quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Um grude só


         

         Amor bom é amor grudado. Isso mesmo, amor chiclete, amor corda e caçamba, amor tampa de panela. 

         Se a sua parte contrária começa a reclamar por espaço, por um tempo sozinho, diz que está precisando sentir saudade para tornar a relação saudável... provavelmente não está mais tão empolgado assim. Se diz essas coisas logo no começo do relacionamento, então, aí é que não deve estar a fim mesmo!

        Porque quando a gente ama a vontade de estar junto não tem fim. É um tal de querer contar tudo o que se faz, de querer saber o que o outro está fazendo, de querer fazer coisas juntos e também de querer ficar ali quietinho, sabendo que o amor está ao lado.

       É também um ficar enfastiado com as manias, com as chatices, com a bagunça ou com o excesso de organização, com a vontade de querer controlar ou ser controlado, uma irritação sem fim, mas uma incapacidade de ficar separado. É ficar com saudade cinco minutos depois da despedida. É brigar e fazer as pazes logo em seguida.

        É ficar tão grudado que se tem a impressão de desgaste. Mas desgaste é também amor. Não se sente desgaste de quem não se ama, simplesmente porque não ficamos perto de quem não amamos o suficiente para sentir o tal desgaste.

      Mas melhor ainda que amor grudado é amor emparelhado. Sabe aqueles amores em que temos um objetivo em comum? Pode ser um hobby, um trabalho, um ideal. Ou tudo isso junto. Amor emparelhado justifica o amor grudado. Um alimenta o outro.

      Tem coisa melhor que compartilhar uma paixão, ou várias paixões, com seu amor? E comemorar juntos as vitórias, e chorar juntos as derrotas.  E levantar juntos, lutar juntos, aprender juntos. E o melhor de tudo: poder ficar sempre grudado.

       Amor precisa de paixão para viver. Paixão não só um pelo outro, mas paixão pela vida. E paixão pela vida é criar, é construir, é sonhar, é viver. Porque quem não tem paixão nenhuma na vida não vive.  E amar, amar mesmo, só ama quem está vivo.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Portas abertas



    Minha casa é meu ninho, onde cada detalhe foi colocado por mim. Onde cada cantinho tem um pedaço meu de vida. Pintei paredes, coloquei objetos, tirei objetos, escolhi as cores, as almofadas, as flores… Até mesmo cada arranhadura na parede, cada móvel um pouquinho quebrado, faz parte da minha história.

    Não importa o que aconteça, quando chego em casa sinto um abraço. Um abraço em mim mesma. Gosto dos cheirinhos, sinto o carinho dos meus gatos. Nela, parece que nada de ruim pode me acontecer.

    Confesso que, quando vim morar aqui, tive medo. Esta foi a primeira casa onde morei verdadeiramente sozinha. Era a primeira vez que eu iria ser responsável por tudo. Foi assustador, era o fim de uma história e o começo de outra, completamente nova. E eu nem sabia ainda que história queria escrever.

   E tudo foi acontecendo assim, sem planejamento. E muitas, mas muitas coisas mesmo aconteceram. Nesta casa aprendi a ficar sozinha. Sempre gostei de ficar sozinha, mas aqui percebi que eu realmente conseguia ficar sozinha. E aprendi também a encher a casa de amigos, a pedir arrego nas noites tristes, quando não queria dormir sozinha. 

    Fico impressionada ao imaginar o quanto estas paredes viveram. Quanto me viram feliz, quanto me viram triste, quanto me viram enfurecida… E fico imaginando: será que quem entra aqui consegue perceber o quanto de mim está conhecendo?

  Pois é, abrir a casa da gente é como abrir o coração. Mostrar, escancaradamente, quem é você. E ainda quem são seus amigos, quem são seus amores. Está tudo registrado ali, para quem quiser observar.

    Talvez por isso muitas pessoas não gostem de receber pessoas em casa. Tive uma amiga no colégio que tinha pavor de que qualquer pessoa vislumbrasse, pela porta, qualquer detalhe da casa dela. Eu não. Gosto de abrir minhas portas.

   Gosto de dividir o que vivi. Gosto de dividir o que sinto. Não sei me expressar muito bem por palavras faladas, não sei demonstrar afeto. Não sei controlar minha raiva, tenho minhas emoções à flor da pele. Sou ansiosa pela verdade, não consigo fingir, não consigo mentir. Abrir minha casa é abrir meu coração, é pedir que me compreendam apesar das aparências. É pedir que não me vejam, não me escutem, mas sim, me sintam.

   E escrever? Escrever é mostrar meus sentimentos ao desconhecido. É contar minhas histórias, aquelas que somente minha casa registrou, a pessoas que talvez jamais visitem a minha casa. E que talvez jamais cheguem a me conhecer pessoalmente. E que, talvez por isso, compreendam muito mais meus sentimentos e medos do que quem está ali, ao lado, sofrendo as consequências de minha falta de habilidade social, de minhas emoções. Escrever é poder ser matéria bruta, abrir as portas da casa, do coração, da vida.

   Ou talvez seja um mero pedido desesperado de carinho.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Casar ou comprar uma bike?

     

      Ser solteiro é uma delícia. Ou um horror. Assim como ser casado pode ser o paraíso ou o inferno. 

     Ser solteiro significa usufruir de todo o seu egoísmo. Significa que o tempo é todo seu, para estudar, praticar esportes, trabalhar, viajar, sair com os amigos, aliás, sair com quem quiser, na hora que quiser. Significa que a pessoa que você mais ama no mundo é você mesmo. Investir na carreira, crescer, ganhar um dinheiro que é só seu. E com esse dinheiro só seu, comprar as roupas que puder, fazer as massagens que der vontade, freqüentar os restaurantes que escolher, viajar para qualquer parte do mundo, fazer as bobagens que passar pela sua cabeça. 

    Significa chegar em casa e encontrar as coisas exatamente do jeito que você deixou. Fazer a própria bagunça e arrumar quando der vontade. Cozinhar o que quiser, se quiser e na hora que quiser. Escolher se quer ver tv ou ler, dormir no sofá ou na cama, ficar de pernas para o ar ou trabalhar feito uma louca. Escolher se quer ficar bodeada sozinha ou encher a casa de amigos.

    Parece mesmo a descrição do paraíso, não é mesmo? E é sim. Mas então, por que as pessoas casam? Bem, uma grande parte das pessoas se casa porque na realidade elas não dão muita conta do paraíso. Tem solteiro que perde a maior parte do seu tempo procurando alguém, sem se dar conta de que está na companhia de uma pessoa maravilhosa, você mesmo. E aí realmente a solteirice é um inferno. E então se casam para aplacar a suposta solidão, só para ter alguém ao seu lado. O que obviamente não funciona, e passam do inferno da solteirice ao inferno do casamento. 

     Mas casamento pode ser sim, o paraíso. Adoro casamentos de verdade, e o que chamo de casamento não é a instituição, mas o casamento de coração, aquele em que você resolve partilhar a sua vida com alguém. E partilha não porque precisa, muito pelo contrário, mas porque ama. A vida compartilhada é muito complicada, exige respeito, paciência, leniência. Mas vale muito a pena. Provoca um aprendizado e um crescimento diferente daquele que acontece quando estamos solteiros. 

     Ser casado significa fazer concessões, abrir mão de algumas coisas e fazer outras que você não está tão a fim assim. Significa que o espaço e o tempo não é mais todo seu. Significa que as decisões serão tomadas a dois. 

     Parece um horror, mas não é. Ser casado é também acordar com o beijo de quem se ama, é ter alguém para segurar sua mão na hora de dormir. É ter alguém para ligar no meio da tarde para contar uma besteira, alguém para rir de suas bobagens, poder ser ridículo sem ter medo de ser rejeitado. É ter alguém para contar seus planos, para sonhar, para contar o seu dia. É ter alguém ao seu lado vendo tv enquanto você lê. 

    É bom demais ser solteiro, sim. Mas é também bom demais ser casado. Desde que você esteja casado por opção. Porque, parafraseando Renato Russo, casar é trocar a segurança do seu mundo por amor. É uma escolha. 

   Por isso não acredito em meio-termo. Ou assumimos a solteirice ou assumimos ser casados. Qualquer coisa diferente disso é puro medo. Medo de ficar sozinho. E se nem você suporta viver em sua companhia, quem mais suportará, não é mesmo?

segunda-feira, 28 de maio de 2012

E agora, Crisinha?


   Meu paizinho ficou velho. Pois é, aconteceu. Foi devagarinho, eu nem notei direito. As falhas no sistema foram ocorrendo de maneira tão sutil e gradual, que nem me dei conta do que estava acontecendo. Mas agora que percebi tomei um susto.

   A primeira vez que me dei conta disso foi num restaurante. Fui pedir senha para aguardar uma mesa, e a mocinha me disse que daria prioridade porque eu estava com pessoas idosas. Parei e olhei para trás e vi meu pai e minha mãe. Como assim, pessoas idosas? Para os meus olhos ainda eram o meu alicerce, aquele que nunca se rompe, mas a outros olhos eram pessoas idosas. Mas sim, olhei para o meu pai e percebi que realmente alguma coisa era diferente do que sempre foi. 

   Os ouvidos começaram a escutar cada vez menos, e ele, que tinha reflexos tão rápidos, agora dirige devagar. Sabe aqueles velhinhos que atravancam a nossa passagem na rua? Pois é, meu pai, que sempre ultrapassou todos, implacável, agora dirige assim. Aquela curiosidade que sempre me inspirou a aprender, agora também obedece a um ritmo mais lento. O raciocínio demora um pouco, as respostas tardam a vir. As nossas conversas agora são pausadas, para que ele possa compreender e responder depois de pensar um pouco. O corpo que, embora pequeno, sempre foi tão forte e tão disposto, agora se cansa rápido. Sempre tão preocupado com o asseio e a aparência, agora escolhe qualquer roupa no armário para vestir.

   São vários os médicos, vários os remédios, vários os exames, difícil de saber se isso faz bem ou mal. Mas olho para ele e sinto que tudo mudou, mesmo. Difícil de entender, mais difícil ainda de aceitar, embora seja o ciclo natural da vida.

  Esse velhinho é o homem que me ensinou a sonhar correr o mundo, me mostrando lugares tão diferentes e tão distantes num mapa nas manhãs de domingo. Que me levava, com minha mãe,   para passeios em parques nos finais de semana, para que a filhinha única introspectiva e desengonçada se movimentasse um pouco e aprendesse a brincar com outras crianças. Que voltava do trabalho, todos os dias, com um chocolate nos bolsos.  Que me ensinou a andar de bicicleta. Que me acompanhou nos primeiros shows de música da minha vida. Que acordava na madrugada para ir me buscar nas minhas primeiras baladinhas adolescentes. Que sempre foi amado por todos os cães e gatos, da casa, da rua, de qualquer lugar. Que me ensinou a falar a verdade, sempre, mesmo que as conseqüências não fossem boas. Que me ensinou que de nada adianta se dar bem burlando regras e trapaceando. Que sempre me disse para honrar compromissos, mesmo que a vontade fosse de ficar em casa sem fazer nada. Que sempre deixou bem claro que, dentre todas as crianças, eu era a mais importante da vida dele. Que sempre me protegeu, embora nem sempre me defendesse. Que nunca soube abraçar, nem beijar, nem dizer palavras bonitas, mas me ensinou que amor é mais que isso, é cuidado, é presença, é o poder contar, sempre.

  Eu não sei o que fazer. Tenho medo de não saber cuidar dele como ele cuidou de mim. Mas tenho mais medo ainda de que ele perceba que eu estou com tanto medo assim.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Ensina-me a viver



   Sou uma devoradora de livros, desde criança. Devoradora de histórias, veja bem, porque tudo o que é real demais me cansa. Até hoje não consigo me concentrar em leituras técnicas ou descritivas, o interesse fica próximo de zero.

   Gosto mesmo é de gente. Gosto de saber histórias sobre outras pessoas. Gosto de saber como elas pensam, como elas reagem às diversas situações. Gosto de viver outras vidas.

   Porque ler romances tem disso, essa coisa de viver outras vidas. Quer coisa mais fascinante do que ver um personagem numa situação parecida com a sua, e assistir como ele pensa e reage? E ver a si próprio naquela pessoa, cometendo os mesmos erros? Ou encontrando as soluções possíveis? Ou entendendo o porquê de suas reações?

   Alguns personagens são marcantes em minha vida. Todas mulheres fortes e determinadas, claro, cada uma fascinante a seu modo. Cathy, do Morro dos Ventos Uivantes, com sua passionalidade selvagem. Kate, de A leste do Éden, com uma maldade sem igual, acho que nunca houve alguém tão perturbado como ela. Katia, dos Irmãos Karamazov, aparentemente tão passiva mas tão decisiva no rumo da história. Emma, de Um dia, às vezes é tão assustadoramente eu que já até tive medo de ter o seu mesmo fim trágico.

  Tem também os personagens escritores e os cronistas. Clarice Lispector e Danuza Leão que quase me ensinaram a ter pose de fina. Martha Medeiros que parece minha amiga confidente. Lendo Fabrício Carpinejar me sinto menos ridícula e exagerada. Eduardo Galeano tem sonhos de um mundo melhor que fazem meu coração bater mais forte. Anais Nin me irrita mas se parece tanto comigo, às vezes…

   Um livro com uma história ou um causo bem escrito transforma a vida da gente muito mais que um livro de auto-ajuda. Porque auto-ajuda é como conselho de pai e mãe: a gente sabe que tem que fazer daquele jeito, como é o certo, mas a gente escuta e esquece. Porque conselho não foi feito para ser seguido, a gente sempre faz mesmo é aquilo que temos vontade. E não adianta ficar se informando, esquematizando a fórmula ideal daquilo que parece ser correto, lá no fundo mesmo a gente sempre vai querer algo que não tem nada a ver com o correto. E um dia a gente explode, faz tudo errado, e dane-se a auto-ajuda. 

   Já aprender com histórias é outra coisa. Você se vê na situação, parece que vive aquilo. E tem a chance de ver o resultado de suas ações, de fora. E aí entende o que está acontecendo, ou o que não está acontecendo. E vai aprendendo aos poucos a viver. Ou aprendendo a entender a vida. Afinal, só se aprende viver vivendo, e ler histórias é uma chance de testar várias vidas, sem ter que alterar nada na sua própria.

   Engraçado é ser uma leitora tão contumaz e continuar fazendo burradas vida afora. Engraçado nada, trágico. Ou não. Devoradores de livros e seres imaginativos como eu são aqueles que aparentemente cometem mais erros. Mas é que só erra quem vive. E quem lê e imagina muito vive demais, vive tudo intensamente, até o último suspiro. E bate, e volta, e tenta, e erra, e até acerta às vezes, mas não cansa, vai de novo, para sentir, sentir tudo o que se conseguir, e procurar mais respostas, incessantemente. Não consegue jogar nenhum pedacinho de vida por baixo do tapete.

   Quer saber? Eu quero mesmo é viver, viver para conhecer histórias, para contar histórias. Porque quem diz que essa vida é uma só e tem que ser vivida de uma maneira tranqüila e exata são os livros de auto-ajuda. Ah, e o pai e a mãe da gente.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Imagine, são seus olhos...



Toda modéstia é falsa. Aliás, a expressão "falsa modéstia" devia ser catalogada na língua portuguesa como pleonasmo. Não dá para ser modesto sem ser falso, e ponto.

Veja só as situações possíveis: eu sei que não sei fazer direito determinada coisa, mas faço mesmo assim. Sei que não está bom. Apresento a coisa ao mundo, de maneira constrangida. Não estou sendo modesta, estou simplesmente sendo realista. 

Ou então a situação é esta: sei que tenho talento para determinada coisa, ou penso que tenho. Faço e acho que ficou perfeito. Aí, fico com medo de que as pessoas não concordem com o meu ponto de vista, e apresento timidamente a minha obra. Continuo não sendo modesta, estou sendo é insegura.

Terceiro caso: me acho o máximo, fiz o melhor que pude e o melhor que a humanidade podia receber. Mas acho que vai pegar mal se eu apresentar assim, dessa forma, com toda essa certeza de que sou o único ser humano capaz de produzir algo tão glorioso. Então, respiro fundo, baixo minha bola, faço uma carinha levemente insegura e apresento a minha obra-prima, contendo a minha emoção. Estou sendo modesta. Ou melhor, estou sendo falsa. 

Engraçado como, apesar de falsos, os modestos são muito mais bem vistos. Parece que temos que esconder nossas qualidades. Parece que ter consciência de nossas qualidades pode ser ofensivo ao resto do mundo. Como se quisessem nos dizer: "Ei, calma aí, quem disse que você mesmo pode dizer se é bom ou não em algo? Aguarde o julgamento de outras pessoas, seu metido!".

Eu acho mesmo que os convencidos de si próprios são mesmo é muito corajosos. Pensam que é fácil assumir o risco de dizer que fez uma coisa muito boa e de repente ser rechaçado pelo resto do mundo? Pois é, muito mais fácil colocar o julgamento por conta dos outros e apenas concordar com ele. Aliás, tirar a responsabilidade de si próprio é uma das maneiras mais cômodas de se viver.

Na realidade, sempre sabemos, ali em nosso íntimo, em que somos bons e em que não somos. Eu sei muito bem, por exemplo, que sou muito melhor em atividades intelectuais do que físicas. E não tenho problemas com isso. Podem caçoar de mim à vontade quando saio para fazer meus passeios de mountain bike. Estou me esforçando e dando o melhor que posso, mas sei que não está bom. Por outro lado, não tenho vergonha de dizer que adoro o que escrevo. Fico ainda mais feliz quando recebo elogios, mas aqui dentro eu entendo que eles são merecidos, sim. Também sei que cozinho muito bem, e sou muito criativa naquilo que faço. Qual o problema então de dizer que você está contente com o que faz? Isso não significa que você não tenha consciência de que possa fazer ainda melhor, que embora goste do que produziu, já esteja satisfeito e estagnado. Também não significa que você se sinta melhor que os outros. Significa apenas que você conhece as próprias qualidades. E também as próprias limitações.

Muito bem, abaixo a hipocrisia então. Cozinha muito bem? Então cozinhe para todos os seus amigos e ofereça orgulhoso a sua comida. É um excelente bailarino? Alegre a vida das pessoas com a beleza de seus movimentos. É um bom contador de histórias? Pois faça a vida alheia mais divertida com sua prosa. 

Nós, os convencidos, não temos medo nem vergonha de mostrar aquilo que a gente tem de melhor, para fazer a nossa vida e a dos outros muito mais alegre. Bacana é dividir aquilo que temos de melhor, não é mesmo?

quarta-feira, 21 de março de 2012

Wannabe


     Amiga é tudo de bom. Tudo começa quando a gente é pequenininha e tem aquela menina que é filha da melhor amiga da sua mãe. Compartilhamos nossas primeiras bonecas e nossos primeiros lacinhos de cabelo. Fazemos nossas primeiras dancinhas e matamos de rir os adultos com nossas primeiras gracinhas femininas.

    Então a gente cresce um pouquinho, vai para a escola e surge a nossa primeira grande amiga, aquela que fica com a gente na hora do recreio. Essa hora sempre foi muito difícil pra mim. Sempre fui desengonçada, então brincadeiras lúdicas, nem pensar. Agarrava mesmo era minha amiguinha e sentávamos juntas para tomar nosso lanche e ficar ali, num cantinho, uma fazendo companhia para a outra. De mãos dadas, fugindo da vergonha de ficar sozinha.

    Depois cresce mais um pouquinho, e aí o bando aumenta. São as amigas de adolescência. Ah, aquelas amigas com quem a gente vira a madrugada, fazendo planos, olhando no espelho, conversando sobre os defeitos no nosso rosto, no corpo, nos cabelos… Fala dos meninos, sonha com o futuro, imagina glamour, se maquia, dança no quarto, se apaixona por um astro do rock, ri baixinho para não acordar os pais, até o sol nascer, e aí caímos de sono, todas exaustas de tanto falar, de tanto dançar, de tanto dar risada, de tanto imaginar.

   Vamos para a faculdade, ainda somos adolescentes, mas nos achamos adultas. E continuamos sonhando entre amigas, continuamos falando sobre os meninos, e tagarelamos o dia inteiro, e nos penduramos no telefone, ah, mas ninguém entende o que amigas têm tanto para conversar. E é uma conversa sem fim, um assunto puxando outro, um tal de filosofar e achar que vai entender todos os problemas da humanidade. Surgem as festas, as viagens, as primeiras loucuras. Aquelas coisas que a gente não tem coragem de contar pra mãe alguma, só para as amigas.

   E quando viramos adultas? Bem, as amigas continuam lá. Só que aí você descobre que tem aquela amiga para ir ao shopping. Aquela pra sair para dançar. Aquela para ir ao cinema. Aquela para viajar. Aquela para conversar sobre nossos amores. E aquela para chorar nossos amores. E aquela para virar a madrugada conversando sobre a vida, sobre o cosmos, sobre o nada. E aquela que vai estar sempre ao seu lado quando você precisar, cuidando de você. E tem ainda aquela que você vai querer cuidar. E a outra que você nunca vê, mas está lá no seu coração, sempre presente, como parte de sua história.

    E tem também o momento de glória das amigas. Aquele dia em que saímos em bando, todas lindas. Saímos lindas para nossas amigas, porque dá muito orgulho ter amigas lindas. Saímos para arrasar, e dizemos aos meninos que adoramos ter eles por perto sim, e vamos conversar sobre eles sim, mas hoje é o dia das amigas. Nesse dia somos apenas meninas. Vamos rir de piadas que só nós entendemos. Vamos rir de tudo, vamos falar muito, vamos voltar para casa exaustas. 

   Sabe que nessa hora nem parece que a gente cresceu? Nem parece que trabalhamos, lideramos, produzimos, tivemos mil amores, ganhamos dinheiro, fizemos sucesso, fracassamos, vencemos desafios, enfrentamos derrotas.  Parece que somos ainda meninas. E somos mesmo, ao final. Somos meninas que precisamos de nossas amigas para segurar a nossa mão na hora do recreio. Simples assim. Enfim, o que seria de nós, mulheres, sem nossas amigas, não é mesmo?

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Mudanças


    Minha gata Lua perdeu quase todos os dentes. Fato inesperado, não é ainda uma gata idosa. Todos os exames feitos, nada de errado. Uma gengivite, talvez, por razões desconhecidas. Mas perdeu todos os dentes e por isso sua vida mudou.

   Ficou bastante nervosa por um tempo. Queria comer o que sempre costumava comer e não conseguia, o estômago ficava irritado. Ficou triste, mal humorada, e passou a rejeitar as comidas pastosas de que tanto gostava antes. Queria apenas sua vidinha normal de antes, não estava esperando uma alteração tão drástica em sua rotina.

    Agora já está se adaptando e voltando a ser a gatinha independente e auto-suficiente que sempre foi. Mas me fez pensar como é difícil reagir a mudanças.

   Sempre achamos que a maneira como vivemos é a única possível. Vivemos dentro de um mundinho que escolhemos para nós mesmos, e dele não pretendemos sair, mesmo que pareça que algo não corre muito bem. Até vislumbramos algumas mudanças, algumas saidinhas de nossa redoma, mas voltamos para ela o mais rápido possível, crianças acuadas e amedrontadas. O mundo fora de nossa redoma parece bem assustador. Muito mais fácil pensar como sempre pensamos, viver como sempre vivemos. Sabemos o que dá certo, e também o que dá errado. 

    Mas acontece que de repente, na vida de alguns privilegiados, eis que um grande acidente acontece e destrói violentamente a redoma. E aí surge um ser desprotegido e totalmente perdido no meio do nada. Alguns nem percebem a chance que recebem, e se autodestroem. Outros, como a minha pequena e valente Luazinha, resolvem o mais rápido possível que é melhor sobreviver. 

    E aí se dão conta de que aquela rotina não era única. Que existem várias outras. E que existem outros mundinhos além do nosso. 

    Bom mesmo seria se a gente tivesse a habilidade de viver em vários mundos diferentes, sem se sentir deslocado. Que nada nos causasse estranheza, e que pudéssemos nos divertir em qualquer situação, com quaisquer tipos de pessoas, em qualquer lugar, em qualquer código social. Claro que teríamos sim o nosso mundo favorito, mas esse mundo seria uma soma do melhor que vimos em cada mundo pelo qual transitamos. Seria a soma de nossas escolhas, de nossos maiores prazeres. Construiríamos nosso mundo de acordo com o que queremos, e não de acordo com o que nos é ofertado.

    Quer saber? Isso não é tão difícil assim. Exige só um tantinho de coragem. Ou um tantão. Porque quem tem medo de mudanças, quem tem medo de sofrer e se prende a prazeres temporários, não vai a lugar algum. Como diz a empregada doméstica negra Constantine no filme Histórias Cruzadas, para a adolescente branca por ela criada, que se sente feia e deslocada em seu mundo: "você pode acordar todos os dias e escolher a vida que quer levar, ou então, deixar a vida escolher você". 

    A frase fez toda a diferença na vida da menina. Fez sair da redoma, procurar novos caminhos. Fez dela uma mulher livre. Pois então. A liberdade não é irresponsável. Não significa apenas fazer aquilo que dá vontade. A liberdade está na coragem de assumir e lutar pelas regras que queremos para nós. Ainda que todos digam que você está errado. Ainda que pareça que você está perdendo muitas coisas pelo caminho.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Até logo, Anjinho


        
       Meu anjinho, a quem dei o nome de Fidel, foi embora. Foi embora cedo porque, como todo anjinho, veio apenas fazer uma visita breve aqui na Terra. São muitas as pessoas a visitar, e anjinhos não podem perder tanto tempo assim com uma pessoa só, afinal de contas.

        Mesmo assim, Fidelzinho ficou aqui comigo um pouco mais de tempo do que o devido. Sua doença poderia tê-lo levado embora um pouco antes. Ah, mas eu dou muito trabalho, e então ele decidiu ficar mais um pouco. Na verdade, continuo dando trabalho, mas ele achou que o tempo já era suficiente. E que agora eu poderia começar a resolver meus dramas sozinha.

        Um anjinho de alegria, isso é o que ele era. Gatinho divertido, carismático, engraçado, tagarela. Nunca se incomodava com nada, vivia num mundinho particular em que tudo era diversão. Adorava a irmãzinha brava, e embora ela morresse de ciúmes dele, o contrário nunca aconteceu. Ele sempre a olhava com admiração, fechava os olhinhos para apanhar e continuava, seguindo e amando. Um perfeito cavalheiro.

        Me mostrava como era comer com prazer, dormir com prazer, se divertir de verdade. Corria pela casa destrambelhado, escorregava, derrubava coisas, caía, e quando isso acontecia, colocava as orelhinhas para trás e arrancava risadas de todos. Me recebia todos os dias com uma carinha tão gostosa e se despedia de mim com outra que deixava metade do meu coração em casa. Companheiro no banho, na hora de escovar os dentes, na hora de estudar, no choro, no mau humor. Meu companheirinho inseparável pela casa.

        Quando descobri o PKD, uma doença genética típica de persas, os dois rins já comprometidos, aprendi ainda outra coisa. Aprendi que amor deve ser dado agora, neste momento. Não tem como deixar para depois. E eu passei a amar esse serzinho a cada dia, a cada minuto, a cada crise, como se fosse nossa despedida. E eu aprendi que é assim que deve ser, em qualquer situação. E o Fidelzinho correspondeu ao meu amor assim, com  a mesma intensidade. Aproveitando um ao outro, cada minuto.

        Em sua última noite, ele não pregou os olhos. Dormi perto dele, e acordava a todo instante para ver se estava tudo bem. Mas ele não dormia. Olhava a paisagem da varanda, como que querendo gravar cada detalhe. Eu senti que ele se despedia do mundo. Mas não demonstrou dor, não demonstrou sofrimento, os olhinhos brilhantes o tempo todo.

        Foi embora. E me ensinou assim a lidar com perdas. Me ensinou que tudo o que existe pode desaparecer em um segundo, sem que possamos fazer nada. E a vida vai seguir em frente, mesmo assim. E vamos aprender a viver sem aquilo que perdemos. Mas podemos ganhar outras coisas. Que não irão substituir aquelas que perdemos, mas que vão fazer a nossa vida continuar a seguir. E que aquilo que perdemos, na realidade não perdemos, apenas se transformou, pois vai ficar para sempre em nosso coração, fazendo parte da nossa história, daquilo que somos.

        Vai em paz, meu anjinho. Obrigada por ter me feito tão feliz. E por ter me amado tanto. E por ter me ensinado tantas coisas. Vai espalhar agora sua alegria em outras paragens, que você me ensinou também a ser menos egoísta.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Como é que morre um amor?


        Como é que morre um amor? Sim, amor morre. Pode morrer de morte morrida ou de morte matada. Vai doer das duas formas, porque a gente nunca entende porque um amor morre. A gente não quer que o amor morra, porque não devia ser assim. Então, a gente luta, luta e luta. E às vezes a gente salva o amor. Mas às vezes não tem jeito mesmo.

        Amor pode morrer de morte morrida. Vai morrendo devagarzinho, a gente nem percebe. No dia a dia, o encanto vai desaparecendo, o que era empolgante passa a ser trivial, e quando nos damos conta, o sentimento virou outra coisa. Virou carinho, virou ternura, virou um amor diferente. Virou um sentimento gostoso, mas não é mais aquele amor que a gente sentia e nos fazia sentir cada vez mais vivos, fazia os olhos brilharem e o coração bater mais forte. Fazia enxergar o mundo mais colorido.

        Tem quem continue junto mesmo assim. É um sentimento que não é ruim, é apenas confortável. Não tira mais o fôlego, não emociona. Mas é reconfortante. É seguro.

        E tem quem lute para ressuscitar esse amor. E às vezes consegue. Mas é que ele ainda não tinha morrido de vez, respirava bem pouquinho, lá no fundo. Aí, é só jogar uma bomba de oxigênio em cima. E ele renasce, vai ficando forte de novo. Mas não é todo mundo que consegue perceber a morte do amor a tempo de salvá-lo.

        Doída mesmo é a morte matada. Porque ela é consciente e racional. Violenta. O coração não quer, mas a mente percebe que o coração está cego. Percebe que só o amor não basta. Existe todo o resto, existem os problemas, insolúveis. As incompatibilidades, inconciliáveis. Os desejos, opostos. O amor ainda é forte e vive, mas as pessoas não conseguem encontrar um caminho comum.

        A decisão de matar um amor não pode ser uma simples fuga. Tem que ser bem pensada. Tem que ser depois de muita luta. Porque, se não for assim, não se mata um amor. Um amor é muito forte, não sucumbe a qualquer tacada. A tacada tem que ser certeira. Se você não tiver certeza, não vai conseguir acertar o amor. E só vai se machucar, porque ele vai sobreviver, e não vai deixar você em paz. E vai voltar, mais forte ainda.

        Então, antes de decidir matar um amor, temos que lutar muito por ele. Esgotar todas as suas possibilidades. Convencer-se de que realmente tudo foi feito. E que não tem mais jeito. Não há mais espaço para arrependimentos. Estar consciente de que vai doer. Vai doer muito. Mas é a única solução.

        O bom de tudo isso é que essa dor vai passar. Parece que não, mas passa. Um dia, vamos acordar e perceber que já não dói como doía antes. Que a ausência, antes tão sentida, tornou-se uma nostalgia. Uma recordação boa. Vamos lembrar que sentimos um amor muito grande. E que lutamos muito por ele. E que vivemos intensamente esse amor. Mas que ele teve que morrer, por amor. Amor ao outro e amor a nós mesmos.