sábado, 25 de janeiro de 2014

Sobre tombos e bikes



Caí da bicicleta, tombo feio. Capotei no chão, voei. Me ralei inteira, as pancadas no chão deixaram meu corpo todo dolorido. Não sei bem o que aconteceu. Ou sei lá, acho que sei.

Eu estava com raiva. O pedal quebrado não enganchava minha sapatilha, toda vez eu lá, tentando, duas, três, quatro vezes até dar certo. Além disso, o velocímetro, com a base quebrada, dava mau contato e não mostrava nem minha velocidade nem a distância percorrida.  Eu pedalava com toda a minha raiva, com toda a força que a raiva produz. Não fui eu quem quebrou o pedal, e muito menos o velocímetro. Foi um amor, daqueles que queremos que virem logo um ex-amor, mas fica lá, grudado na gente, teimoso, lembrando que existe a toda hora. Pegou minha bike emprestada, e me devolveu assim. E a cada pé mal enganchado, a cada mau contato do velocímetro, era dele que eu lembrava, e era dele que eu não queria lembrar. Até cair no chão. E trocar a dor da raiva pela dor no corpo.

Caí, mal me mexia, muita dor, braços, pernas e rosto ralados. Fui socorrida, disse a todos que estava tudo bem, dei um sorriso e continuei pedalando. Já não estava mais com tanta raiva. Já não me lembrava mais de nada nem de ninguém, só prestava atenção no meu corpo e na minha dor.

Na verdade, eu só queria que ele tivesse me devolvido a bike exatamente como a pegou. Mais ou menos como a minha vida. Queria que ele pudesse me devolver a minha vida, exatamente como ela era antes de eu ter permitido que ele pegasse emprestada. Não me arrependo de ter emprestado, nem minha vida nem minha bike. Queria apenas que ele reparasse os estragos. Pensei que talvez, sem os estragos, fosse mais fácil esquecer tudo o que se passou.

Agora o corpo todo dói, e dor física nos obriga a ficar quietos. E ficar quieto é a melhor forma de fazer as pazes consigo mesmo. É a melhor maneira de perceber o que acontece conosco quando não cuidamos da nossa única e verdadeira casa, o corpo. E quando você começa a cuidar com carinho do seu corpo, começa a se olhar com mais carinho também. Consegue perceber o quanto nos forçamos a coisas que não somos ainda capazes de realizar, e talvez nunca sejamos. Percebe que tudo tem que estar limpo e organizado para funcionar. Que cada parte de nosso corpo, assim como nós mesmos, tem um ritmo. E que se você não respeita esse tempo, o resultado é cada vez mais dor. A dor é o sinal que o corpo manda quando ultrapassamos nossos limites. É a hora de ficar quieto e observar o que está errado. Ela é sábia. Devemos aprender a ouvi-la, sempre. As dores do corpo e as dores do coração. Para viver sem dor, basta não se agredir. 

Eu estava com raiva porque queria que ao menos os estragos da minha bike ele reparasse, já que os da minha vida eu sempre soube que não seria possível. E achava que assim sentiria bem menos raiva. Mas isso não vai acontecer. Machuquei meu corpo para entender isso. As pessoas não agem como gostaríamos que agissem. Elas causam danos e nem percebem. Acham que não é necessário arrumar nada. E realmente, os danos existem apenas para nós mesmos. Portanto, só nós podemos saber onde estão os estragos e o que realmente nos incomoda.

Arrumei a bike. Ela não está novinha, mas eliminei os problemas que tanto me incomodavam. Assim que passar a dor no corpo, vou girar com ela por aí. E tenho certeza de que nem vou me lembrar que um dia ela esteve danificada. Não é exatamente a mesma bike que era antes de eu ter emprestado. Mas tudo bem, está pronta para rodar. 

Igualzinho à minha vida. Ninguém pode reparar os danos que só eu sei quais são, apenas eu mesma. E ninguém pode me devolver quem eu fui. Só sei que assim que estiver arrumada ela vai girar por aí, pronta para conhecer novos lugares. E para ser emprestada de novo, quantas vezes forem necessárias. Porque vida, assim como a bike, só existe quando alguém as toca, usa, suja, estraga, amassa, arruma, estraga de novo, lava. Bike gasta tem história para contar. E vida também tem que ter muitas histórias para contar. Por isso, vamos lá gastar a vida.