitando um ao outro, cada minuto.

        Em sua última noite, ele não pregou os olhos. Dormi perto dele, e acordava a todo instante para ver se estava tudo bem. Mas ele não dormia. Olhava a paisagem da varanda, como que querendo gravar cada detalhe. Eu senti que ele se despedia do mundo. Mas não demonstrou dor, não demonstrou sofrimento, os olhinhos brilhantes o tempo todo.

        Foi embora. E me ensinou assim a lidar com perdas. Me ensinou que tudo o que existe pode desaparecer em um segundo, sem que possamos fazer nada. E a vida vai seguir em frente, mesmo assim. E vamos aprender a viver sem aquilo que perdemos. Mas podemos ganhar outras coisas. Que não irão substituir aquelas que perdemos, mas que vão fazer a nossa vida continuar a seguir. E que aquilo que perdemos, na realidade não perdemos, apenas se transformou, pois vai ficar para sempre em nosso coração, fazendo parte da nossa história, daquilo que somos.

        Vai em paz, meu anjinho. Obrigada por ter me feito tão feliz. E por ter me amado tanto. E por ter me ensinado tantas coisas. Vai espalhar agora sua alegria em outras paragens, que você me ensinou também a ser menos egoísta.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Como é que morre um amor?


        Como é que morre um amor? Sim, amor morre. Pode morrer de morte morrida ou de morte matada. Vai doer das duas formas, porque a gente nunca entende porque um amor morre. A gente não quer que o amor morra, porque não devia ser assim. Então, a gente luta, luta e luta. E às vezes a gente salva o amor. Mas às vezes não tem jeito mesmo.

        Amor pode morrer de morte morrida. Vai morrendo devagarzinho, a gente nem percebe. No dia a dia, o encanto vai desaparecendo, o que era empolgante passa a ser trivial, e quando nos damos conta, o sentimento virou outra coisa. Virou carinho, virou ternura, virou um amor diferente. Virou um sentimento gostoso, mas não é mais aquele amor que a gente sentia e nos fazia sentir cada vez mais vivos, fazia os olhos brilharem e o coração bater mais forte. Fazia enxergar o mundo mais colorido.

        Tem quem continue junto mesmo assim. É um sentimento que não é ruim, é apenas confortável. Não tira mais o fôlego, não emociona. Mas é reconfortante. É seguro.

        E tem quem lute para ressuscitar esse amor. E às vezes consegue. Mas é que ele ainda não tinha morrido de vez, respirava bem pouquinho, lá no fundo. Aí, é só jogar uma bomba de oxigênio em cima. E ele renasce, vai ficando forte de novo. Mas não é todo mundo que consegue perceber a morte do amor a tempo de salvá-lo.

        Doída mesmo é a morte matada. Porque ela é consciente e racional. Violenta. O coração não quer, mas a mente percebe que o coração está cego. Percebe que só o amor não basta. Existe todo o resto, existem os problemas, insolúveis. As incompatibilidades, inconciliáveis. Os desejos, opostos. O amor ainda é forte e vive, mas as pessoas não conseguem encontrar um caminho comum.

        A decisão de matar um amor não pode ser uma simples fuga. Tem que ser bem pensada. Tem que ser depois de muita luta. Porque, se não for assim, não se mata um amor. Um amor é muito forte, não sucumbe a qualquer tacada. A tacada tem que ser certeira. Se você não tiver certeza, não vai conseguir acertar o amor. E só vai se machucar, porque ele vai sobreviver, e não vai deixar você em paz. E vai voltar, mais forte ainda.

        Então, antes de decidir matar um amor, temos que lutar muito por ele. Esgotar todas as suas possibilidades. Convencer-se de que realmente tudo foi feito. E que não tem mais jeito. Não há mais espaço para arrependimentos. Estar consciente de que vai doer. Vai doer muito. Mas é a única solução.

        O bom de tudo isso é que essa dor vai passar. Parece que não, mas passa. Um dia, vamos acordar e perceber que já não dói como doía antes. Que a ausência, antes tão sentida, tornou-se uma nostalgia. Uma recordação boa. Vamos lembrar que sentimos um amor muito grande. E que lutamos muito por ele. E que vivemos intensamente esse amor. Mas que ele teve que morrer, por amor. Amor ao outro e amor a nós mesmos.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Viajar, sempre


        Vou começar o ano falando de uma das coisas que mais amo fazer: viajar. Afinal, nesta época do ano, é o que todo mundo mais planeja na vida. Até mesmo aqueles que não são lá muito chegados em mudar a rotina, sentem-se na obrigação de viajar, só para não se sentirem losers. Porque, vejam só, Natal, Ano Novo, final e recomeço de ano, é tempo de inovar, encerrar ciclos e iniciar outros.

        A obrigação de viajar neste período é tamanha que muita gente se sente frustrada porque não consegue realizar uma viagem bacana. Parece até que existe uma competição entre as pessoas, para ver quem consegue planejar o final de ano mais legal. Torna-se uma neurose tão grande que o que vale é o que você vai contar, as fotos que você vai trazer, como você vai provar que se divertiu horrores.

        Bem, já deu para perceber que esta não é uma das minhas épocas favoritas do ano, não? Toda essa obrigação de ser feliz realmente me cansa. Assim como me cansa essa obrigação de viajar quando todos os hotéis estão lotados, as praias intransitáveis, os preços, nas alturas.

        Também não me agrada o tipo de viagem que predomina nesta época do ano. Porque o que mais se encontra neste período é aquele viajante que apenas mudou de posição geográfica. Funciona assim: o cidadão diz que ama viajar, planeja tudo, faz as malas e vai. Chega, visita os lugares, paga ingressos, tira fotos e tudo o mais. Só que não sai do seu mundo de jeito nenhum. Vive exatamente como viveria em sua casa, em sua cidade, em seu trabalho. Não sai do mesmo grupo de amigos, dos mesmos assuntos, dos mesmos pensamentos, da mesma rotina. Ou seja, apenas mudou de lugar. Vai voltar exatamente como foi.

        Mas ok, cada um vive como bem entende e eu não tenho nada com isso. É que para mim viajar é algo mais. Viajar é desligar-se do próprio mundo e permitir que outros entrem. Conhecer pessoas, ouvir histórias e observar. Descobrir novas maneiras de viver e pensar. Conhecer sabores novos, e perceber que é possível gostar do que não se gostava antes. Concluir que aquilo que parecia tão necessário na maioria das vezes não é. E que conforto é estado de espírito, e não depende de lençóis macios apenas. E que beleza está naquilo que não conhecemos e aprendemos a observar, e não na grandiosidade de monumentos. E que o sabor da comida daquele botequim em que você bate um papinho gostoso com o cozinheiro é um milhão de vezes melhor do que o daquele restaurante badaladíssimo e impessoal em Nova Iorque.

        Talvez porque para mim viajar seja tudo isso, e não apenas o ato de conhecer novas paisagens, eu tire poucas fotos. Fotos documentam aquilo que vemos, e não aquilo que sentimos. Tudo aquilo que sentimos e aprendemos numa viagem, fica cravado em nossos corações, mudando nossas vidas pra sempre. E talvez por isso uma grande e luxuosa viagem à Europa traga para mim a mesma felicidade que uma viagem a uma cidadezinha simples cravada entre as montanhas de Minas Gerais. Não é aquilo que documentamos que faz a viagem valer a pena, mas sim aquilo que nos enriquece e nos transforma. Viajar é a chance de experimentar outra vida.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O amor da gente




        Existem teorias que funcionam muito bem para a amizade, para os negócios e para as relações familiares, mas que nunca funcionam no amor. O amor é um sentimento único. O que une as pessoas que se amam é algo mais que amizade, é algo mais que família. Família a gente não escolhe, a gente nasce nela e aprende que ama e pronto. Amigo a gente escolhe e ama, mas amigo a gente escolhe conforme o humor da gente. Tem amigo para dar risada, amigo para ter papo cabeça, amigo para ir ao cinema, amigo para sair para dançar, amigo para viajar, amigo para falar de música… Tem até amigo para chorar as mágoas e cuidar da gente.

        O amor da gente não. O amor da gente foi escolhido para todas as horas. Escolhido não, encontrado. Não significa que a gente tenha que ficar grudado no amor da gente. Mas significa que o amor da gente, se precisar, vai escutar aquele papo cabeça, mesmo achando sem sentido as coisas que você fala. E significa que nós até topamos ir assistir aquele show horroroso de uma banda que a gente odeia, se o amor da gente realmente ficar feliz com isso. Significa que, mesmo sem vontade de assistir TV, ficamos do lado do amor da gente, só para poder ficar perto e mostrar para ele que pode contar conosco, sim. Em todas as horas. As mais legais e as mais chatas. Naquelas horas em que você teria vergonha de chamar qualquer amigo. Naquelas horas em que você mostra que é muito mais que um amigo. Parece asfixiante? Pode ser, mas só se a pessoa não for o amor da gente.

        Por isso, não adianta pedir ao amor da gente que não abra mão de nada por você. Quem ama abre mão, sim. Porque a vida é feita de escolhas, e se você tiver que escolher entre ver o seu amor feliz ou satisfazer o próprio desejo, com certeza você vai escolher ver o seu amor feliz. Ah, porque não tem nada que faça a gente mais feliz do que ver o amor da gente feliz. Então, no fundo, você não está abrindo mão de nada. Quem consegue fazer o seu amor feliz nunca perde nada.

        Também não adianta dizer ao amor da gente que ele está invadindo nosso espaço. Porque se alguém estiver invadindo nosso espaço, então esse alguém não é o amor da gente. Porque com o amor da gente a gente quer compartilhar tudo. Ligar no meio da tarde para contar que o companheiro de trabalho fez uma piada idiota, até isso a gente quer compartilhar. É gostoso ter alguém para compartilhar todos os nossos passos. É gostoso ter alguém para quem a gente não tem vergonha de contar todos os nossos passos. É a delícia de se ter intimidade, de não ter medo de parecer ridículo. Então, o amor da gente não invade espaços. Simplesmente porque, para ele, todos os espaços estão abertos.

        Tem gente que tem tanto medo de se perder dentro do amor da gente que fica se protegendo e não passa da porta de entrada. Acredita que está amando, mas não consegue sair de dentro de si. Nem deixa o outro entrar.

         Dá medo sim viver no mundo do outro. E dá mais medo ainda deixar o outro viver em seu mundo. Pois sair de si mesmo para navegar em um mundo desconhecido, e permitir também que naveguem em seu mundo, é uma aventura desafiadora. Uma aventura que poucos têm coragem de enfrentar, um salto de pára-quedas, um mergulho no oceano, um downhill de mountain bike. Tão bom que, depois que a gente consegue, quer repetir mais e mais. É isso. O amor da gente é como uma aventura, daquelas de que não desistimos diante das dificuldades. Porque mesmo com as dificuldades, ele é uma delícia de se viver.


domingo, 11 de dezembro de 2011

E nunca houve uma mulher como Gilda!

        Morro de inveja de mulheres sedutoras. Nunca consegui ser uma, e não foi por falta de vontade. Quando eu era criança, gostava de imaginar que tipo de mulher eu me tornaria. Talvez por influência da TV e do cinema, sonhava em ser algo como a Gilda, de Rita Hayworth. Aquela mulher que já acorda com as ondas perfeitas no cabelo e tem os cílios postiços de nascença. Que se movimenta feito um cisne, linda e elegante, indiferente a tudo. Alguém consegue imaginar Gilda em um ângulo desfavorável? Ou no banheiro, como todas as simples mortais?

        Não, Gilda é sempre linda. Seus movimentos são perfeitos, seus olhares são arrebatadores, seu sorriso derrete qualquer machão. O curioso é que mesmo assim é infeliz.

        Na realidade, em nosso imaginário tanto faz se Gilda é ou não infeliz, e quais os seus motivos para isso. Motivos para infelicidade, todos nós temos, em maior ou menor propensão. E já que é assim, melhor pagar o preço dessa infelicidade, se o resultado é ser tão linda e ter o mundo aos seus pés.

        Fiquei então pensando o que faria algumas pessoas mais sedutoras que as outras. Seduzir tem toques de magia. O sedutor consegue criar uma atmosfera de fantasia, algo irreal. Ele seduz porque inebria. E quem inebria, faz com que o inebriado não aja mais por si só, mas apenas em busca da manutenção dessa fantasia.

        Pessoas excessivamente transparentes, tais como a desengonçada que vos escreve, jamais serão sedutoras. Não sabemos criar esse ambiente fantástico, o tal jogo do cobre e descobre, o mistério que cega e anestesia, o mecanismo de punição e recompensa. O sedutor nunca diz o que pensa, ele insinua, deixa a vítima em constante dúvida, controla sua mente nesse jogo de adivinhação eterna. O ser humano não consegue conviver com a dúvida. Quando instalamos a dúvida, prendemos, acorrentamos.

        Só que acorrentar não é o mesmo que ser amado. Talvez por isso Gilda seja infeliz. Talvez seja difícil conviver com o vazio dessa irrealidade que o sedutor cria ao redor de si mesmo. Talvez esse estado constante de dúvida atormente ainda mais o sedutor que o seduzido. Talvez porque os seduzidos, quando despertam, voltam-se violentamente contra o sedutor. E isso acontece tanto no amor, quanto nas amizades, quanto nos negócios.

        Vai ver então que é melhor apenas conquistar. Mostrando a alma, os defeitos, as qualidades. Conquistar, diferentemente de seduzir, é ganhar a confiança. É mostrar que você está ali, de coração aberto, na hora que o outro precisar. Conquistar não exige beleza, charme ou inteligência, exige apenas sinceridade. E quem é sincero pode não ser idolatrado, mas é sim, verdadeiramente, amado.

        É, fiz um discurso até bem bonito em minha defesa. E vamos lá, posso dizer que tenho sido razoavelmente amada durante toda a minha vida. Na realidade, normalmente ou me amam ou me odeiam, é esse o preço que se paga pela transparência. Mas é que tem dias que me bate uma vontade muito grande de ser Gilda…  Ah, pensando bem, talvez não. É mais gostoso (e fácil) ser real.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Xô, preguiça!




        Eu tenho preguiça. E muita. Aliás, todo mundo tem, não é mesmo? Duvido que mesmo Steve Jobs não tenha sentido preguiça durante a vida dele. Duvido que todos esses autores de livros motivacionais sigam o que pregam, sejam sempre proativos e nunca sintam preguiça.

        Uma delícia dormir e acordar na hora que der vontade. Passar o dia no sofá vendo televisão, de pijamas. Ler apenas revistas de fofocas, não colocar o cérebro pra pensar, só deixar o tempo correr. Ter alguém para cozinhar, lavar, arrumar a casa e os armários, cuidar dos meus gatos, enfim, não ter que fazer absolutamente nada. Aliás, nada não. Bom mesmo é ter tempo livre para se fazer o que quer.

        Mas quem disse que o preguiçoso tem tempo livre? Tem nada. Porque fazer nada toma tempo. E acontece que o preguiçoso é muito ocupado. E acontece também que o preguiçoso tem preguiça de fazer o que gosta. Pior, acontece que o preguiçoso tem preguiça de pensar no que gosta de fazer. Porque até fazer o que se gosta dá trabalho.

        É, daí o preguiçoso olha ao seu redor e pensa no tanto de coisa que deveria fazer. E dá mais preguiça ainda. E as coisas a fazer vão se acumulando, e tudo vai ficando cada vez pior. Bom, aí o preguiçoso entrega para Deus e fica na sua, já que tudo se torna impossível.

        Olho para meus gatos dormindo deliciosamente na minha frente e penso: ah, mas que preguiça gostosa… queria ter essa vida…

        Que nada. Quem disse que gatos são preguiçosos? Gatos passam do estado de sono para o estado de alerta em um milésimo de segundo. São extremamente organizados e não suportam bagunça nem sujeira. Cuidam muito bem do próprio asseio. São hábeis caçadores. Lição de vida: por isso desfrutam de um sono tão prazeroso.

        Então tá. Preguiça não é tão gostoso assim quanto parece. Preguiça dá agonia. Preguiça dá insônia. Preguiça dá irritação. Preguiça dá insatisfação.

        E como sair do estado de preguiça então? Ai, difícil de saber. Na verdade, é necessária uma força danada para vencer a preguiça. Porque ela é forte pacas. Mas só no início. Com o tempo, vamos negociando com ela até uma hora em que ela resolve esquecer da gente. Só não pode esquecer de negociar. Porque ela é tão esperta que a qualquer momento pode voltar e nos dominar. E aí, tome renegociações! E do zero…

        Este é um texto bem preguiçoso. Um texto de quem sequer arrumou a cama ao acordar e esqueceu de apertar o botão da máquina de lavar roupa. Mas pelo menos colocou o cérebro e as mãos para funcionar e resolveu fazer alguma coisa. Então, D. Preguiça, vamos negociar. Amanhã você vai me deixar em paz, ok?


terça-feira, 29 de novembro de 2011

Eu tenho medo da Bella


        Finalmente, a saga Crepúsculo chegou ao fim, ao menos nos cinemas. Pelo visto, com bem menos fôlego, porque não percebi a histeria que cercou os filmes anteriores. Mas, sei lá, também não convivo com tantos adolescentes assim.

        E qual seria o motivo da histeria? Ah, os meninos, é claro. Opostos e bonitos, cada qual ao seu jeito, capazes de gerar debates femininos sobre quem seria o exemplar masculino perfeito. O musculoso e impulsivo lobinho ou o cavalheiro e sofisticado vampiro. Ambos apaixonados pela adolescente desajeitada e medrosa, disputando o seu amor e por isso mostrando o que de melhor possuem.

        Bella Swann é uma mocinha bonitinha, mas não esplendorosa. Não possui nenhum atributo pessoal, nada que a distinga das demais mocinhas. Mas mesmo assim conquista o coração do ricaço misterioso e do fortão dedicado. Ah, o sonho de qualquer adolescente, dois príncipes encantados complementares a seus pés, sem que nada se tenha feito para isso, bastando apenas existir. Existir, com todas as suas inseguranças, medos. Mesmo assim, machos redentores estão ali, dispostos a cuidar de você, protegê-la de todos os perigos, desinteressadamente.

        Muito confortável. Confortável e altamente perigoso. Em determinado trecho de um dos filmes (sim, assisti trechos dos filmes e tentei ler os livros, antes de falar mal), a mocinha, abandonada pelo seu príncipe riquíssimo, resolve que vai se expor a situações de risco, pois descobre que dessa forma ele surge para protegê-la. Gente, qual a mensagem disso? Significa que, quanto mais frágil você for, mais perto o macho estará perto de você. Que quanto menos independente você for, menor o risco de perder o seu homem. Bella corre o risco de morrer para não perder o seu protetor.

        Pior ainda: Bella não tem qualquer objetivo na vida, nenhuma ambição, nenhum projeto pessoal, nada que lhe agrade realmente fazer. Não possui qualquer dote especial. Quer dizer, sua ambição, e pela qual luta obstinadamente, é ser vampira. E como pretende fazer isso? Unindo-se a um vampiro, apenas isso. Assim como periguetes e marias-chuteiras, que ambicionam ascensão social pelo casamento. Alguém poderia me apontar a diferença?

        Sei lá qual o efeito que isso tudo tem sobre o inconsciente das mocinhas. Tenho medo de que uma geração inteira de meninas saia prejudicada com tantos clichês. Que elas se tornem mulheres que, no futuro, pensem que o seu valor está na quantidade de homens que conseguem manipular com sua fragilidade. Sim, porque fragilidade atrai machões, e muitos. Uma mocinha frágil desperta o instinto de virilidade em machos inseguros. E machos inseguros disputam entre si, para provar quem é o melhor. Na realidade, pouco importa a mocinha. Importa provar quem é o mais macho, o mais perfeito.

        Mocinhas que são mulheres de verdade não suportam homens que não desejam a seus pés, por isso nunca se vê um mulherão sendo disputado por dois machões. Homens babões incomodam, atrapalham o caminho. Mulheres de verdade sabem o que querem, e dispensam com carinho aqueles que não querem. Porque não precisam de estepes para ampará-las quando se vêem sozinhas. Porque na realidade se viram muito bem sozinhas, e se amam alguém jamais será por dependência.

        Só homens de verdade têm coragem de se apaixonar por mulheres de verdade. Porque mulheres de verdade têm objetivos, têm talentos. Produzem, mobilizam. E homens de verdade não temem ser superados. Pelo contrário, admiram ser superados. Homens de verdade não têm tempo a perder com caprichos, porque não querem carregar ninguém, querem andar de mãos dadas. Embora dê muito mais trabalho, já que só homens de verdade sabem que a real virilidade está não só apenas em proteger, mas também em se permitir ser protegido.

        Enfim, esse é o meu desabafo feminista. Na verdade, talvez essas mocinhas manipuladoras sejam muito mais felizes que nós, pobres feministas lutadoras. Afinal, existem muito mais machos inseguros do que homens de verdade. Então… que venham mais Bellas Swann!

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Perigo!


        Eu estou no meio de uma TPM danada. É muito curioso porque há anos interrompi a menstruação, e um dos motivos é exatamente esse. É simplesmente uma questão de segurança pública. Mesmo assim, de tempos em tempos, logicamente com espaços muito maiores do que o normal, eu vivo esses sintomas, talvez por conta do inconsciente coletivo que faz com que todas as mulheres entrem num transe deslumbrado durante um certo período.

        Um amigo me contou que se trataria de uma revolta das mulheres contra os homens, e realmente inconsciente, pelos maus tratos sofridos durante toda a História da Humanidade. Seria um período em que todas descontariam suas agruras sobre este ser repressor, o Homem, que nada compreenderia e nada poderia fazer, portanto.

        Realmente, é algo que homem algum pode compreender. Nem nós mesmas. Na realidade, acho que esse meu amigo tem razão. Porque em determinado momento usamos nossos hormônios como desculpa para vivenciar esse estado que chamamos de TPM. E que na realidade mesmo significa: TODAS AS PARANÓIAS MULTIPLICADAS.

        Sim, porque é na TPM que o seu lado mais podre é revelado. Se a sua essência é de mulherzinha mimada, você fará biquinho o tempo todo. Se é de romântica incurável, vai chorar vendo comercial de margarina. Se quer ser mãe a todo custo, vai roubar o filho da vizinha.

        Agora, se você, como eu, é um monstro dominador que na realidade só se finge de cordeiro para poder viver em sociedade, minha amiga, tranque-se numa jaula. Porque a humanidade corre perigo, é sério. Porque em TPM eu me sinto capaz de destruir qualquer coisa com as mãos. E nem sonhe aparecer de cor de rosa na minha frente, que posso transformar esse cor de rosa em vermelho. Não me fale em príncipes encantados, nem em historietas de amor com final feliz. E se cantar música sertaneja então, morre! Choramingou, fez biquinho, ah, vai pastar….

        E a coisa é tão séria que já houve até o caso de uma mulher que matou o companheiro e foi inocentada, por estar em TPM. Não foi considerada culpada, por não estar no controle de suas faculdades mentais. Sim, homens, a nossa vingança sempre se come fria. Quem mandou vocês nos oprimirem tanto? Dá-lhe TPM agora.

        Bom, mas ainda bem que é só um surto. Depois, voltamos a ser domesticadas e podemos conviver em paz com os outros seres e com o ecossistema. Eu, do meu lado, vou ficar aqui quietinha na minha casa, por um tempo, por precaução. E não digam que eu não avisei.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Me dá um abraço?

       
           Eu adoro abraçar. Abraçar amigos, família, amores, meus gatinhos, e até almofadas e travesseiros. Não sou assim do tipo carinhoso grudento, daqueles que ficam alisando continuamente,  mesmo porque não tenho paciência para fazer a mesma coisa durante muito tempo, mas adoro esse momento abraço. Aquele momento de sentir o calorzinho do corpo da pessoa, sentir o coração dela batendo, de sentir uma pele respirando da outra. Parece que nesse momento você se entrega, se doa, pede para que confiem em você, dá e recebe aconchego.

        Tem gente que não gosta de abraçar. E tem gente que gosta, mas não aprendeu a abraçar. Eu teria mil histórias para contar a respeito de abraços, mas não posso. Perderia grande parte de meus amigos que, afinal, já devem ficar bastante ressabiados comigo, pois ultimamente qualquer conversa, qualquer fato vivido, corre o risco de virar uma crônica publicada aqui. Mas a verdade é que adoro abraçar quem não sabe abraçar. Adoro dar abraço urso nessas pessoas. Até elas saírem cambaleando, feito meus gatos, que odeiam os meus abraços. Ou fingem que odeiam, pois são gatos e nunca vão demonstrar o quanto adoram ser amados.

        Mas não consigo abraçar quem não gosta de ser abraçado. Sabe quando você está abraçando e a pessoa vai te soltando, bem rápido? Aí eu sinto medo. Medo de rejeição. Medo de incomodar. Acho que ninguém gosta da sensação de ser indesejado. Mas por que será que tem gente que não quer ser abraçada?

        Abraçar é mostrar emoções, simples assim. E não é todo mundo que quer demonstrar emoções a torto e a direito. Já eu nasci com essa necessidade irrefreada de transparência, de mostrar o tempo todo o que eu estou sentindo. Alegria, tristeza, carinho, ódio, decepção, raiva, amor, desespero, angústia, insegurança, qualquer tipo de emoção que você puder imaginar, caso ainda não tenha conseguido entender, você vai perceber no meu rosto, nos meus gestos, nas minhas palavras, nas minhas atitudes. O que, eu sei, às vezes é desesperador para mim e para as pessoas que me cercam.

        Abraçar é ainda um ato de entrega, de vulnerabilidade, de confiança. Quem abraça diz que está ali, pronto para dar e receber carinho, quebrando as fronteiras da individualidade por alguns instantes. Quem abraça com vontade abre aquela porta da alma para o outro ver, permite que a alma diga pro outro vem, pode me visitar.

        Só que às vezes você não consegue abraçar aquela pessoa que você mais ama. E não consegue entender. Abraça todo mundo, menos quem você mais ama no mundo. Por exemplo, eu demorei para conseguir abraçar meus pais. E até hoje eles não aprenderam a me abraçar direito. Filhos de japoneses, para eles amor é algo mais prático, é algo que se demonstra pela presença constante e segura. Todo o resto é supérfluo. Ou talvez eles não queiram que eu veja a alma deles, queiram apenas que eu os veja como fortes, sempre. Não foi de todo ruim.

        E por que eu estou escrevendo tudo isto? Porque escrever para mim é um abraço. Um abraço em quem eu conheço e também em quem eu não conheço. Este turbilhão de emoções ambulantes que sou eu às vezes se embaralha todo na vida real. Aí eu tenho que escrever, para organizar tudo. E acho até que tenho me saído bem. Então é isso. Estão aqui as minhas emoções para você que eu não conheço. E para você que eu conheço, amo e nunca consegui abraçar decentemente, eu peço o seu abraço.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

De mãos dadas


        Eu sempre choro em cerimônias de casamento. Choro porque acho lindo e acredito em casamentos, e as cerimônias, quaisquer que sejam, simbolizam essa união. Está lá para quem quiser ver, a despeito de todo o carnaval e qualquer comércio que se tenha criado sobre essa instituição. Mas calma, acredito em casamentos, e não em príncipes e princesas encantados, e muito menos em foram felizes para sempre, por simples magia, sem qualquer trabalho.

        Gosto da idéia do casamento, seja lá qual for o formato pelo qual ele se manifeste. A idéia de duas pessoas que, dentre tantas no mundo, se encontraram e escolheram uma à outra para viver os seus sonhos, desejos e tristezas, me encanta. Acho essa escolha um ato de extrema coragem que só pode ser tomado com muito amor. Você escolhe que é aquele alguém que vai caminhar com você, de mãos dadas. Outras tantas pessoas vão surgir pelo caminho, mas é naquelas mãos que você segura. Em algumas horas segura para apoiar, em outras segura para se apoiar. Segura porque confia. Segura porque sabe que vocês querem chegar ao mesmo lugar, mesmo que em alguns momentos vocês tenham que desviar um pouco do caminho. Aí vocês se soltam, sem medo, porque, em algum momento, os caminhos vão voltar a se encontrar, e vocês poderão continuar andando de mãos dadas. Não há pressa em chegar, e nenhum dos dois pensa em chegar antes do outro. O bacana é o caminhar de mãos dadas, o bacana é chegar onde se pretende juntos. Ou então não ficar triste se não conseguirem chegar. O que importa mesmo são as mãos dadas.

        Casamento para mim é isso, andar de mãos dadas. E isso não implica em morar junto, visitar os familiares nos fins de semana, agüentar churrascos dos amigos de trabalho. Sim, pode até ser isso, se você gostar do pacote tradicional. Mas o pacote tradicional não é necessário para que se viva um casamento.

        Tem gente que pensa que é casado, mas não é. Aí se põe a falar mal de casamento. Diz que casamento destrói o amor. Que nada. Casamento só existe enquanto houver amor. Se você não sente amor, não é casado. Se você não respeita, não admira, não confia e não faz planos com o seu cônjuge, você não é casado. Se você não se sente à vontade para falar o que pensa, de ligar na hora que der vontade, de contar como foi seu dia, de reclamar de Deus e do mundo inteiro num dia ruim, de usar uma camiseta horrorosa e rasgada para assistir televisão, e se a pessoa não tem paciência para tudo isso, você tem um roomate, não está casado. Vocês estão um ao lado do outro, mas não de mãos dadas. Suas mãos apenas se tocam de vez em quando, nos momentos de prazer.

        E é por isso que eu gosto tanto das cerimônias de casamento. Nelas as pessoas tornam pública a sua escolha, nelas as pessoas contam para todo mundo que pretendem caminhar juntas. E isso exige muita coragem. Porque ninguém quer dizer para todo mundo que fez uma escolha, para alguns dias depois desistir dela. Ou melhor, não deveria…. mas isso é outra história, estou ainda no simbolismo. Quem escolhe diz a todo mundo por quem vai lutar, apesar de toda essa dificuldade que é amar. Sim, pois amar não é fácil, exige carinho, foco, e muito trabalho, diário. Como tudo na vida que tem importância, aliás. Ah, e as mãos dadas, sempre.